Os debates televisivos são um ritual da democracia de massas, uma espécie de duelo na arena da comunicação pública dos candidatos aos postos de governação. São, desde os anos 60, um ritual da Democracia na América, na versão contemporânea, que ficaram célebres desde o primeiro confronto Kennedy-Nixon.

Talvez não mudem a orientação da maioria dos eleitores, sobretudo quando, como agora acontece nos Estados Unidos, estes estão radicalizados e, por isso, os indecisos não serão muitos.

Não serão muitos, mas vão ser decisivos. Segundo uma sondagem da NBC News e do Wall Street Journal, tornada pública no Domingo 27 de Setembro, esses indecisos seriam ainda 11%. E se para uma significativa maioria os debates não iam alterar a intenção de voto, cerca de 30% dos eleitores consideraram os debates importantes para a sua decisão.

Segundo as mesmas sondagens, Biden mantém a vantagem nos chamados Swing States – Arizona, Florida, Geórgia, Iowa, Maine, Michigan, Minnesota, Nevada, New Hampshire, Carolina do Norte, Pensilvânia e Wisconsin –, uma vantagem ponderada de cerca de 6%.

Trump foi uma das vítimas políticas da Covid-19: a situação ímpar da economia americana no princípio do ano, que lhe daria uma vitória quase certa, foi arruinada pela erupção da pandemia e, embora a recuperação tenha vindo a ser rápida, os estragos subsistem. Também a situação da saúde da nação é grave, e uma comunidade mediática claramente hostil tem feito todos os esforços para retratar o Presidente como um incompetente, culpado por todas e cada uma das mortes pandémicas nos Estados Unidos.

Com o seu modo intuitivo e brusco de nunca deixar as contestações e provocações sem resposta, Trump também facilita a vida, as tácticas e as técnicas aos seus muitos inimigos; e, apesar de ter conseguido alguma recuperação em relação a Biden nas sondagens, precisa de  o igualar, e depressa. E os debates, dado o carácter hesitante e as confusões e gaffes do antigo vice-presidente de Obama, podiam ser importantes para reduzir, ou mesmo inverter, a tendência de voto. De resto, foi o que aconteceu em 2016 quando Hillary Clinton, que em Agosto tinha uma vantagem de 51-41, passou, em Setembro, para 48-43. E no final foi o que se viu.

Também então se dava um fenómeno que tende hoje a repetir-se: é que a maioria dos eleitores vota essencialmente contra um candidato e não por um candidato.

Quem viu o debate de Terça-feira 29 de Setembro entre Trump e Biden não pode deixar de compreender os eleitores norte-americanos. Nenhum dos candidatos apresentou um projecto substancial para a nação, ideias, linhas estratégicas. Trump, igual a si próprio, mas talvez menos agressivo que o costume, foi suficientemente agressivo para atropelar Biden. Biden quis assumir o papel da vítima bem-comportada, enfrentando o “deplorável ogre fascista” mas depois perdeu a compostura, chamou-lhe “doido”, “palhaço” e “mentiroso e, numa clara táctica de desprezo, evitou olhar para o adversário ou dirigir-se-lhe pelo nome. Trump tratou Biden com um paternalismo caustico, como se trata um  incompetente pouco esperto e sem alma. Foi também duro e até cruel em relação a um dos filhos Biden, ou porque o confundiu com outro, ou deliberadamente.

Se Trump, para o bem e para o mal, esteve como é, Biden, apesar de ter evitado as gaffes e as confusões doutras intervenções, foi incapaz de dar, como observou Francisco Seixas da Costa, “uma imagem presidencial”. Acabou resvalando para o insulto fácil, projectando uma imagem patética, de fragilidade física, de insegurança, de fraqueza intelectual. Por exemplo, viciando os números ao responder à questão da pandemia, ou propondo reestabelecer a “lei e a ordem” com a reeducação psicológica e de sensibilização racial da Polícia (talvez com acompanhamento de guias espirituais e de auto-ajuda…) e ao apontar titubeante para a câmara, estilo anos cinquenta, para tentar interpelar directamente o eleitor.

Mas além destes duelos mediáticos e dos seus truques para eleitor ver, há as questões de fundo: Trump representa uma plataforma de direita diferente, nacionalista, popular, fiel aos valores da tradição americana da pequena classe média, assente nas ideias identitárias e patrióticas. Biden representa a aliança do liberalismo económico, internacionalista, dos grandes interesses financeiros, com os movimentos radicais ligados à ideologia da nova esquerda, inimigos dos valores nacionais e tradicionais.

Representa-os, embora na realidade não tenha muito a ver com eles. Na verdade, Biden sempre foi um político profissional e, como tal, um negociador, um moderado, um homem do vaivém político-ideológico que não apoiou o busing escolar e inspirou leis altamente repressivas em matéria penal mas que acabou na lista centro-esquerda de Barak Obama.

Entre a luta de galos em recinto fechado e o folclore das personagens, está em causa uma confrontação simbólica, ideológica, entre concepções do mundo e da América: o nacionalismo popular e identitário, que é religioso, defende a família e rejeita as agendas “progressistas” e pseudocientíficas da academia e dos media; e o globalismo liberal, que resulta de uma aliança estranha (ou não) entre o ultra-radicalismo esquerdista e os grandes interesses do capitalismo financeiro.

É isto que está em jogo – e, curiosamente, simbolizado por dois homens cujo passado pouco tem que ver com o que agora representam e simbolizam: Donald Trump é um parvenu na política, playboy e empresário do real estate de Nova Iorque que, politicamente, estaria mais próximo da elite liberal americana; Joseph Biden é um velho routier do establishment democrático, um católico de origem irlandesa, que passou quarenta anos no Congresso a negociar acordos à esquerda e à direita, e cuja ascensão ao topo da lista se deve à sua relativa indefinição – ideal, à falta de melhor, para fazer a ponte da “coligação anti-Trump”, que junta gente tão diferente como os “pacifistas” do Black Lives Matter e do Antifas, que matam polícias e destroem e saqueiam lojas em Nova Iorque, e republicanos neo-conservadores e até conservadores, que preferem o Diabo a Trump.

É uma situação nova, com fronteiras amigo/inimigo também novas. Os factores decisivos para a determinação final dos eleitores vão ser, com certeza, o estado da economia, a evolução da saúde e as questões da “lei e ordem”.

Trump tem por ele uma “constituency” irredutível, de 40 a 45 por cento do eleitorado. Biden tem a coligação negativa, que inclui grande parte dos media escritos e televisivos dos Estados Unidos e do mundo. Mesmo assim, a luta vai ser cerrada e o desfecho é capaz de ser incerto. Até ao fim. E mesmo depois do fim.