Recentemente, a catedral anglicana de St. Albans passou a exibir uma reprodução de um quadro polémico, “A Last Supper”, de Lorna May Wadsworth. Este é uma interpretação do episódio da “Última Ceia”, com a diferença de que Jesus é preto e os apóstolos têm um aspeto mais jovem. A Igreja de Inglaterra encontrou aqui uma forma de homenagear o movimento “Black Lives Matter”.

“A Last Supper”, de Lorna May Wadsworth, 2009, em exposição na catedral de  St. Albans de Julho a Outubro de 2020

A autora fez logo a sua declaração de interesses quando criou esta obra: mudar a visão tradicional do Jesus branco e de olhos azuis e imprimir um olhar feminino sobre este tema, diferente do habitual: “The underlying narrative of my work is the female gaze. Throughout art history we have viewed figurative painting though the eyes and ideals of men. I seek to challenge this orthodoxy and in my Last Supper.

As teorias abundam sobre se Jesus podia ser preto. Se Jesus nasceu no Médio Oriente, porque não pensar que poderia ser, nem que seja, mestiço? De resto, a Bíblia diz-nos que Jesus vinha da linhagem do Rei David. Seria possível os judeus serem pretos? É uma questão para os especialistas. Também não seria branco e de olhos azuis, como o de Da Vinci. E os apóstolos, se eram todos novos, porque não os retratar assim, como Wadsworth? Além disso, se Da Vinci e outros tiveram o seu olhar pessoal sobre a “Última Ceia”, porque não esta autora o ter também? Se, por um lado, se pretende ser preciso na fidelidade histórica ao retratar Jesus como preto, a escolha pessoal de modelos másculos, é uma opção subjetiva, tal como os “velhotes” de Da Vinci. Em Da Vinci vemos o mesmo. Os investigadores dizem-nos que procurou seguir a tradição de outras “últimas ceias” realizadas no passado e nas quais o apóstolo João tinha um aspeto feminino. E rejeitam também a especulação de Dan Brown, no “Código Da Vinci”, em como este apóstolo seria, afinal, Maria Madalena. Ademais, segundo os mesmos, o humanista inovou, ao retirar o halo de santos dos discípulos de Jesus, retratado em anteriores representações da “Última Ceia” e decidiu dar-lhes, assim, um rosto mais humano. A escolha do Jesus branco de olhos azuis é de um florentino do Norte de Itália, como Da Vinci.

Vemos aqui a História da Arte a seguir o seu curso e não há nenhuma injustiça ou olhar desviado para trás, como estes críticos o estão a alegar com esta obra. Wadsworth tem o direito de ter o seu olhar pessoal, mas não pode dizer que não existiram olhares diversos e até nada machistas. Veja-se as figuras femininas de Da Vinci. Por isso, não se pode descartar o lado propagandístico naturalmente presente na promoção destas obras através da polémica.

A questão que se coloca com esta obra é: será que a arte tem de ser factual? E a sua coerência é interna ou externa? Podemos querer ser rigorosos com a História, mas também imaginar como teria sido. E será relevante retratar Jesus exatamente como era? Já existiram tentativas de recriar Cristo através de imagens robô, o que causa alguma curiosidade. De qualquer forma, retratar Jesus preto no mundo ocidental e os apóstolos como másculos e novos, é desafiante, mas pertinente. Temos de admitir. E questiona os nossos padrões e “unconscious bias”, isto é, preconceito inconsciente. Ou seja, ninguém, minimamente são, pode dizer que é abertamente racista ou machista, mas, inconscientemente, os nossos padrões são racistas e machistas. É um facto, pois este quadro causou muito desconforto, não só comprovado pelos vandalismos que sofreu, como pelos comentários.

Contudo, ao contrário, do que a Catedral de St. Albans declarou, não me parece “culpa” apenas do resto da História da Arte que Jesus seja retratado como branco ou os apóstolos, velhotes de barba ou efeminados. O que a arte tem feito ao longo dos tempos é adaptar os seus padrões estéticos e sociológicos aos temas que retrata. Por exemplo, o quadro da “Anunciação”, de Van Eyck, não recria os edifícios nem as vestimentas da Virgem como eram na época de Cristo e isso não traz menos à revivência histórica, estética e espiritual da cena.

“A Anunciação”, de Jan van Eyck, c.1434-1436 (National Gallery of Art, Washington, D. C.)

Tal como as mulheres de Rubens eram extremamente gordas, porque era um ideal de beleza e riqueza da altura. Já para não falar de que o autor deixa sempre algo de si na obra.

“As Três Graças”, de Peter Paul Rubens, 1635 (Museo del Prado, Madrid)

Já expliquei porque é que o Jesus da “Última Ceia” de Da Vinci é branco, caucasiano e de olhos azuis. Não só Da Vinci viveu nesse contexto seiscentista, no Norte de Itália, e como o mundo ocidental era o exemplo e o padrão, como o Renascimento é baseado na recuperação dos clássicos greco-romanos. A Renascença exalta a perfeição humana do homem ocidental (o antropocentrismo em oposição ao teocentrismo medieval), este homem branco, musculado e caucasiano – o que é o “David” de Michelangelo? –, na altura a representação da perfeição humana. Também vemos nos quadros do Renascimento fustes e frontões do estilo romano nos edifícios, pois é o estilo da época, a recuperação e homenagem aos clássicos, nada tendo que ver com “veracidade histórica”. A arte entra no território da ficção e esta deve ser verosímil, não real. Verosímil é “poder ser”.

“Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci, 1495-1498 (Santa Maria delle Grazie, Milão)

Podemos argumentar que certos padrões das épocas eram, por exemplo, misóginos, preconceituosos, snobs, e apenas espelhavam o pensamento da maioria das pessoas ou de uma elite. Admito que possa acontecer, mas a arte não é teologia ou tratados de moral. Vem imbuída da época e do autor e se for de uma corrente realista, ainda mais o tema serão, por exemplo, as desigualdades sociais. Mas muita da arte não tem nenhum “objetivo social”, é apenas arte, não tem nenhuma “utilidade” que não a estética. Mas também é opinável. Há a corrente dos que defendem a “arte pela arte” e os que aceitam uma arte “engajada” (politicamente comprometida) e esta é uma discussão que já existe desde Adorno e Sartre. Contudo, a iconoclastia e a “cancel culture” são inaceitáveis. Que se queimem, se elimine o legado da nossa História da Arte. Seja nas “Últimas Ceias”, como nas estátuas, o que for. Tudo aquilo é a nossa memória. Tentar apagá-la é como cortar um pouco do nosso braço ou tentar remover uma cicatriz, ou uma ruga.

A obra de Da Vinci não respeita o que a Bíblia e a tradição nos revelam, de que os apóstolos na altura deste evento eram pessoas na casa dos 20 e 30 anos de idade, circunstância que é respeitada por Wadsworth, curiosamente, mas respeitará que eram pescadores e cobradores de impostos e não, necessariamente, modelos perfeitos. Nela, por outro lado, os apóstolos, incluindo João, têm uma fisionomia jovem, como referi, e mais máscula do que em Da Vinci. É sabido que este tinha o hábito de retratar os homens de forma feminina e especula-se se não seria gay. Por isso, nem Da Vinci nem Wadsworth são precisos historicamente nem prescindem do seu olhar pessoal. Aliás, como com qualquer obra de arte.

Por exemplo, “Salvator Mundi”, atribuído a Da Vinci, recentemente restaurado completamente. Estamos em frente de uma obra enigmática, mas, mais uma vez, de um Cristo andrógino.

“Salvator Mundi”, atribuído a Leonardo Da Vinci, c.1500 (coleção privada)

Já os olhos revirados e as poses dos apóstolos de Wadsworth serão um intertexto de outras obras de arte religiosa? São citações de outras representações piedosas? Serão referência, pastiche ou paródia? Não sabemos. O que sabemos é que é uma obra provocadora.

“Êxtase de São Francisco com os Estigmas”, El Greco, 1600 (Museu de Arte de São Paulo, São Paulo)

”Santa Cecília em êxtase”, de Bartolomeo Cavarozzi, 1622

Ficará para a História ou será esquecida? À partida, ficará, pois trata do que é verdadeiramente humano e imutável, não aborda alguma luta datada, mas que é perene, isto é, o reconhecimento da dignidade humana para todos. Por outro lado, parece conter em si algum escárnio e, aí, estaremos diante de uma desconstrução pós-moderna e até pouco interessada na piedade religiosa da cena? São tudo conjeturas para debate. O tempo o dirá, também, pois é ele o grande teste da arte.