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No palco do Rock in Rio, o presidente da República canta. O primeiro-ministro dança. O presidente da Assembleia da República pula. A dirigente do Bloco de Esquerda acompanha o ritmo. O presidente da CML revela-se um verdadeiro animador de palco… Nenhum deles quer ficar para trás. Todos sabem que o limite para aquela actuação é aquele que o Presidente estabelecer… E no palco Marcelo indubitavelmente ganha a todos  pois ultrapassa pelo desconcerto do populismo qualquer veleidade que a frente de esquerda tivesse de o cercar (no palco real da Bela Vista, Catarina Martins parece uma figurante ao lado de Marcelo). Mas se a táctica funciona às mil maravilhas, como estratégia é uma armadilha: o Presidente está refém da sua popularidade. Não ousará nada que belisque o coro de palmas com que está habituado a ser recebido. E tal como acontecia antigamente com as flores nos camarins das vedetas também as palmas se têm de renovar no palco dos políticos.
As personalidades que antes iam institucionalmente a alguns espectáculos e noutros eram avistadas enquanto público tornaram-se agora elas mesmas no centro do espectáculo. Morre um cantor? Eles cantam e o seu canto é a notícia. Joga a selecção? Eles pulam e o seu pulo torna-se espectáculo. Eles celebram-se a si mesmos através dos outros. Todas as semanas “as  personalidades” ou “as mais altas figuras da nação” como escrevem uns desconcertados jornalistas apresentam constantemente  novas performances.

Afinal o espectáculo não pode parar porque se isso acontecesse podíamos perguntar: quem foi responsabilizado no relatório sobre o roubo de armas em Tancos? O que é que isso interessa? Toca mas é a cantar porque quem canta seus males (e seus medos) espanta: “Que saudades eu já tinha/Da minha alegre casinha/ Tão modesta como eu” ( o link segue para a versão original porque nestas coisas a origem conta)… Quando é que o ministro da Educação abandona o estado de holograma e responde pelas consequências de não ser capaz de controlar o monstro que libertou ao franchisar o ministério a Mário Nogueira? E para quando uma explicação sobre a alteração dos critérios da avaliação do exame de Matemática? Não se sabe mas à cautela o ministro aposta na assistência a jogos de futebol. E qual é o problema disso enquanto nos ecrans o primeiro-ministro balançar como quem se embala  ao ritmo do “Como é bom meu Deus morar/ Assim num primeiro andar/ A contar vindo do céu” na versão rokeira?…

Os outrora tão criticados espectáculos da política e a política-espectáculo deram lugar a algo completamente diferente e muito mais perigoso: o espectáculo enquanto forma de preencher o vazio da política.

Sintomática e reveladora desta mudança foi a resposta de Marcelo Rebelo de Sousa a Donald Trump sobre a possibilidade de Cristiano Ronaldo ser candidato à Presidência da República: “Portugal não é bem os Estados Unidos da América” — respondeu Marcelo a Trump e logo Lisboa foi unânime, em Portugal, nação secular, os jogadores de futebol não podem ser candidatos à Presidência da República. Espantoso, não é? Todos os dias nos enchem os ouvidos com o drama da desigualdade e das assimetrias, justificam-se verbas faraónicas para programas, unidades de missão, gabinetes e movimentos para as erradicar, fixam-se metas e definem-se calendários mas afinal, diz o nosso Presidente, um jogador de futebol não pode aspirar a ser presidente da República pois “Portugal não é bem os Estados Unidos da América”. Já o Presidente da República esse pode fazer de conta que é jogador de futebol ou treinador. Cantor ou comentador… Portugal não é de facto os Estados Unidos. Portugal é uma espécie de Pátio das Cantigas agora na versão Parque da Bela Vista. No cemitério de Santa Comba a esta hora ressoa uma gargalhada escarninha.

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