A direita vive hoje alguns cismas, que a esquerda habilmente explora em seu proveito e que têm sido a sua (da direita) desgraça junto do eleitorado mais jovem; e, isso, em prejuízo da sociedade. Mas já lá vamos.

A direita, saída vencedora do pós-guerra, e tendo tido com a dupla anglo-americana Thatcher-Reagan – e o indelével contributo de São João Paulo II – o seu pináculo moral, económico e social, adormeceu. E quem adormece acaba por perder o rumo dos acontecimentos. A esquerda – mais Gramsciana, até, que Marxista – invadiu as universidades, as redacções, o espaço público, a magistratura, e por aí fora foi e chamou a si a batuta da normatividade cultural. Dirá o leitor mais céptico que isso não é bem assim e contraporá a esta afirmação sobre a vaga sinistra de que falo que há excepções. Agradeço o reparo e sublinho a palavra excepções.

Graças ao capitalismo, a direita garantiu para os povos liberdade económica e prosperidade. Promoveu a mobilidade social como nunca e permitiu a satisfação das expectativas de melhoria das condições de vida como ninguém. Graças à economia social de mercado, na Europa, o centro-direita democrata-cristão garantiu a protecção dos mais vulneráveis, como em mais lado nenhum.

Mais: será necessário relembrar o papel do conservadorismo liberal na vitória sobre as tiranias e na defesa da liberdade? E como não reconhecer, do ponto de vista da defesa e segurança, o papel da Aliança Atlântica na preservação da paz?

Ainda antes e mais teoricamente falando: como não recordar – excepção feita aos conservadorismos que surgiram por reacção directa e rejeição vital à e da Revolução Francesa – os contributos inestimáveis dos pensamentos conservadores, liberais e democratas-cristãos na defesa das democracias liberais, verdadeiro garante de respeito pela vontade popular, liberdade dos indivíduos e protecção das minorias contra as opressões?

E, no entanto, a direita democrática parece estar em crise. Para a debelar, parte da direita tem vindo a clamar pela necessidade de reafirmação dos valores. Contra o relativismo niilista, os movimentos neo-marxistas, as políticas identitárias e, súmula de tudo isto, as agonizantes crises pessoais em que os indivíduos parecem mergulhados neste dealbar de século, há uma direita que quer “recuperar” os valores e, soi-disant, a moral para o debate político.

Numa coisa, as direitas parecem concordar: a moral é essencial. Mesmo a generalidade das correntes liberais assim o entendem. A destrinça entre o bem e o mal é essencial. Mas quando falamos de moral, falamos de uma moral que guia, ou de um moralismo que impõe? Falamos da moral como tradição ou da moral como ideologia? Talvez nesta matéria, as coisas sejam mais difíceis de consensualizar. E talvez seja aqui que os cismas eclodem.

A direita – sobretudo em Portugal – tem tido muita dificuldade em adaptar-se ao tempo presente. As questões da vida, da sexualidade e dos costumes têm sido explorados ad nauseaum pela esquerda para criar uma fractura que o comportamento da direita tem tornado insanável, e que o país tem pagado em atraso económico, em perda de liberdade e em atraso civilizacional. Com a esquerda (hoje mais radicalizada que nunca) a marcar o compasso. A mesma esquerda, que defende o socialismo (literalmente: com nacionalizações, expropriações e ataques à iniciativa privada), que nunca criou riqueza e condenou à fome e à miséria milhões de pessoas. A mesma esquerda, que sempre foi contra a União Europeia em favor de uma Internacional Socialista. A mesma esquerda, que sempre foi contra a NATO, suspirando saudosa pelo Pacto de Varsóvia. A mesma esquerda, que procura conflito em cada esquina da sociedade e o espalha nas ruas e nunca teve qualquer apreço pela estabilidade política. É essa esquerda que tem acantonado a direita no fundo da caverna. Sim, disse caverna e não foi por acaso; para lembrar alguns comportamentos pré-históricos de alguns e para lembrar a alegoria de Platão a todos. Mas prosseguindo, já agora, esta é a mesma esquerda que, em Portugal, tem suportado o PS no Governo e que nos últimos anos se tem infiltrado mesmo neste último, ao ponto de almejar verosivelmente a sua liderança.

Quero com isto dizer que deve a direita abandonar a defesa dos valores? A defesa da moral como alicerce de uma sociedade livre? Não deve.

A família, mas também as associações locais, os municípios, as IPSS, as Misericórdias, as ONG, toda a sociedade civil, estruturada ou espontânea, são corpos intermédios essenciais à mitigação de poderes autocráticos e garante de liberdade. Sabemo-lo, pelo menos, desde Tocqueville. O que também sabemos desde então e até há mais tempo, com Burke, é a importância que a religião e as igrejas têm na formação moral dos indivíduos e na coesão social dos países. O que sabemos, pelo menos desde Locke, é que o Estado, nas suas elementares e poucas funções, deve proteger o direito à vida.

Mas, então, porque é que falo de cismas? Porque quando falamos de valores, importa saber do que falamos. Da defesa moral da família, ou da defesa moralista da heteronormatividade? Da defesa moral da vida, ou da defesa da mutilação física e até da punição com a morte de quem não a defende? Da tradição moral da liberdade religiosa e da separação entre a Igreja e o Estado, ou da subjugação do espaço público, impondo uma moral ideológica, a uma confissão religiosa?

Há nestas matérias, à direita, e a esquerda sabe-lo bem, uma vertigem moralista que compromete a moral. Como se cada tema tivesse de ter uma resposta maniqueísta, como se a direita tivesse de ser a anti-esquerda. Dir-me-ão que não é bem assim; mas a tibieza e o preconceito com que tantas vezes a direita sai a público para falar da agenda LGBT e a radicalidade moralista com que aborda os temas dos costumes contrariam essa tese. Ou é necessário lembrar que ainda há pouco tempo, com Assunção Cristas na presidência, a mesma que foi acusada de liderar um partido “moderninho”, o CDS votou contra a igualdade de direitos da mulher no divórcio? Onde é que está nisto a modernidade? Onde é que está nisto a sensatez?

Enquanto a direita portuguesa não for capaz de ultrapassar estas questões, digamos, de divã, como os conservadores britânicos, a CDU alemã ou os Populares espanhóis já fizeram, dificilmente poderão encontrar uma plataforma de entendimento para colocar a sua agenda na ordem do dia. E enquanto isto não acontecer, sempre que a crise apertar e ela está aí, a sociedade estará a discutir, nas mãos da esquerda, os “valores” com a algibeira, o estômago e o futuro cada vez mais vazios; a direita, essa, permanecerá acantonada na caverna.

Repito e remato: quando falamos de moral, falamos de uma Moral que guia ou de um moralismo que impõe? Falamos da moral como tradição ou da moral como ideologia? A escolha da segunda opção dos pares conduzirá o país e o Ocidente ao passado, sim; mas não ao passado idílico que nos querem fazer crer, que já agora nunca existiu, mas antes a um passado de intolerância e barbárie, do qual já se vão descortinando manifestações.

Nós só queremos que não se metam na nossa vida e que não prejudiquem a nossa ambição de uma vida melhor e de uma vida melhor para os nossos filhos, do que aquela que recebemos dos nossos pais. Creio, nisto, estar muito acompanhado na sociedade portuguesa.