Em 2015, quando António Costa forçou a geringonça pela nossa goela abaixo, Paulo Portas saíu do CDS e preveniu: “a direita só volta a governar com maioria absoluta, ou seja, no dia em que eleger 116 deputados”; na mesma tarde os corredores do Caldas faziam troça do PSD: “acabou o voto útil”, entre risinhos, como quem solta uma esfera de chumbo do calcanhar.

Este erro infantil marcou todo o mandato de Assunção Cristas. Nenhuma daquelas cabeças pareceu compreender que a aliança formada pelos partidos da esquerda tinha vindo para ficar, que os partidos comunistas tinham entrado na esfera do governo e do aparelho do Estado, e que toda a nova importância do PC e do Bloco tinha a paternidade do PS, e só pela mão do PS ela podia ter crescido ao longo destes 40 anos. O adversário era o PS.

Contra o PS era preciso definir e apresentar uma alternativa de governo; em vez disso, Assunção Cristas apresentou proclamações e gritos na Assembleia da República. Pior do que isso, aderiu a todas as reclamações e a todas as “causas”, da economia verde à economia azul, das “alterações climáticas” aos coletes amarelos, da Cristina Ferreira a Mário Nogueira, sem critério nem selecção, como se a política não fosse um exercício de escolhas.

Os portugueses não perceberam o que é que, exactamente, nos separava do PS; e dispensaram 13 deputados. Paulo Portas deixou o partido com 18 deputados, sobraram cinco. Assunção Cristas e a direcção dela levaram quatro anos a destruir aplicadamente o CDS.

Duas conclusões parecem tornar-se evidentes a partir daqui. A primeira é que a fragmentação da direita é tudo o que António Costa agradece em matéria de ajudas internas. Só uma aliança dos partidos à direita pode desequilibrar-lhe os planos, enfrentar o bloco que ele fabricou e ganhar-lhe eleições. E a possibilidade efectiva de oferecer uma alternativa de governo é, já em si própria, uma ideia e um plano para o país. A segunda conclusão é que o CDS precisa de mudar.

Dizem-me (e acredito) que João Almeida se opôs muitas vezes e “criticou” a direcção nacional. Mas apresenta uma equipa com ele de gente que esteve neste CDS espatifado, e faz um esforço público mais claro para se mostrar aberto a “diálogos” com o PS do que a entendimentos com os outros partidos da direita. Dificilmente poderá convencer o CDS e o país que a partir de agora vai fazer diferente.

Filipe Lobo d’Ávila tem um passado respeitável pelo sossego e pela dignidade com que se afastou da Assembleia da República e transferiu a sua oposição para dentro dos órgãos próprios do partido. Mas continua a falar de “bloco central”, não parece ter compreendido que essa realidade já não existe nem vai ressuscitar nos próximos anos.

Francisco Rodrigues dos Santos tem uma ideia política com pés e cabeça, estruturada e explicada em português claro. Basta ouvi-lo apresentar-se como “direita”, assim simples, sem suavidades nem adjectivos que lhe apliquem um segundo pensamento. Diz que o adversário é a esquerda, e não as outras facções ou entendimentos do que deve ser a direita. Para bom entendedor, isto basta. Recusa o quadro mental da esquerda, as referências da esquerda e até o vocabulário da esquerda. É um chefe sensato e decidido. Tem com ele a frescura da jota e a maturidade de gente que acreditou nele. Pode dar ao CDS um fôlego, talvez um destino.