Eleições no Brasil

A máquina de fazer fascistas já não funciona /premium

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A lição da eleição brasileira é que a direita liberal só será alternativa se recusar compromissos com essas misturas de socratismo e Bloco de Esquerda como a que o PT corporiza no Brasil.

Mais uma vez, a maioria de um país não obedeceu às instruções de voto. As esquerdas radicais e as elites que as esquerdas radicais têm reféns não percebem. Dominam os estúdios de televisão, as salas de aula, as fundações que dão subsídios: aí, ninguém se desviou da lição ensinada: Bolsonaro era fascista, toda a gente que não votasse em Haddad era fascista (ou, pelo menos, “branqueador do fascismo”). Acontece que fora desse mundo de conformismo e estacionamento intelectual, a máquina de fazer fascistas deixou de funcionar.

O que se passou é óbvio: no Brasil, a maioria dos eleitores, por mais repugnante que fosse a alternativa, não esteve disposta a entregar o poder ao PT. Por isso, não se deixaram enganar pela velha rábula do “fascismo”. A desonestidade, aliás, era demasiado evidente: se Bolsonaro era tão perigoso, porque é que o PT não desistiu a favor de outro candidato, em melhores condições para unir os brasileiros contra o “fascista”, logo que as sondagens, ainda antes da primeira volta, confirmaram que o acólito de Lula nunca conseguiria isso? Porque o PT, como é claro, não levou a sério a demonização de Bolsonaro: era apenas um truque para obrigar os brasileiros a caucionarem o seu sectarismo e a sua corrupção. Não resultou.

Há muitas citações tolas e abjectas no currículo de Jair Bolsonaro. Mas se o Brasil tiver de ser uma ditadura militar, é improvável que o ditador seja ele. O verdadeiro perigo da sua presidência é outro: a incapacidade de proporcionar o governo estável e reformista de que o Brasil precisa, e agravar, com isso, a crise do país. É por isso uma tragédia que a direita conservadora e liberal não tenha conseguido protagonizar o movimento de repúdio do PT. Mas porque não conseguiu? Porque essa direita, no Brasil, se descredibilizou, ao colaborar durante anos com o PT e a sua corrupção. A opção de votar Haddad, como percebeu Fernando Henrique Cardoso, teria completado esse descrédito. Mas lá e cá, onde a Lisboa política tentou imitar as eleições brasileiras como a província imita o carnaval, vimos demasiada direita a procurar pateticamente um atestado de “moderação” abraçando o PT. A “moderação”, porém, não é escolher um dos extremos: é recusar essa escolha.

Bolsonaro é um grande risco. Mas uma vitória do PT, conseguida por meio da histeria e da mentira com que Haddad, sem quaisquer escrúpulos, clamou que o general Mourão fora, aos 16 anos, um torturador da polícia, teria sido a ruína garantida da democracia no Brasil. É que uma democracia não pode ser o império da corrupção e da falsidade. Leis e instituições, só por si, não dispensam qualidades naqueles que exercem o poder.

Aliás, se votar no PT fosse o meio mais eficaz de impedir a ascensão de gente como Bolsonaro, então não deveria haver Bolsonaros depois de quase duas décadas de mando petista. Esquerdas corruptas e radicais, como se viu agora no Brasil, não servem para prevenir estas insurreições eleitorais. E as direitas conservadoras e liberais, servem? A lição da eleição brasileira é simples: se quiserem ser uma alternativa, essas direitas têm, antes de mais, de evitar o erro da direita brasileira, e recusar compromissos com misturas de socratismo e Bloco de Esquerda como a que o PT corporiza no Brasil. As democracias ocidentais precisam de direitas livres e lúcidas, sem medo das esquerdas e das suas velhas máquinas de fazer fascistas. Só assim talvez não acabem por cair, à medida que os eleitorados se fartam da corrupção e do “politicamente correcto”, nas mãos dos Trump, Salvini e Bolsonaro. Recusar os Haddad é a única maneira de evitar os Bolsonaro. Infelizmente, a maior parte da direita, no Brasil como cá, não percebeu uma coisa tão elementar.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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