“A saúde constitui um dos pilares do Estado Social e um elemento de garantia da coesão social da nossa sociedade.”

Assistimos desde há vários meses a intensas movimentações reivindicativas sem fim à vista por parte da classe médica, cientes do seu papel na sociedade e da sua relevância social e política.

Reivindicações incentivadas por sindicatos, aproveitadas por partidos, ignoradas por muitos, mas, e sobretudo, desconhecida pela maioria dos que diariamente recorrem aos serviços de urgência.

Têm sido várias as situações que criaram constrangimentos para se atingir este quadro de rotura absoluta quer no plano político e social, quer no plano profissional.

A destruição das carreiras médicas tem vindo a agravar um problema cuja solução parece de fácil resolução, mas que, por inércia, obediência ou incapacidade das partes envolvidas, evoluiu para a cronicidade e sem capacidade de cura a curto prazo.

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A ausência de uma carreira profissional atrativa para os médicos-recém especialistas, aliada ao baixo rendimento e ao esforço e pressão permanente na realização de horas extraordinárias para sustentar os serviços, constituem por si só bloqueios ao adequado desenvolvimento da profissão médica, assente em padrões deontológicos e com normas de ética basilares únicas.

Quem abraça esta profissão sabe que pouco tem de profissão, mas antes de missão. É uma missão que exige sacrifício de costumes e de hábitos, independente do local e do fuso horário, estado anímico ou disponibilidade.

As consequências desastrosas nas políticas de saúde desde que se anunciou a sua morte conduziram inexoravelmente o SNS para este desfecho fatal que se avizinha.

As negociações feitas à medida e a conta gotas nada têm de terapêutico, apenas colocam pensos rápidos em feridas cujo exsudato purulento urge tratar ou ir-se-ão perpetuar e a sua cronicidade conduzir a uma septicemia fatal para o SNS, e nem as dezenas de camas que irão abrir em cuidados intensivos conseguirão travar.

Não é com a diminuição do horário para as 35h e um acréscimo de 500 euros no ordenado mensal para quem realize urgência que os médicos serão motivados.

A única forma de reerguer o moribundo SNS é a reposição das carreiras médicas, estrutura fundamental do serviço de saúde.

Sem uma carreira médica bem estruturada, organizada e implementada, não teremos uma atividade assistencial de boa qualidade.

Os médicos querem um SNS saudável, o SNS que construíram e ajudaram a crescer.

Procura-se que esta discussão inadiável tenha soluções capazes de garantir o exercício da medicina com a elevada qualidade a que habituámos todos aqueles que a ela recorrem e com cuidados adequados às necessidades assistenciais da população.

Reabilitar as carreiras é a única solução para se iniciar uma reforma que se quer honesta, dinâmica e capaz de conduzir as instituições que dela dependem a resultados dignos e a performances capazes de responder às reais solicitações da população.

Não são as demagogias destrutivas do SNS, de querer que o estado suporte as falhas na resposta atempada dos cuidados de saúde com a utilização dos cuidados de saúde privada, que farão o SNS renascer.

Esse pressuposto é por si só a demonstração cabal e inequívoca da incapacidade do SNS e não é isso que se pretende.

O que se pretende é um SNS de novo robusto, que sirva as populações que, doutro modo, por incapacidade financeira ou por filosofia de vida, não o podem ou não querem ter.

Isto é, o SNS deverá ser o garante dos cuidados médicos, independentemente do seu nível económico ou social, pois todos têm direito às técnicas mais modernas, eficazes e complexas como meio de diagnóstico e tratamento.

Queremos e devemos recuperar a saúde e o SNS.

O que se passa atualmente no SNS é calamitoso para qualquer serviço e instituição.

O estado investe milhares de euros na formação geral e especifica dos médicos que, após terminarem essa formação, sem período algum de carência, saem para a medicina privada onde auferem melhor rendimento e prestam trabalho como prestadores nas mesmas instituições com as quais rescindiram contratos.

Ou seja, o estado, por não possuir mecanismo regulador nestes procedimentos e por não querer assumir o tratamento definitivo da doença do SNS, está ele próprio a destruir o SNS.

Não precisamos de aumentar o orçamento de estado para a saúde. Precisamos sim de regras e de mecanismos que o regulem!

Sem carreiras médicas e sem regulação, manteremos inevitavelmente o caos nos hospitais e serviços de urgência e assistiremos à implosão daquilo que foi um dos melhores serviços de saúde do mundo e ao qual eu me orgulho de pertencer e pelo qual lutarei para não ver morrer.