A União Europeia foi do melhor que aconteceu na Europa desde a Conferência de Viena em 1815. À semelhança do sucedeu com o equilíbrio desenhado por Pitt dez anos antes e que Metternich protegeu com mestria, a União Europeia (primeiro CEE) a par com aliança atlântica evitou durante décadas que os estados europeus guerreassem entre si. Na segunda metade do século XX a paz na Europa era essencial por razões óbvias; em 2020 é indispensável devido aos desafios económicos e estratégicos que vêm da Ásia, nomeadamente da China.

No entanto, se a paz foi mantida a união para enfrentar a concorrência de outras potências não tem sido suficiente. Há um meio muito simples que nos permite saber quais os estados, quais as regiões no globo que serão influentes e quais se tornarão insignificantes ou menos importantes: a tecnologia. A verdade é que quem inova deterá o poder no futuro próximo. Se assim é a pergunta a fazer é simples: o que inova a Europa?

Infelizmente, a resposta também é de uma simplicidade aterradora: muito pouco.

Num artigo na ‘The Spectator’ de 25 de Abril, Wolfgang Münchau refere-se às alterações que a pandemia está a provocar em vários negócios, desde os restaurantes e mercearias, com as encomendas e entregas online, até à gestão das cadeias de logística, devido ao desenvolvimento das impressões 3D. Em Portugal ouvimos falar muito das ajudas estatais às empresas privadas, de como os negócios privados perderam quase tudo o que tinham e que sem o Estado não podem sobreviver. Como somos um país com uma ‘elite’ muito dependente do Estado a ênfase tem sido esta. Já no Reino Unido realça-se algo que por cá também sucede e que é o esforço de reinvenção absolutamente fantástico (e que só surpreende quem não lida diariamente com os verdadeiros empresários) que inúmeras empresas estão a levar a cabo para sobreviverem e ultrapassarem estes tempos difíceis. Até porque, em Portugal, as ajudas estatais, além extremamente burocráticas, exigem uma dependência que em nada favorece quem queira ter o seu negócio e viver por conta própria.

Há algo que é preciso ter em conta: o verdadeiro empresário que decidiu, em vez de ter um emprego, deter um negócio fará tudo o que estiver ao seu alcance para manter a sua independência. Não há maior ambição que esta. Além do amor pouco na vida é mais salutar que isto.

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Mas, e voltando a Münchau, diz este que a União Europeia, pródiga em inventar regulamentações, tem colocado vários entraves às empresas impedindo-as de inovar e de se adaptarem aos novos desafios. Entre os estados europeus temos a Alemanha, excelente a gerir a inovação tecnológica, mas que peca por pouco inovadora. A indústria automóvel alemã é um exemplo disso mesmo, com os seus carros topo de gama a saírem das suas fábricas ao mesmo tempo que os seus fabricantes apresentam dificuldades na transição para os veículos eléctricos.

A UE foi bem-sucedida na manutenção da paz, mas falhou redondamente na inovação aprisionando as empresas a regulamentações que impedem a sua adaptação ao novo mundo. É nesse sentido que Münchau considera o Brexit (como vários o defenderam desde o início) como uma oportunidade para o Reino Unido. Mas Münchau vai mais longe: questiona se, com o fecho das fronteiras na UE em virtude da Covid-19, os efeitos nefastos de um hard-brexit não se terão já feito sentir. E se assim é somos forçados a que também nos questionemos: com a reposição das fronteiras não terá o Brexit já acontecido na sua totalidade?

E perguntamos de seguida a partir dessa possibilidade: existirá ainda UE? Ainda temos euro, é verdade, mas a recessão económica que assistimos nas últimas semanas e que se prevê para os próximos meses é equivalente na sua capacidade destrutiva à que sucederia caso a UE terminasse. Assim sendo, a questão da sobrevivência da UE, a sua mais-valia, pode ser equacionada. Se o custo do seu desaparecimento já foi pago porquê temer o seu desaparecimento? Não é uma questão de somenos quando o custo de sair, o custo do seu desmembramento tem sido o cuspo que ainda cola a UE.

Por muito surreal que esta hipótese possa parecer é possível que venha a ser equacionada por forças populistas. Pode ser também tida em conta por quem considere imprescindível libertar a inovação tecnológica das regulamentações de Bruxelas de forma a que o atraso perante a China e os EUA não se acentue ainda mais. Wolfgang Münchau já o fez. Seria, pois, também importante que não descartássemos esta hipótese para que não nos surpreendamos com o absurdo. Até porque para bizarro, neste ano de 2020, já nos basta o confinamento a que nos remetemos.