Nota: 12

Se acreditarmos em tudo o que diz Catarina Martins, então o Bloco de Esquerda é responsável por tudo o que aconteceu de bom no planeta, com a possível (atenção: possível) excepção do milagre da multiplicação dos peixes. No discurso de abertura da última convenção do BE, a líder do partido reclamou a responsabilidade pelo aumento do salário mínimo nacional, pelo fim do congelamento das pensões, pela reposição das prestações sociais que tinham sido cortadas ou diminuídas (pausa para respirar), pela proteção das habitações contra as execuções fiscais, pelas reversões das concessões dos transportes públicos (nova pausa para ganhar fôlego), pela reposição dos feriados e pela “defesa da escola pública”.

O Bloco de Esquerda parece um adolescente inseguro a tentar impressionar a rapariga mais gira da sala. E compreende-se porquê: há razões para essa insegurança. O resultado do partido nas últimas eleições legislativas foi impressionante — mas foi também imprevisto. Não aconteceu por causa de uma evolução sólida e, portanto, pode desaparecer com a mesma rapidez com que surgiu. Falta ao Bloco força nos sindicatos, nas autarquias e na militância. E falta consistência. Basta um exemplo: na convenção do BE, só por causa de alguns discursos inflamados de opositores da sua liderança, Catarina Martins entrou a pôr um referendo europeu no bolso e saiu com ele na lapela.

Por causa destas debilidades, Catarina Martins tem pressa de mostrar que vale mais do que os votos que recebeu. O Bloco precisa de crescer, encostado ao Governo, aquilo que não conseguiu crescer fora dele. Talvez resulte. Nos primeiros nove meses do governo da “geringonça”, as cautelas do PS e o institucionalismo do PCP permitiram que o BE aparecesse sozinho, com um microfone na mão e uma plateia atenta. Catarina Martins aproveitou a oportunidade e isso, se não é uma virtude, é pelo menos um mérito.

Sobra, porém, o complicado problema do exagero. Catarina Martins decidiu agora enrolar-se na bandeira nacional, tratando as decisões da Comissão Europeia como um “ataque” (palavra sua) à nossa soberania e falando como se a pátria tivesse acabado de ser bombardeada em Pearl Harbor. A líder do Bloco devia saber que escaladas retóricas como esta, sem cautelas nem travões, costumam acabar, mais cedo do que tarde, por encontrar uma parede.