No one told you when to run, you missed the starting gun.
So you run and you run to catch up with the sun but it’s sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you’re older,
Shorter of breath and one day closer to death.
TIME, Pink Floyd

A situação de emergência de saúde pública provocada pela epidemia SARS-CoV-2 ou Covid-19 não veio só pôr à prova o SNS. Veio experimentar de modo brutal todo o país como comunidade. E a nossa economia.

Depois dos desvarios dos anos da governação de José Sócrates, da página forçada do subsequente ajustamento e da austeridade, vieram estes últimos anos alternativos. Em que se legislou demasiadas vezes sobre puras abstracções, longe da realidade da vida das pessoas de carne e osso. Tantas vezes questões à volta do sexo dos anjos ou outras de perfil e resultado socialmente gravíssimo, como a eutanásia. Sem cuidar dos temas que realmente afectam o dia-a-dia de todos os que se obstinam em viver normalmente.

Anos que foram essencialmente feitos da pretensão político-partidária à esquerda de tentar projectar como economia formal e estruturada o desencadear de processos que não foram tanto de criação de riqueza duradoura mas de circulação semi-espontânea e demasiado volátil de dinheiro, dinamismos que cresceram sem plano e sem escoras, de forma tantas vezes insustentada e frágil, em não poucos casos à margem da lei e da contratação institucional, escapulidas da tributação por veredas, muitas à sombra de um boom de turismo um tanto atípico, à boleia da vivacidade urbana dos tuk-tuks, da explosão de todos os alojamentos, locais ou não, a 100 à hora, das epifanias de uma restauração poucochinho e improvisada, porta sim, porta sim.

E também feitos de uma frenética intermediação imobiliária exageradamente fácil, tantas vezes feita pelos antigos vendedores de automóveis ou de pentes.

Por mais que custe assumi-lo, a crise pandémica apanhou-nos mais uma vez desprevenidos economicamente e financeiramente, depois de alguns anos de abundante ilusão Sem poupança das famílias e nas empresas. Sem organização adequada do Estado e dos seus serviços.

Mas fez-se o que se pode.

E se o mapa dos regimes legais entretanto implementados foi muito positivo nos seus efeitos para combater a disseminação do vírus através do recolhimento geral da população e da prática do distanciamento social, o dia seguinte pode ser realmente muito difícil.

É aí que tem de entrar urgentemente a UE, porque não há dinheiro nem projecto portugueses para colmatar num cenário próximo e razoável aqueles sectores que, apesar de ilusórios, tem de reconhecer-se asseguravam bastante ocupação de mão de obra e geram bastante rendimento líquido. Neste sentido, arquitectar planos de apoio à economia baseados fundamentalmente no pressuposto (que é falso) da existência de uma economia formal generalizada é um erro, porque muita gente e muitas empresas não estão formalizadas e vão ficar caídas inapelavelmente nas periferias do sistema. Situações que passam ao lado dos contratos e das associações profissionais. Que não estão colectadas, nem passam recibos. Que nunca estiveram inscritas na segurança social, nem descontaram. Sem computadores e sem salas para os usar. Sem fundos no banco, nem capacidade de endividamento.

Com efeito, há um país feito de gente que não vem nas estatísticas e que agora não sabe o que fazer, impossibilitada de na prática exercer os seus direitos de cidadania, de aceder a soluções mais estruturadas. Mas muito precisada de ajuda, depois do período de confinamento

Por mais que os gurus das passadeiras vermelhas o neguem o país é o que é. Importa, portanto, assegurar urgentemente rendimentos de final do mês. Nessa perspectiva, os diabolizados pacotes de ajuda financeira directa às famílias a adoptar pelo Tesouro norte-americano (nas suas diferentes modalidades) serão plausíveis. Há que pensar fora da caixa.

E nessa medida a Igreja católica e o sector social poderão ajudar a identificar as necessidades mais relevantes e preconizar soluções ou ao menos ajudar a desenhá-las.

A realidade é muito mais forte do que a ficção. E a melhor mestra.