Ando confuso e baralhado.

Então o objectivo não era apenas aplanar a curva? Foi o que me explicaram e prometeram. Perante um vírus respiratório, disseram, seria irrealista tentar até à exaustão impedir a sua transmissão e consequente expansão pela população. Era inevitável que, pouco a pouco, fossemos sendo infectados. Até se atingir uma situação de convivência do vírus connosco, e de nós com ele, com algum grau de imunidade e de susceptibilidade, em equilíbrio.

O objectivo de todas as medidas seria apenas atrasar esse acontecimento inevitável. E aplanar a curva, tentar que o número de infectados crescesse a um ritmo inferior, para não ultrapassar a capacidade de resposta dos serviços de saúde. Para que aqueles que necessitassem de cuidados hospitalares, nomeadamente de internamento em Cuidados Intensivos, não morressem uma morte evitável, por ausência de resposta, de cuidados, de camas, de ventiladores. Como em Itália. Sempre a Itália a pairar como ameaça por cima das nossas cabeças.

Então aceitámos. Vamos a isso, venham as medidas, que já sabemos serem terríveis, horríveis, rebenta-tudo, empresas, economia, sociedade, saúde mental. Venham elas. Por um período temporário, para aplanar a curva, apenas. Aceitámos e cumprimos.

E a curva aplanou. Em vez de um pico tipo sombrero mexicano, sobreveio uma curva aplanada tipo telhado do MAAT ou automóvel aerodinâmico.

Boa? Missão cumprida? Só que não.

Porque entretanto parece que tudo mudou.

O objectivo agora parece ser evitar infectados, internados, doentes em UCI, mortos. Queremos cada vez menos disso, cada vez menos, todos os dias.

Mas não tinham explicado que isso era inevitável? Que as medidas não procuram evitar o número total de infectados, no fim do jogo, no final de tudo, mas somente abrandar o seu ritmo?

Foi o que nos disseram, foi o que nos explicaram. Mas agora dizem que teremos que manter medidas até existir um tratamento ou uma vacina.

Já não compreendo. E fico confuso e baralhado. E até com medo.

Sabem quantos vírus respiratórios co-existem com a humanidade, sem tratamento e sem vacina? Não haver tratamento nem vacina eficazes para este coronavírus poderá ser o cenário mais provável nos próximos anos ou mesmo para sempre. E afirmar a necessidade de medidas até isso acontecer provoca-me medo.

Não foi isso que me prometeram quando tudo começou.

Fomos enganados. Perdemos muito, desde a economia e finanças (de todos e de cada um), igualdade de direitos e garantias, até à liberdade. Parece que agora a liberdade individual não vale nada, o interesse comum é o mais importante, de acordo com aqueles que determinam o que é interesse comum. George Orwell volta, estás perdoado. Porque voltaram estes animais todos iguais, e em que uns o são mais do que outros.

E se é escandaloso e inaceitável haver regras específicas para determinados grupos étnico-raciais com risco de infecção mais elevado, é tranquilo e perfeitamente aceitável existirem regras específicas para determinados grupos etários com risco aumentado. E há sempre regras mais permissivas para actividades de partidos políticos e de grupos sindicais, e mais restritas para todos os outros.

Mas não se preocupem, que isto não é descriminar por cor de pele, ou nacionalidade ou sexo. Por isso, não faz mal.

Porque há sempre gente com o bichinho da ditadura. A ditadura de encerrar estabelecimentos, negócios e empresas. A ditadura de dizer quem pode e não pode sair de casa, discriminando não pela cor da pele mas pela idade. A ditadura de ditar quem se pode ou não reunir. A ditadura de impor regras impossíveis de cumprir para os restaurantes, as creches, as escolas, as universidades, os cabeleireiros. E a ditadura de regras e regrinhas para fazer tudo e mais alguma coisa. Como comer, cumprimentar, estar com a família e amigos, andar na rua, ir à praia, ir comer fora. Há sempre gente com o bichinho da ditadura. E esta gente agora tem um alibi seguro e aceite para soltar o ditador que há dentro de si.

A loucura à solta. A mando dos maluquinhos da ditadura das regras. Da ausência da liberdade e capacidade de decisão de cada um.

Sou demasiado novo para me lembrar, mas não houve uma coisa qualquer num mês de Abril há muitos anos para impedir tudo isto?

Fomos enganados. Não foi isto que nos venderam.

Já aplanámos a curva. Podem devolver-nos os nossos direitos e a nossa liberdade, por favor?