Se há algo que cada vez me assusta mais, trabalhando como advogada e lidando com dezenas de altos executivos, é a necessidade que muitos ainda têm de classificar as atividades em “coisas que eu faço” e “coisas que eu não faço”. Algo semelhante a um sistema de castas, no qual brâmanes executivos se negam a tocar numa máquina de fotocópias, por julgar que, dada sua posição, não podem executar certos atos do quotidiano.

Há muitas coisas que aprendi com meu pai, um profissional notável, ministro aposentado e atual diretor da Faculdade de Direito da Universidade Católica de São Paulo. Mas aprendi com ele, sobretudo, a ir ao correio. A digitalizar documentos. A buscar meu próprio café. A ir ao cartório reconhecer firma. A fazer tudo, absolutamente tudo o que for necessário, sem nunca me julgar overqualified para nenhuma tarefa de base.

Recebo dezenas de ligações nas quais uma secretária me diz “Dra. Ruth, aqui é a Fulana, que trabalha com o Dr. Beltrano, aguarde um minutinho que eu vou passar a ligação para ele”. E então eu espero na linha, até que o excelentíssimo Doutor possa falar. Honestamente, não entendo. Qual a dificuldade de pegar a porcaria do telefone, discar o número e falar diretamente com as pessoas? Seria o tempo do executivo algo tão mais valioso do que o tempo daqueles para quem ele liga e que têm que falar com a secretária e aguardar pacientemente na linha até que ele tenha a boa vontade de aparecer?

A questão é que, na realidade, não se trata de economia de tempo. Se trata de demonstração de status. Há um discurso muito claro por trás de todos estes comportamentos. Sou bom demais para gastar tempo telefonando. Tenho diplomas demais para ter que fazer cópias. Meu MBA não é compatível com o ato de ir até a copa buscar a minha água. Não sou pago para comprar passagens aéreas. Tenho que me poupar para aquilo que realmente importa. Será mesmo?

Como eu já escrevi num texto chamado Os ridículos semi deuses do mundo corporativo, muitas das pessoas que sobem nos escalões empresariais — e até no serviço público — começam a efetivamente achar que são extremamente especiais. Mais especiais do que todas as outras, quase intocáveis. E começam a entrar numa bizarra espiral de comportamentos arrogantes — também conhecida como egotrip.

Um profissional que não sabe — ou não quer — fazer as atividades básicas que circundam o seu trabalho, não pode ser tido como um bom profissional. Aqueles que têm uma profunda dependência do trabalho da secretária, dos estagiários, do contínuo, da copeira e que, na ausência de qualquer um deles, não têm a capacidade de se levantar da cadeira e resolver essas coisas, não podem ser considerados líderes. São no máximo chefes.

Sim, é claro que há ajudas que são muito bem vindas e há estruturas empresariais que permitem isso. Ninguém aqui está dizendo que um CEO deva passar 40 minutos digitalizando documentos. Mas, sim, estamos dizendo que ele deve saber mexer na máquina, caso seja preciso. E que reuniões não devem ser paralisadas porque ninguém da cúpula sabe mexer no projetor. E que, sim, todas as pessoas são capazes de levar suas xícaras sujas até a cozinha. E que o mundo seria melhor — e as empresas seriam muito mais funcionais — se as pessoas entendessem que o ato de colocar uma xícara na pia não diminui sua moral ou o seu prestígio. Muito pelo contrário.