O Verão correu bem para boa parte dos países do euro, incluindo Portugal. Terminámos o terceiro trimestre de 2020 a produzir cerca de 94% do que produzíamos no último trimestre de 2019. Um desempenho que, dado o peso do sector do turismo, pode até ser considerado positivo. No grupo dos grandes países do euro, Espanha é de longe o que se encontra em pior situação e a Alemanha regista o melhor desempenho. Os dados foram divulgados no fim da semana passada pelo INE e pelo Eurostat.

Estamos, no olhar para o passado, com a crise em V que se perspectivava. E países como Portugal ou Espanha, muito dependentes do sector dos serviços, estão a ter mais dificuldades em recuperar do que países como a Alemanha. Para nós é determinante que as pessoas possam voltar a movimentarem-se, a viajar. Para a Alemanha é suficiente que os canais globais de distribuição de mercadorias não sejam interrompidos, como aconteceu no fim do Inverno, início da Primavera.

As novas medidas de restrição dos movimentos, em confinamento total ou parcial, são péssimas notícias para a economia portuguesa. Temos de nos preparar para um novo mergulho da actividade económica. Está perdida a esperança de estarmos perante uma crise em V, caracterizada por um mergulho profundo e uma recuperação rápida. Neste último trimestre do ano vamos assistir a um novo mergulho.

As medidas anunciadas pelo Governo durante o fim-de-semana, para entrarem em vigor na quarta-feira, afectam de forma dura todas as actividades que envolvem serviços com contacto social, assumindo especial relevo os negócios ligados directa ou indirectamente ao turismo. O turismo interno e as saídas para os restaurantes que salvaram o Verão vão ser severamente limitados pelas restrições que abrangem praticamente 70% da população portuguesa. O mesmo efeito negativo vem do exterior, com boa parte dos países a limitarem os movimentos dos seus cidadãos, com especial relevo para Espanha.

Na Alemanha, embora se veja com optimismo o facto de as cadeias de distribuição global não terem sido interrompidas, as medidas anunciadas levam já o IFO a prever que as novas medidas levarão o fim abrupto da recuperação registada no Verão.

Em reacção ao quadro negro que se antecipa, o ministro da Economia Pedro Siza Vieira transmitiu já uma mensagem de alerta, em reacção aos números de evolução do PIB divulgados pelo INE. As restrições aos movimentos das pessoas em Portugal e no resto da Europa não terá um impacto positivo na economia portuguesa, obviamente.

Para já o Governo ainda pode esperar que a produção registe uma quebra anual de 8,5% como apontava no Orçamento do Estado. Um pequeno exercício, permite concluir que se produzirmos exactamente o mesmo que no terceiro trimestre, a contração anual será menos grave que a projectada pelo Governo (7,7% em vez de 8,5% em termos anuais e em volume).  A previsão do Governo tem implícito que a produção voltará a registar uma quebra no quarto trimestre da ordem dos 3,3% em relação aos três meses terminados em Setembro.

H1 – Hipótese 1 – A produção no quarto trimestre é igual à do terceiro trimestre; H2 – Hipótese 2 corresponde a uma quebra de 3,3% em cadeia que levaria o PIB anual a uma quebra de 8,5% como prevê o Governo

Vamos viver tempos de pesadelo. E esta nova fase em que a produção vai diminuir ditará inevitavelmente a morte de mais empresas, daquelas que pensaram que poderiam sobreviver após o Verão. E com as empresas veremos desaparecer postos de trabalho.

A forma assimétrica como esta crise afecta a economia, com efeitos muitíssimo mais graves nos serviços ligados ao turismo e a actividades culturais, negócios com um elevado peso de micro-empresas, muitas delas familiares, e por trabalho por conta própria, é um desafio ao Estado Social. Boa parte destas pessoas não são abrangidas por um Estado Social desenhado para a era industrial. Neste momento é impossível ignorar, não apenas os restaurantes e os alojamentos locais ou pequenos hotéis, mas também e especialmente as actividades artísticas que nem o Verão salvou.

A crise económica e a crise social sem precedentes prometem, agora, transformar-se numa crise política. Não estamos lá, mas é para lá que se caminha depois daquilo a que se assistiu no debate do Orçamento na generalidade. Com o BE a votar contra o Orçamento e a continuar a pedir impossíveis, a Gerigonça desfez-se e lançou o país na incerteza política que em nada contribui para a recuperação.

As últimas sondagens, com o PS a cair, mostram que será grande a tentação para aproveitar o descontentamento que só tenderá a agravar-se. O combate à pandemia é uma maratona e o difícil equilíbrio que o Governo tentou fazer entre minorar os custos económicos e defender a saúde pública começam a não ser compreendidos. Se juntarmos a isso alguma incapacidade de organização e a inexplicável recusa, até há pouco tempo, de mobilizar todos os recursos de saúde, sem se importar se eram públicos ou privados, tenderá a minar cada vez mais o Governo.

O BE já mostrou que espera esse agravamento do descontentamento e quer capitalizá-lo como aparentemente está a conseguir, a acreditar nos resultados da sondagem. Ganhar votos é a melhor explicação para o comportamento do BE já que os temas que colocou como linhas vermelhas, como o Novo Banco ou a legislação laboral, poderiam ter sido levantados logo no início da anterior legislatura.

Vamos viver tempos muito difíceis. A luz ao fundo do túnel, na melhor das hipóteses, conseguiremos vê-la no fim do próximo ano.