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Mesmo que ninguém assine nada, existe um contrato entre quem vende uma coisa e quem a compra, ou entre quem promete uma coisa e aquele a quem a coisa é prometida; mas é também muito normal imaginar como um contrato outras relações mais difusas: entre pessoas, como o casamento, ou as relações entre quem vota e quem o representa; entre quem vive e o planeta onde vive; e, para os teologicamente inclinados, entre criaturas e criador. É comum acreditar-se que as relações mais importantes que pode haver neste mundo são relações contratuais; e que só são importantes porque são contratuais.

A ideia de que todas as relações importantes em que participamos são relações contratuais está ligada à ideia de que uma relação só é importante se escolhermos entrar nela; e se a pudermos quebrar quando nos ocorre fazê-lo; e se pudermos fazer qualquer coisa, por exemplo recorrer a um tribunal, caso ocorra à outra parte quebrá-la sem o nosso acordo. Está por isso ligada à ideia de que as relações de que somos parte dependem essencialmente de nós: podemos entrar nelas e sair delas segundo a nossa vontade. Esta ideia é muito exagerada.

Parece acertado dizer que a nossa relação com a companhia do gás depende de nós querermos ter uma relação com a companhia do gás; e não parece exagerado dizer que a nossa relação com certas pessoas depende de nós e, claro, delas. Em muitos lugares é possível decidir mudar de companhia do gás (a haver mais que uma), casar mais de uma vez (a haver divórcio ou a possibilidade jurídica de bigamia), ou arranjar outro gato (quase sempre).

Em todos estes casos temos a opção de tratar o fim da nossa relação como uma espécie de conflito de consumo. Queixamo-nos de que o nosso cônjuge não é a pessoa com quem casámos; que o gato afinal não era estéril; que os serviços da companhia de gás deixam muito a desejar. E sabemos a quem nos devemos queixar, e o que fazer para acabar com os vários arranjos. Claro está, a muitas pessoas repugna tratar a conjugalidade, ou a posse de animais, como uma questão de consumo: são pessoas a quem a ideia de vício oculto de um cônjuge nunca ocorre; ou a quem a ideia de devolver um gato à loja aflige.

Mas há alguns casos em que simplesmente não existe a opção de tratar a nossa relação com pessoas ou entidades rarefeitas como um conflito de consumo: são casos em que não temos modo de nos queixar. É irrazoável querer devolver o nosso planeta à procedência; ou lamentar acções divinas: uma mudança de planeta é impossível; uma troca de religião é cómica. Não escolhemos deliberadamente viver no planeta Terra; e haver Deus não depende de termos uma relação com Deus. Ao contrário da companhia do gás, com Deus não há contratos.

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