O espectáculo que os nossos políticos nos oferecem regularmente coloca-nos numa posição difícil. Não é fácil, com efeito, oscilar perpetuamente entre o riso e a melancolia. Quem é dado à indignação tem, de certa maneira, a vida facilitada. Entre o riso e a melancolia a indignação faz uma pontinha que torna a vida um bocadinho menos esquizofrénica. Mas para quem, como é o meu caso, não é particularmente dado a indignações, por boas e más razões, esta vida de oscilação perpétua faz mal e dá vontade de voar para longe, muito longe, ou de levar vida de eremita a sério, sem televisão, sem jornais, sem nada que nos faça sequer suspeitar da existência das criaturas que nos pastoreiam.

Estes últimos dias têm sido férteis em episódios que recomendam soluções radicais do tipo atrás mencionado. Senão, vejamos. Tivemos direito a um Presidente da República que se prestou ao ofício de comentador desportivo (com linguagem técnica e tudo) na ocasião dos jogos de futebol da selecção. Só lhe faltou tirar do bolso estatísticas (a selecção nunca perdeu a um sábado e coisas assim) e desenhar tácticas futuras para a equipa, embora, neste último caso, não garanto que não o tenha feito e a coisa me tivesse passado desapercebida. Pessoalmente, não consigo deixar de achar uma certa graça a Marcelo e a ter por ele uma certa simpatia. Mas vê-lo naquela situação (uma situação semelhante a muitas outras em que ele gosta de se colocar) deprime fundo, até porque, contra todas as aparências, transmite um sentimento de inconsciente e grave infelicidade por parte do personagem. Ele não achará que aquilo é, muito banalmente, anormal? Não perceberá que a excentricidade levada a certos patamares de despropósito não é sinal de autenticidade, mas do seu exacto contrário – artificialidade?

Continuando com Marcelo, desta vez com o seu encontro com Donald Trump. O mínimo que se pode dizer, numa reunião em que Trump tinha visivelmente outras coisas mais importantes em que pensar, é que Marcelo foi igual a si mesmo. Quem não se lembra da sua memorável conversa com a rainha de Inglaterra, na qual, para além de vários outros prodígios, lhe procurou avivar a memória acerca do inolvidável general Craveiro Lopes e do doce balanço da carruagem que a transportou no “big square” (o Terreiro do Paço), que tanto provocara o encantamento da sua infância? Lembrou ao presidente americano, a propósito da brincadeira deste segundo a qual Cristiano Ronaldo lhe poderia disputar o cargo, que Portugal não é a mesma coisa que os Estados Unidos. Sábia verdade, mas neste caso um pouco reaccionária, por razões que nem é necessário explicar. Além disso, contam os jornais, consta que deu a Trump uma “lição de história”.

Aqui, o interessante da coisa não vem tanto de Marcelo como da vasta alegria patriótica que a tal “lição” provocou por cá. A ler grande parte do que se escreveu, fica-se com a ideia de que a nossa infinita superioridade sobre os EUA ficou matematicamente demonstrada. Os broncos dos americanos que esqueçam os prémios Nobel, as bibliotecas das universidades e tudo o resto. Nós por cá temos a poção mágica em que Marcelix caiu quando era pequenino e que Costix nos distribui em casos de eventual aflicção. Um golinho e, zás!, somos inteligentíssimos e “os melhores dos melhores”. É cómico? Claro que é cómico. Mas, passado o riso inicial, é deprimente. Não temos de ser assim tão voluntariamente inferiores, não merecemos isso.

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