Pais e mães de todo o mundo sabem bem o que é perder noites à cabeceira de um filho porque está doente, porque não dorme com pesadelos ou por razões que lhes escapam. Custa viver em estado de exaustão, sempre a morrer de sono. Custa manter a performance e a lucidez, quando a única coisa que apetece é uma noite bem dormida, se possível muito comprida. Custa atravessar longos períodos em privação de sono, mas tudo passa e tudo fica justificado se os filhos melhoram e superam as suas crises.

O cúmulo de noites mal dormidas deixa sempre marcas, mas diria que não chegam a ser cicatrizes. Tal como para as mães as dores de parto parecem insuportáveis no momento em que as vivem e, logo a seguir (quase) as esquecem, também as noites passadas em branco por causa dos filhos deixam apenas a memória do facto. Aconteceu, foi duro, mas passou.

À medida que os filhos crescem e, insisto, se as doenças passam e os medos noturnos se desvanecem, podemos voltar a viver longos períodos sem grandes sobressaltos durante a noite. Até ao dia em que o sono volta a ser uma questão familiar porque a mãe ou o pai (ou os dois!) estão doentes ou a ficar tão velhinhos que precisam cada vez mais dos filhos à cabeceira. É nesta altura que os filhos, que também já foram pais, revivem cenas passadas, de um quotidiano inquietante marcado pela ansiedade e cheio de aflições sobre o que fazer e como agir. É então que voltamos a perder o sono.

Quem é apenas filho e nunca foi pai, ou mãe, não pode comparar níveis de desgaste, claro, mas também não precisa. Viver sem dormir é brutal e cansa qualquer um. Em certos dias e horas, desespera, mas por incrível que pareça, o maior desespero não nasce do sono escasso e intermitente. O pior é ver sofrer e ficar impotente perante o sofrimento, especialmente quando toca os que mais amamos. Os que nos deram a vida e dariam a vida por nós.

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