No passado dia 10 de Janeiro, o World Economic Forum lançou o seu Global Risk Report de 2024, como prelúdio do seu encontro anual em Davos realizado esta semana. Neste relatório apontam-se aqueles que a organização considera os 10 maiores riscos globais para os próximos dois anos. Por esta ordem: (1) Desinformação (e misinformation), (2) Eventos meteorológicos extremos, (3) Polarização das sociedades, (4) Ciber-insegurança, (5) Conflito armado entre Estados, (6) Falta de oportunidade económica, (7) Inflação, (8) Migração involuntária, (9) Recessão económica, (10) Poluição.

Já aqui escrevi, há mais de um ano, como o problema da desinformação é não só largamente exagerado como profundamente mal compreendido. Não é exagero dizer que está longe de ser o maior problema do mundo. Na verdade, não há evidência científica para fazer tal afirmação e dizer que este problema é maior do que a guerra, a desigualdade económica, a migração ou as alterações climáticas parece-me até um pouco ridículo. Também não há evidência suficiente para dizer que a “polarização das sociedades” é o terceiro maior problema do mundo, mas isso ficará para outra altura.

O alarmismo e o frenesim em redor deste tema advêm, parece-me, de uma combinação de dois factores. Muita gente quer acreditar que há uma causa simples e unívoca para a instabilidade política e para o sucesso de correntes ideológicas e forças políticas das quais não gosta e que considera até perigosas para democracia. Mais, tal causa, a ser verdade, seria proveniente das intenções maliciosas e acções deliberadas de um grupo restrito e facilmente identificável de pessoas. O que me leva ao segundo atractivo da “desinformação” como factor explicativo da realidade social: esta causa pressupõe que os eleitores, uma vez bem informados, votariam como nós achamos que eles deveriam votar e segundo os seus melhores interesses. Ou seja, a solução seria muito simples: não seria preciso melhorar a vida das pessoas, alterar políticas públicas complexas, imaginar e construir novas coligações sociopolíticas, ou fazer com que as populações se sentissem “dignificadas”. Seria apenas necessário impedir que elas tenham acesso a desinformação e providenciar-lhes a informação correcta. Com informação perfeita, os cidadãos votariam como devem, os “maus” deixariam de influenciar o mundo e os “bons” poderiam governar de forma cívica e bem-intencionada. Ou seja, ironia das ironias, aqueles que gostam de apontar e nomear a desinformação como causa da instabilidade política e das correntes mais destrutivas actuais estão, muito provavelmente, a ser vítimas do mesmo processo de motivated reasoning que acusam os cidadãos, populistas e pouco letrados, de também padecer, quando consomem e acreditam em notícias falsas.

Com uma graça certeira e subtil que lhe é característica, há uns meses, no Público, Rogério Casanova expôs a ironia a que me refiro: “Com a inacção da imprensa tradicional, e a conivência dos russos (provavelmente), os eleitores foram ludibriados e levados a votar contra os seus melhores interesses. Peritos ocultos em salas secretas, munidos de intenções malévolas e algoritmos infalíveis, conseguiram reconfigurar as moléculas de informação a seu bel-prazer, criando poções digitais mágicas, manipulando as vontades de eleitores incautos, transformando-os em paranóicos pré-fascistas, vulneráveis a teorias da conspiração, dispostos a acreditar que o mundo é secretamente governado por uma elite de peritos ocultos em salas secretas, munidos de intenções malévolas e algoritmos infalíveis, capazes de reconfigurar as moléculas de informação a seu bel-prazer, criando poções digitais mágicas, manipulando as vontades de eleitores incautos até eles votarem no homem não esquisito na televisão — portanto, votaram no homem esquisito na televisão.”

Ora, na verdade, a evidência científica diz-nos que, se definirmos o conceito de “desinformação” de forma concreta e precisa, e tentarmos aferir a sua frequência empírica, verificamos que esta é um fenómeno relativamente raro no consumo informativo da grande maioria das pessoas. Há, sem dúvida, pessoas que desconfiam dos órgãos de informação e comunicação social tradicionais e cuja dieta informativa consiste em fontes duvidosas que publicam mentiras. Sabemos também que este grupo de pessoas geralmente consome muito conteúdo deste tipo. Ou seja, o consumo de desinformação está fortemente concentrado num grupo específico e muito pequeno da população. Mas, na verdade, essas pessoas consomem esses meios de desinformação porque já desconfiam das chamadas instituições tradicionais, sejam elas noticiosas, científicas, políticas ou económicas. Naturalmente, são também, em grande parte dos casos, pessoas já radicalizadas. Isto é, essas pessoas não perdem a confiança nas instituições por causa das notícias falsas, das redes sociais ou de canais informativos heterodoxos. Estas pessoas vão activamente à procura de notícias falsas ou circulam em determinados meios informativos, sociais e políticos alternativos porque já desconfiam. A desconfiança destas pessoas vem antes, e não depois, do seu encontro com a “desinformação”. Note-se, no entanto, que esta é uma proporção reduzida da população. A maioria das pessoas não consome frequentemente e maioritariamente noticias falsas ou “desinformação” intencional proveniente de fontes duvidosas. E quando, por acaso, se depara com elas nas suas redes sociais habituais, online ou em encontros sociais, a maioria não fica a acreditar instantaneamente nelas, como Paulo na estrada de Damasco. A razão é simples: convencer uma pessoa é muito difícil e convencer uma pessoa contra as suas pré-concepções é mais difícil ainda. Quantos de nós seríamos convencidos caso víssemos 2 noticias falsas por semana e 200 notícias verdadeiras sobre a realidade?

É isto que nos diz a evidência científica. Claro que, uma vez confrontados com o facto empírico de que a “desinformação” é uma coisa rara, muitos argumentam que devemos alargar o conceito de “desinformação” para englobar quaisquer visões do mundo, narrativas, ou ideologias que, não utilizando factos errados, levem à construção de uma leitura da realidade duvidosa, mesmo que a intenção inicial não seja enganar deliberadamente os leitores. O problema desta definição é que, de tão lata, torna difícil de definir o que é informação ou desinformação sem recorrer a conceitos e preferências marcadamente ideológicas e valorativas sobre a realidade. Há quem alargue ainda mais a definição, dizendo que a “misinformation” engloba coisas como as crenças pré-científicas (como o bruxedo), a ignorância (em relação à verdade ou à ciência), os nossos vieses cognitivos (de que todos sofremos), o engano genuíno não intencional, o erro e a falibilidade humana em geral. Mas, naturalmente, esta definição torna-se demasiado lata para chamar a tudo isto “misinformation”. Afinal de contas, já sabemos – há muitos séculos – que a procura da verdade e o exercício da razão e da lógica são coisas desejáveis e que a mentira, o engano e a ignorância são coisas más. Chamar a isto o maior problema global para os próximos dois anos parece, portanto, ou inútil ou enganador.

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