Na notícia da morte de Bento XVI, cada um escreve sobre o que lhe parece que foi o legado do Papa Emérito e não faltam visões diferentes. Um Papa de transição, um monstro teológico, alguém que abriu o diálogo aos não crentes, um conservador com ideias passadas e extremistas, um homem inteligente, mas sensível às pessoas; um Papa que abriu o combate aos abusos sexuais; um Papa inteligente, mas que não tinha jeito para gestão e governo, etc. etc. Para mim um Papa que me inspirou muito com a sua inteligência, sensibilidade e fé e que abriu o caminho para o combate aos abusos sexuais na Igreja. Entre outros contributos.

A morte de Bento XVI reabre o debate sobre qual o problema da Igreja, pois nunca na história um Papa renunciara e abrira o espaço para a transição de um magistério que contrastou com o seu, o do Papa Francisco. O papado atual diferenciou-se sobretudo na “forma”, não tanto no “conteúdo” doutrinal. Na comunicação e na ação.

Se todos criticam a Igreja, pois não podemos negar que vive em crise, qual o seu problema? A decadência moral? A desadequação ao tempo? A falta de Governo? Ou é perseguida e injustiçada pelo mundo?

Há quantas visões quantos os tipos de pessoas. Identificarei dois tipos: os “progressistas” e os “conservadores”. Nos primeiros encontram-se os que estão dentro e fora da Igreja, nos conservadores, igualmente. Maioritariamente estão dentro, mas também os que estão dissonantes com o atual Papa. Uns de forma explícita, outros não tanto. Há os que apontam à Igreja um problema de decadência moral, outros de falta de gestão. Outros ainda argumentam que a Igreja é perseguida de fora e vive uma deriva que a afasta da tradição (os anti- Concílio Vaticano II). Eu considero que tanto é um problema de decadência moral como de governo. Aceito que a Igreja é perseguida, mais explicitamente nas periferias, mas no Ocidente civilizado, devemos ser responsáveis e atacar o nosso problema, senão é uma vitimização que não faz sentido.

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Bento XVI bem tentou e abriu caminho para o combate aos abusos, mas até segundo o próprio, não conseguiu conter o tsunami. Em “Conversas Finais”, Peter Seewald colocou-lhe a questão, “Qual considera ser o seu ponto fraco?”, ao que ele respondeu “Talvez a governação resoluta e clara, bem como as decisões que têm de ser tomadas não sejam o meu forte. Neste aspeto sou de facto mais professor, alguém que pondera e reflete sobre os assuntos espirituais. A direção prática não é bem a minha qualidade, o que é, diria eu, uma certa fraqueza” (Seewald, 2016, p. 266). [1] Independentemente da fraqueza, a coragem em admiti-lo, é já em si um exemplo de liderança. Se as empresas, governos – e a própria Igreja – tivessem esta humildade, não viveríamos num mundo melhor?

O problema de decadência moral é claro, corporizado numa cultura não cristã e mundana que invadiu a Igreja e que permitiu que o escândalo dos abusos se tornasse tão sistémico. O próprio Bento XVI em visita a Portugal, em 2010, afirmou “Os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja”. Contudo, a questão cultural claramente não é exclusiva da Igreja, pois a cultura do encobrimento é algo que vem do mundo e a Igreja não conseguiu “ser sal” e “sinal de contradição” e encarreirou nos seus hábitos.

Visto que o problema de decadência moral é mais tratado, passo ao da gestão. As pessoas criticam Bento XVI e a Igreja frequentemente por desgoverno e falta de gestão. É um facto. O próprio Bento XVI admitiu que era um intelectual e a crise dos abusos ultrapassou a sua capacidade executiva. Mas não nos iludamos, todos criticam a Igreja, mas não existe nenhuma organização como esta. Quantas organizações têm mais de mil milhões de membros? Se começarmos a comparar o governo da Igreja com a das empresas, é difícil encontrar paralelos, mas mecanismos mais transparentes e ágeis não teriam evitado os abusos sexuais? E isto é governo e gestão. E cultura. O problema da Igreja é também cultural. Na literatura de gestão denomina-se cultura como o conjunto de crenças, valores e comportamentos de uma organização. Ora, a cultura da Igreja tornou-se o que não é suposto ser. Quem são os grandes responsáveis pela disseminação e salvaguarda da cultura cristã? Em primeiro lugar, os seus líderes (que também podem ser leigos). Isto falhou, pelas próprias palavras do atual Papa, a cultura do clericalismo invadiu a Igreja e permitiu a falta de transparência.

Depois, a dimensão e diversidade da Igreja é um ponto positivo, mas um grande desafio também. Em termos de governo, existe centralização, mas também descentralização. As dioceses e paróquias são autónomas na sua administração, mesmo que seguindo as diretivas petrinas no que toca à doutrina e pastoral. Em suma, não tenho as respostas – nem as perguntas todas – mas penso que identificar o problema poderá ser o início. Comecei um projeto de Doutoramento à volta deste tema, que modelo de governo beneficiaria mais a gestão sustentável da organização Igreja? Não poderemos aplicar os ensinamentos da eficaz governação corporativa (Corporate Governance) também à Igreja? Aquela governação que se refere à relação entre os intervenientes, em determinar a direção e performance da organização? Ainda consegui liderar com alguns parceiros da Igreja e sociedade a realização de formações executivas em gestão para os quadros da Igreja, mas, infelizmente, abandonei estes projetos por falta de apoio das nossas instituições e hoje defendo outro tema diferente de doutoramento. Seria bom alguém pegar nele pois é suficientemente vasto, interessante e útil.

À decadência moral, junta-se um problema de governo, como disse. Como poderemos garantir que uma cultura e um legado ancestral é assegurado e renovado e que os mecanismos de governo e controlo são postos em marcha numa organização tão vasta, diversa e antiga como a Igreja? Bento XVI iniciou este caminho e o Papa Francisco consolidou-o com as suas reformas. E da crise resultará uma nova vida para a Igreja, não tenho dúvidas. Mas necessitamos de mais. É isto que interessa discutir, mais do que outros assuntos. Se estas duas estivessem bem, bons cristãos e bom governo, o mundo seria bem melhor. Não seria necessária Igreja no mundo. Penso que seria o céu.

[1] Seewald, P. (2016). Conversas Finais (1ª Ed.). D. Quixote.