Anda tudo inquieto com o aquecimento global e até está a decorrer uma cimeira mundial do clima em Paris para resolver o problema. O “problema”, ao que parece, consiste em evitar que a temperatura global suba mais do que dois graus Celsius. Sendo que metade desse valor já foi gasto nos últimos 100 anos. O ministro dos Estrangeiros francês, com o jeito dos franceses para as frases retumbantes e vazias, já foi dizendo que, “se não chegarmos a um acordo, a opinião pública internacional não irá perceber”. A mim, parece-me que a “opinião pública internacional” não irá perceber os custos do “acordo”. Razão pela qual, frases e cimeiras à parte, não irá haver qualquer “acordo”.

Que relação tem a cimeira de Paris com as bactérias multirresistentes? Tudo. Casos como o surto de Klebsiella pneumoniae no hospital de Gaia trazem o assunto para os jornais episodicamente. Mas o assunto não mobiliza. Há pouco mais de um mês foi publicada no Lancet uma curta nota de investigação dando conta de ter sido identificada pela primeira vez, em estirpes de Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae isoladas em porcos de cinco províncias no sul da China, um plasmídeo portador de resistência à colistina. O caso passou inconspícuo. E, contudo, a colistina pertence a um grupo de antibióticos, as polimixinas, que, descoberto no final dos anos 1940, revelou ser, neste início do século XXI, a nossa derradeira linha de defesa, o único grupo de antibióticos capaz de actuar sobre bactérias que não respondem a mais nenhum grupo de antibióticos disponível. A emergência de resistências à colistina mediadas por plasmídeos (que, ao contrário das resistências resultantes de mutações, se transmitem de bactéria para bactéria mais depressa do que o fogo na pradaria dos westerns) significa portanto que convivemos neste momento com bactérias resistentes a todos os antibióticos de que dispomos.

Porquê na China? A resposta é simples. Na China, como noutros países “emergentes” em que o fim de séculos de uma economia de subsistência resignada depende da industrialização e do aumento intensivo do consumo, seja ele de computadores ou de carne, a colistina é usada de forma sistemática como “promotor do crescimento” nas explorações agro-pecuárias. É precisa muita carne para alimentar mil milhões de chineses. Ora as bactérias que sempre existiram no tubo digestivo dos herbívoros e que os ajudavam a digerir os vegetais de que se alimentavam, com o uso das rações tornaram-se supérfluas. Mas se as rações aceleram o crescimento dos animais, também alimentam as bactérias, e é para combater esse “roubo” que os antibióticos são administrados aos animais de forma rotineira e persistente. É facto que o crescimento dos animais acelera – e a probabilidade de emergência de novas resistências também.

Evidentemente, há outras razões para a emergência de resistências aos antibióticos. No primeiro mundo porque os sistemas de saúde subsidiam tudo, até o uso “indevido” (como lhe chamou há dias, caridosamente, Francisco George) dos antibióticos. E, nos países pobres, porque é difícil os doentes terem acesso às doses adequadas, porque as más condições higieno-sanitárias facilitam a reinfecção continuada e porque a sub-nutrição torna difícil ao sistema imunitário cumprir a sua parte no combate à infecção. Mas se, no primeiro mundo, podemos lançar políticas restritivas de utilização de fármacos e se, nos países pobres, podemos eventualmente melhorar a alimentação, a higiene e o fornecimento de antibióticos, travar a exploração agro-pecuária na Ásia parece ser muito mais difícil.

Quem é que vai dizer aos chineses que devem voltar a comer arroz porque os métodos que usam para a criação em larga escala de animais para consumo humano estão a pôr em risco a nossa capacidade de combater as infecções? Os chineses não aceitarão voltar a comer arroz para salvar os nossos antibióticos. Tão pouco aceitarão desistir dos seus novos carros, electrodomésticos e computadores para evitar que algumas ilhas do Pacífico se afundem. E os ocidentais, ainda que embrulhados em lirismo “verde”, terão exactamente a mesma posição.

É melhor começarmos a pensar em viver com o degelo.