Crónica

Antes de trair alguém leia isso

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Quando se é traído, nasce em nós um verdadeiro trauma, uma sequela. Não se trata da memória daquele incidente, mas de uma espécie de desconfiança eterna que passa a nos rondar.

Traição é uma coisa muito louca. Mais louca do que a traição, só a obrigação de fidelidade que o homem criou. É imposta, não é natural, sabemos disso. Mas hoje em dia há espaço para relacionamentos abertos e tantas outras avenças que as pessoas podem optar por fazer. Mas quando um relacionamento pressupõe fidelidade, ser fiel é o mínimo que se espera.

Quase todo mundo já traiu ou foi traído. E eu não tenho absolutamente nenhum constrangimento em dizer que já fui traída no passado. Paciência, uma hora as coisas vêm à tona. Aí cabe aos traídos saírem pela porta da frente, já que quem traiu não o fez.

Escrevo isso porque percebi uma coisa muito curiosa. A raiva acaba passando, a dor acaba passando, a mágoa acaba passando. A gente chega até a ser capaz a desejar que aquele ex infiel seja feliz. É assim, segue o jogo, bola para frente. Mas acontece que a traição em si, a gente não supera. Não tem a ver com as pessoas, mas sim com o fato. Quando se é traído, nasce em nós um verdadeiro trauma, uma sequela. Não se trata da memória daquele incidente, mas de uma espécie de desconfiança eterna que passa a nos rondar.

É mais ou menos como passar mal com uma determinada comida e depois não conseguir comer aquilo outra vez. Ou como cair de uma certa escada e ter um insistente receio toda vez que descemos por ela. Como usar um sapato que faz uma bolha gigantesca no calcanhar e não ter vontade de calçá-lo nunca mais na vida.

Ser traído gera uma eterna sensação de vulnerabilidade. Mesmo nas novas relações, fantasmas parecem continuar nos rondando. Não tem a ver com desconfiança em relação aos novos parceiros, mas com uma espécie de sombra que anda constantemente atrás de quem já descobriu o preço da falta de lealdade.

Por isso, antes de trair alguém, não pense apenas no fato em si. Nem apenas nas consequências para o relacionamento presente. Pense no que isso vai desencadear futuramente na outra pessoa. Além da dor da traição, da perda de alguém que se ama (porque sim, a gente perde alguém amado quando se descobre traído- quase como uma morte), do rompimento da relação, ficarão as sequelas.

Alguém que não era ciumento pode tornar-se extremamente possessivo depois de ser traído. Alguém que não era inseguro, pode tornar-se incapaz de acreditar em si mesmo. Alguém que não era desconfiado, pode simplesmente não conseguir confiar nos outros novamente.

Aí, quem tem a sorte de poder fazer uma terapia, ou de ter outro tipo de apoio, vai se recuperando lentamente. Outros não se recuperam nunca. Mas todos levam sequelas para o resto da vida.

Não há problema nenhum em se apaixonar por outro. Ou em morrer de tesão por outra pessoa. Terminar um relacionamento ou pedir o divórcio são recursos à disposição de todos. Digo outra vez: saia pela porta da frente. Tenha a hombridade de tomar a decisão difícil e correta. Trair é para os fracos, peitar a situação é para os fortes.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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