1 Os limites

O estudo dos processos decisórios teve avanços notáveis nos últimos 50 anos graças a desenvolvimentos interdisciplinares desde a Teoria da Decisão às Ciências Neuronais mas alguns autores como Herbert Simon (Prémio Nobel, 1978) deram especial atenção à chamada “bounded rationality” ou seja, aos limites da racionalidade face a contextos desafiantes. Ora, a pandemia que nos assola desde o início de 2020 tem sido pródiga em ilustrar as patologias decisórias que importa identificar para procurar alargar, se possível, os limites da Razão.

2 A primeira negação da razão

A chegada da pandemia trouxe um mundo de dúvidas semanalmente alimentado por novas experiências que surpreendiam pela contradição e pelo seu nível de incerteza (tempo de transmissão pelo papel ou pelo aço, medicamentos milagrosos, etc.). Ora, era bem evidente que muitos destes resultados não tinham qualquer significado estatístico mas pelo paradigma da Razão seria bem evidente que o uso de máscara seria muito eficaz pois o vírus circula pelas vias respiratórias. Como explicar então o erro histórico dos países ocidentais de não recomendar o seu uso ao longo de vários meses apesar dos especialistas chineses nos alertarem para esse erro estratégico, podendo citar-se a voz da DGS que até explicava poder ser contraproducente? Em suma, a primeira negação da Razão foi protagonizada pelos especialista e autoridades da Saúde: não compreender a utilidade das máscaras!

3 A segunda negação da razão

A COVID 19 desencadeou a mais vultuosa e global operação de desenvolvimento científico, tecnológico e empresarial alguma vez empreendida visando a produção de vacinas e medicamentos mas foi mais fácil desenvolver as vacinas do que racionalizar a sua aceitação por muitos. Os fundamentos dos movimentos negacionistas são triplos :

  • vacinar é fazer o jogo dos grandes grupos capitalistas que controlam os produtores;
  • vacinar é perigoso pois pode originar graves efeitos;
  • vacinar é desnecessário pois as estatísticas são exageradas e distorcidas.

O uso da Razão permite responder a cada uma destas dúvidas :

  • em Economia de mercado é desejável que o capital e a inovação empresariais se orientem para as prioridades societais pelo que será absurdo procurar bloquear este negócio mas apoiar o dos vídeo jogos;
  • a simples ponderação dos riscos da vacinação comparada com a redução esperada da severidade dos impactos da COVID 19 não permite fundamentar dúvidas quanto às vantagens da vacinação: os países com menor taxa de vacinação são aqueles em que os índices de fatalidades e de doentes em cuidados intensivos são superiores.
  • a última objeção é, talvez, a mais estudada pois tem surgido em todas as grandes calamidades ou ameaças e corresponde a acreditar que o problema só chega aos outros. O exemplo mais conhecido corresponde à ameaça do Nazismo à comunidade judaica na década de 40 em que muitas famílias fugiram a tempo mas alguns dos mais ricos acreditaram que o perigo só existia para os outros e, como é evidente, acabaram em Auschwitz.

Mas também existe a patologia oposta de ponderação a qual consiste em dramatizar todos os riscos conduzindo famílias que conheço a encerrarem-se e a blindarem-se deixando de viver em sociedade o que as está a conduzir a riscos bem maiores.

4 A terceira negação da Razão

O nível de solidariedade entre Estados é reduzido e o não apoio em vacinas aos mais necessitados implica negar uma evidência da Razão: enquanto existirem regiões com baixo nível de vacinação é quase certo que continuarão a surgir uma ou duas variantes por ano das quais a Ómicron é mais um exemplo. Ou seja, sem estratégia cooperativa não se vencerá a pandemia, nem entre os mais ricos, nem entre os mais necessitados pelo que os próprios custos induzidos naqueles irão ultrapassar os valores que se estimam  necessários para ajudar os segundos.

5 Da violência à cooperação

Em suma, a Razão aconselha a desenvolver uma estratégia estável e baseada em 4 vetores que se devem manter ao longo dos próximos meses enquanto se desenvolvem vagas, não valendo a pena fingir que o problema desapareceu quando se aproximem eleições:

  1. Generalizar as iniciativas de cooperação internacional minimizando as populações não vacinadas e intensificando a vacinação, também em Portugal, e abrangendo as crianças;
  2. Manter a vida social e económica optando-se, sempre que possível pelo teletrabalho;
  3. Exigir controle de vacina e teste para acesso a eventos de grupo e para atravessar fronteiras;
  4. Generalizar o uso obrigatório de máscara nos espaços não privados.

Todavia, e enquanto se desenvolve a 5ª vaga atual, acompanhada do aparecimento de nova variante, estão a multiplicar-se manifestações e movimentos de protesto culminando em cenas de violência, desde Viena a Rotterdam, exemplificando, mais uma vez o não uso da Razão pois corresponde a rejeitar a realidade sem propor estratégia alternativa. Na verdade, é interessante notar que a Agenda desta movimentação é muito simples: não aceitar novas restrições pois cada cidadão é que deve decidir como se comporta mesmo que tal liberdade possa por em risco o próprio e terceiros ou agrave as condições de funcionamento dos sistemas de Saúde aumentando também a mortalidade devido a outras patologias.

Ora o paradigma da Razão determina que qualquer sociedade quando é ameaçada por inimigo externo deve adotar estratégias globais e não escolhidas por cada indivíduo. Qual teria sido a guerra ganha se cada indivíduo escolhesse as opções a adotar? O Ocidente teria derrubado o Nazismo se cada indivíduo escolhesse as opções militares?

Eis porque a gravidade da evolução das vagas e das novas variantes não dependerá tanto do vírus mas mais da derrota ou da prevalência da Razão face a esta nova etapa da COVID 19, estando Portugal a perder as vantagens que tinha adquirido, atendendo ao insuficiente programa de vacinação da 3ª dose.

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