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Casos. Número que se debita ao início das tardes sem finalidade discernível excepto manter o pânico em cima, conforme os estudos académicos recomendam. Vem invariavelmente acompanhado do R(t) e da Incidência, a parelha circense que confere um ar “técnico” à rábula.

Certificado. Certifica que o proprietário possui um certificado e que os demais são criminosos. Só por si, o certificado não vale nada na ausência de teste, que só por si não vale nada na ausência de certificado. E nada vale nada na ausência de máscara.

Ciência. Antigamente, fazia-se ciência. Agora “segue-se” a ciência, que pelos vistos já está feita. Seguir a ciência não dá trabalho nenhum nem implica particular conhecimento: basta dizer que a seguimos, proeza que logo rebaixa o interlocutor ao nível civilizacional de uma catatua e nos eleva ao nível de um dr. Fauci (que garantia que a SIDA se propagava pelo ar) e de dois Carlos Antunes (que, coitado, garante o que os telejornais e o governo lhe pedem para garantir).

Curva. Uma coisa que temos de achatar. Não confundir com “pico”, que é uma coisa que temos de ultrapassar. Ambos os processos são relativamente rápidos: duas ou três semanas.

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DGS. No fundo, é uma senhora que emite palpites, e a prova de que a precaridade no emprego é um boato infame. Em países exóticos, as autoridades de saúde lançam relatórios diários e detelhadíssimos acerca da doença. Aqui, a DGS lança “sound bytes” para os noticiários. E faz muito bem: a dra. Graça não é paga para informar a ralé, mas para a alarmar.

Distanciamento social. “Distância”, em português. Aquilo que, a pretexto da Covid, os políticos impõem às pessoas decentes é o que, em todas as circunstâncias, as pessoas decentes querem dos políticos.

Especialistas. Subclasse de eruditos desenterrados pela Covid. Desenvolvem a investigação nos estúdios de televisão ou a partir de casa, via Zoom. Não são influenciados pela história do relógio parado que acerta duas vezes por dia. São influenciados pelo dr. Costa e não acertam nem uma vez por ano.

Fetos. Em 2022, serão os maiores responsáveis pela propagação do vírus e os últimos a ser vacinados.   

Infarmed. Local de realização de debates científicos, lendários devido ao pormenor de todos os cientistas terem opiniões idênticas e, por assombrosa coincidência, estas serem iguaizinhas às do governo. Ainda bem.

Inverno. Acontece. Suspeita-se que seja mais fresco que o Verão.

Jovens e crianças. Não padecem de Covid, mas são vacinados contra a Covid. A vacina garante-lhes uma vida normal, leia-se estar de máscara em toda a parte como ladrões. Queixem-se à ciência.

Máscara. A doutrina divide-se entre os que acham que devemos usar máscara quase sempre e os que acham que a devemos usar sempre. Um qualquer secretário de Estado da Saúde defende o uso permanente. Quem já viu a cara do moço compreende. Em geral, cara que tem máscara não tem vergonha.

Não-vacinados. O mesmo que assassinos. É simples: os não-vacinados transmitem o vírus aos vacinados, os quais, como a vacina não protege da infecção e sim da doença grave e da morte, correm o risco de adoecer gravemente e morrer. Para não matarem gente cuja morte a vacina impede, os não-vacinados deviam ser mortos. Na impossibilidade logística de fuzilamentos, urge afastá-los do convívio com criaturas cumpridoras e moralmente sãs.

Natal. Época do ano que se passa o ano a tentar salvar. Quando chega o Natal, verifica-se que não houve salvação possível e que não há Natal para ninguém.

“Negacionistas”. Indivíduos perigosos, que desobedecem a medidas ilegais e se recusam a fazer figuras ridículas em nome do bem comum, dos apetites eleitorais do PS e da popularidade do prof. Marcelo. Nos bons tempos, a PIDE tentava “monitorizar” delinquentes assim. Hoje, os Pides são inúmeros, o que facilita a tarefa. Chamar “negacionista” a alguém é sinal de prestígio e de sofisticação argumentativa.

Negacionistas. Os que, embora finjam o contrário, não acreditam nas vacinas e agem em conformidade.

Óbitos. Desde Março de 2020, morre-se sempre por Covid, salvo se se morrer atropelado por um camião – e isto se o respectivo motorista não estiver infectado, circunstância a demonstrar após dezoito testes e três autópsias.

Onda. Vamos na quinta. Após cada uma das anteriores, as medidas preveniram o surgimento da seguinte.

Restrições. O importante é entender que as restrições não falham por serem monumentalmente cretinas, mas por não serem suficientes. Se as actuais não chegarem, convém aperfeiçoar: além de proibir a venda de líquidos e punir comilões de sandes, há que agir preventivamente, ou seja, voltar a fechar o ar livre a cadeado de modo a empurrar pessoas para os supermercados e concentrá-las numa brecha horária estreitíssima. Aturdido com o excesso de oferta, o vírus amua e vai embora.

SNS. O melhor do mundo. Sem pessoal, aspirinas e papel higiénico, desmorona-se em cacos após umas dúzias de internamentos. A culpa é dos privados, do neoliberalismo e, evidentemente, de Pedro Passos Coelho, que manda nisto há 40 anos ininterruptos e não há maneira de deixar de mandar. Além do Natal, também temos de salvar o SNS.

Surtos. Flagelo que na imaginação do povo acontece em restaurantes, bares, discotecas e qualquer sítio que sirva para as pessoas se divertirem. É de bom tom propor pena de morte para “esses irresponsáveis que andam a espalhar a doença em restaurantes, bares e discotecas”. Não é de bom tom querer matar quem está em lares de idosos, hospitais e congressos de pneumologistas, os lugares onde começam os surtos reais.

Testes. Instrumento essencial no combate à pandemia. Os que contactam um infectado e testam positivo, entram em quarentena. Os que contactam um infectado e testam negativo, entram em quarentena. Importa testar mais.

Vacina. Protege contra o vírus, mas a seguir tende a proteger apenas contra a doença grave e passados dez minutos parece que nem isso. Dura uma quantidade de tempo indefinida, mas a seguir tende a durar seis meses e depois uns dois ou três. Basta uma ou duas doses, mas a seguir é essencial a terceira dose, que é aquela que antecede a quarta, a quinta e por aí fora até à décima oitava, que é aquela que nos concederá a imunidade de grupo. Desde que tomemos a décima nona, claro.

Vacinados. Pequena parcela de 95% da população adulta que se protegeu com a vacina e vive com justificados pavor e ódio da meia dúzia de cidadãos desprotegidos.

Variantes. Temos de manter comportamentos que nos defendam de eventuais novas variantes, que é o mesmo que evitar conduzir hoje porque um dia a estrada pode ser rasgada por um terramoto.

Vítimas. Os especialistas descobriram que as pessoas com 85 anos são mais propensas a adoecer e morrer do que as pessoas de 25. Em prol dos valores democráticos, lixa-se toda a gente.