A encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social, pode ser analisada em muitas vertentes, tantos são os temas sobre que se debruça.

Uma dessas vertentes será, certamente, a do fundamento mais sólido da fraternidade, que é a fé num Pai comum. «Sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade» – aí se afirma (n. 272).

O ideal de fraternidade universal que é apresentado na encíclica confronta-se hoje com muitas ameaças e desafios. Um deles é o do ressurgir dos nacionalismos, sob várias formas e em muitos contextos, questão que nela é analisada com particular desenvolvimento e profundidade.

Esse nacionalismo assume, muitas vezes, características que já têm sido designadas como de um nacionalismo de exclusão, hostil ao estrangeiro, sob o lema de nós primeiro. A encíclica fala, a este respeito, em «nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos» (n.º 11). Como já o fez noutras ocasiões, o Papa censura estas correntes com clareza e sem subtilezas. Mas, ao mesmo tempo, compreende as exigências de salvaguarda das identidades nacionais que podem ser pretexto para a adesão a tais correntes. E dá uma resposta, como já tinha feito noutras ocasiões, desta vez mais aprofundada.

A encíclica salienta, por um lado, o fundamento bíblico dessa abertura à fraternidade universal e, por outro lado, procura desfazer os receios de que ela leve à perda das identidades nacionais e culturais diante de uma globalização uniformizadora. Nesta perspetiva é encarado o fenómeno das migrações, que também é encarado à luz de critérios de justiça social.

Quanto ao fundamento bíblico da abertura à fraternidade que não exclui os estrangeiros, são evocadas (no n.º 61) passagens do Antigo Testamento alusivas à memória que o povo judeu conserva de ter vivido como estrangeiro no Egito, segundo a regra de tratar os outros como gostaríamos que nos tratassem a nós. «O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egito» (Lv 19, 33-34).

E é apresentada a parábola do Bom Samaritano situando-a no contexto judaico, de forte hostilidade para com os samaritanos: uma forte provocação no sentido da superação de preconceitos e barreiras históricas e culturais (n. 83). Se transpuséssemos tal parábola para os tempos de hoje, talvez pudéssemos substituir, nalguns países europeus, a figura do “bom samaritano” pela do “bom muçulmano”, e, em Portugal, talvez pela do “bom cigano”…

A encíclica salienta como a abertura a outras culturas é enriquecedora para pessoas e povos: «uma pessoa e um povo só são fecundos se souberem criticamente integrar no seu seio a abertura aos outros» (n. 41). A globalização não deve uniformizar e destruir «a riqueza e singularidade de cada pessoa e de cada povo» (n. 100). Mas uma cultura que se fecha pode sofrer de “esclerose”. «As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas, para que o mundo não fique mais pobre»; «(…) porém, sem deixar de as estimular a que permitam surgir de si mesmas algo de novo no encontro com outras realidades» (n. 134). «Não me encontro com o outro se não possuo um substrato onde estou firme e enraizado, pois é a partir dele que posso acolher o dom do outro e oferecer-lhe algo de autêntico»; «cada qual ama e cuida, com particular responsabilidade, da sua terra e preocupa-se com o seu país, assim como deve amar e cuidar da própria casa» (n. 143). Porém: «Ao olhar para si mesmo do ponto de vista do outro, de quem é diferente, cada um pode reconhecer nele as peculiaridades da sua própria pessoa e cultura, as suas riquezas, peculiaridades e limites»; «as outras culturas não constituem inimigos de quem seja preciso defender-se, mas reflexos distintos da riqueza inexaurível da vida humana» (n. 147); «uma sã abertura não ameaça a identidade, porque ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades, segundo modalidades próprias», o que provoca «o nascimento de uma nova síntese, que, em última análise, beneficia a todos» (n. 148). Isto é assim porque nenhum «povo ou cultura pode obter tudo de si mesmo» (n. 150).

Como em muitas outras ocasiões, o Papa Francisco recorre às imagens da esfera e do poliedro para indicar o rumo que deveria seguir a globalização. «O universal não deve ser o domínio homogéneo, uniforme e padronizado duma única forma cultural imperante, que perderá as cores do poliedro» (n. 144). Na imagem do poliedro, «cada um é respeitado no seu valor, o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma dela», ao contrário da imagem da «esfera global que aniquila», ou da «parte isolada que esteriliza» (n. 145).

Em conclusão: «Toda a cultura saudável é por natureza aberta e acolhedora, não estática» (n. 146). Está aqui a resposta do Papa aos receios de que se percam as riquezas das identidades nacionais e culturais (que o Papa de modo algum ignora ou despreza) com a convivência e diálogo com outros povos e culturas.

Não podemos esquecer que a identidade nacional que muitas vezes se invoca para justificar o nacionalismo de exclusão está ligada a uma identidade cultural cristã. O perigo é, então o de reduzir as raízes culturais cristãs a uma simples marca identitária instrumentalizada em função de estratégias políticas que contradizem a própria mensagem cristã na sua intrínseca abertura à fraternidade universal.

A respeito da cultura cristã da Europa, afirmou Francisco no discurso que deixou escrito quando visitou a Universidade Roma Tre, em 17 de fevereiro de 2017: «Considerando que a primeira ameaça à cultura cristã da Europa vem precisamente do seio da Europa, o fechamento em si mesmos ou na própria cultura nunca é a solução para voltar a dar esperança e realizar uma renovação social e cultural. Uma cultura consolida-se através da abertura e do confronto com as outras culturas, desde que haja uma consciência clara e madura dos próprios princípios e valores». É esta consciência clara e madura dos seus princípios e valores que tem faltado à Europa- poderemos acrescentar. E que o nacionalismo de exclusão não vem reforçar, pelo contrário, porque nega a substância desses princípios e valores, mesmo que se apegue a símbolos externos, como a exposição pública do crucifixo.

À luz destes princípios, é encarado também o fenómeno das migrações, cada vez mais incontornável no mundo de hoje. Mas este é também encarado numa perspetiva de justiça social, à luz do princípio do destino universal dos bens. Os bens de um país não devem ser negados a quem provém de outro lugar (n. 124). Com as migrações, todos podem ganhar, porque todos perdem quando em qualquer lugar há pessoas e povos que não desenvolvem todo o seu potencial e toda a sua beleza por causa da pobreza (n. 137). Cada nação é co-responsável pelo desenvolvimento de todas as pessoas, o que pode traduzir-se de dois modos, que não se excluem mutuamente: no acolhimento de imigrantes e no contributo para o desenvolvimento dos países de origem destes (n. 125). É verdade que o ideal seria que a emigração não fosse necessária, mas enquanto não houver sérios progressos no sentido do desenvolvimento dos países pobres, há que reconhecer o direito de cada pessoa a encontrar um lugar onde não só possa satisfazer necessidades básicas, mas também realizar-se plenamente como pessoa (n. 129). Aqui reside uma resposta a quem invoca o direito de não emigrar (de se realizar plenamente no seu próprio país, assim se evitando que dos países pobres fujam os mais jovens e qualificados) para justificar a recusa do direito a emigrar. São duas facetas de um mesmo direito ao desenvolvimento, que não se excluem mutuamente, e ambas devem ser tidas em consideração.

A experiência histórica de Portugal ilustra bem estas ideias da encíclica Fratelli tutti: como a nossa cultura se enriqueceu, ao longo da história, com os contactos com outras culturas e como a emigração contribuiu para o desenvolvimento do país e dos portugueses. Até agora não se tem notado entre nós o clima de hostilidade aos estrangeiros e imigrantes que se tem notado noutros países europeus. Será uma grave perda e um grave retrocesso se assim deixar de ser.