Há uma anedota que sempre me fez sorrir mais do que rir. Com o meu pedido de desculpas à avó, que lembrava sempre que Graças a Deus muitas, graças com Deus nenhumas, cá vai: perante uma grave crise, os Céus ordenaram que um líder mundial em representação da Humanidade subisse para um tete-a-tete com Deus. No regresso, com muita ansiedade, todos lhe perguntaram, então, como é que Ele é? Como resposta obtiveram um Ela é negra. Porque é que conto esta anedota? Por duas razões: a primeira, porque ela brinca com certezas absolutas e isso vale ainda mais a pena em tempos de extremismos emergentes; a segunda, porque sinaliza dois problemas ainda persistentes que uma sociedade decente já não deveria tolerar: a falta de poder fático das mulheres e o racismo.

Hoje falemos de racismo. Racismo é a crença que os seres humanos se dividem em categorias biológicas distintas e exclusivas chamadas “raças” e que existe uma relação causal entre traços físicos e traços psicológicos, de personalidade, intelectuais e morais; e que há “raças” superiores a outras. O termo também é usado politicamente para justificar discriminações com base no mesmo princípio. Nojento, não é? Eu espero enquanto se recompõe. Já aqueles que discordam da definição, podem, entretanto, reclamar directamente para os responsáveis da Enciclopédia Britannica.

O ignóbil Ventura acha que Portugal tem um problema cigano e quer cercá-los para o conter. Já com a operação Monte Branco, a operação Lex e a operação Marquês, repletas de homens brancos nas listas de arguidos, Ventura não acha que temos um problema branco. Faz bem e é esperto. Faz bem, porque dizê-lo seria uma estupidez, porque não se pode generalizar uma característica de identidade de um grupo de foras-da-lei para todos os que partilham essa característica de identidade, como se toda a identidade de uma pessoa se pudesse subsumir a apenas um traço da mesma. É esperto, porque se o fizesse, todos os que por estes dias menorizam o abominável que ele profere em nome de uma estranha estratégia de poder, caso fossem directamente visados não o fariam. Porque não há estratégia de poder que resista ao opróbrio sentido na pele; e enquanto o mal é dos outros, podemos melhor.

Noutra latitude do espectro político, o racista Mamadou Ba, que anda há anos a semear ódio ao homem branco, veio agora, num apelo mascarado de intelectualismo, citar Fanon e clamar pela  morte do homem branco. Fanon era um infame, paráclito de facínoras e não há “simbólico” que mascare a ignomínia. Eu, que fui formado também na boa escola de homens negros admiráveis como Martin Luther King e Nelson Mandela, sempre me habituei a ver a elementarmente justa luta pela igualdade de direitos nas mãos de homens e mulheres de boa vontade, que defendiam paz, irmandade e prosperidade. Hoje a woke, o cancelamento e os antifas só querem destruição sem expiação. Não é justiça, é ódio; não é cultura, é anti-cristianismo.

Não há bons motivos que se justifiquem na barbárie e em regressões civilizacionais; nem a vitória democrática sobre o socialismo, nem a punição eleitoral do PS. Não há boas causas que se justifiquem na barbárie e em regressões civilizacionais; nem sob a máscara da igualdade de oportunidades, nem da luta contra o racismo.

E todos os que, à direita e à esquerda, suspendem ou ignoram a ignomínia, estão a ser coniventes com o deplorável. Todos os que justificam uns e preferem não ver partes dos que justificam; todos os que para atacar Mamadou justificam Ventura e todos os que para atacar Ventura justificam Mamadou. Porque há um cesto de deploráveis nas sociedades ocidentais, sim, mas não são os eleitores com razões de queixa dos sistemas, abandonados pelos políticos, deserdados do progresso, mas antes as elites que usam o ódio como motor do seu poder. E os populistas, basta ler Le Bon, por mais que se queiram fazer passar por gente do povo, também são parte das elites que condenam.

Almada Negreiros, no dealbar do século passado, num rasgo de fúria e génio, gritou contra o status quo personificado em Júlio Dantas, que “uma geração, que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!” Nós, por cá, mais de cem anos depois, damos palco a Mamadou e Ventura. Consentiremos deixarmo-nos representar por eles?