Como já é costume, saíram os rankings das escolas. E, como também já é costume, ouviram-se os protestos de quem está contra o ranking das escolas. É sempre estranho. Os rankings são feitos em função dos resultados dos exames e, por norma, quem é contra os rankings também é contra os exames. Logo, devia borrifar-se nisto tudo. Um tipo maçar-se com uma lista feita a partir de critérios com os quais discorda, é como um vegan reclamar da forma como o Tripadvisor organiza a tabela das melhores churrasqueiras. Estas pessoas são como aqueles ateus que, depois de um terramoto, dizem: ‘Deus é mesmo malvado!’

Imagino que a única forma de as satisfazer seja publicando outro ranking, só que baseado em gargalhadas. Instala-se um medidor acústico em cada escola e avalia-se onde é que as crianças se riem com mais vigor. É a maneira de, finalmente, haver um ranking liderado pelo ensino público. Nas escolas públicas, com tantas vezes em que não há aulas – ou por faltas de professores, ou por greves de funcionários, ou por tectos que caem – os alunos passam muito tempo no recreio a galhofar.

É que, mais do que a qualidade de ensino, o que distingue as escolas públicas das privadas é a quantidade de ensino. Fala-se muito nos 9 anos, 4 meses e 2 dias de tempo de serviço congelado aos professores do Estado, mas esquecem-se os 2 anos, 5 meses e 17 dias de aulas que um aluno da escola pública tem a menos quando chega ao fim da escolaridade obrigatória.

Atenção, não sou contra a escola pública. Pelo contrário, considero-a um pilar de uma democracia saudável e a sua frequência fez de mim melhor ser humano. (Menos mau ser humano, vá. Menos mau ser, pronto). A escola pública permite que a miudagem conviva com o todo o tipo de pessoas com quem, num colégio privado, nunca teria contacto. Não falo de crianças de outras origens socioeconómicas, embora também seja importante. Falo de burocratas do funcionalismo público. Um jovem que, em novo, seja exposto à arbitrariedade, ao atraso, à cunha e à falta de previsibilidade da máquina estatal, estará mais preparado para um dia lidar com a autoridade tributária ou com serviços camarários. É um jovem que não vai estranhar quando lhe disserem que falta um formulário, depois falta uma assinatura no formulário, depois falta um carimbo em cima da assinatura no formulário, depois falta a coima por se ter atrasado a recolher isso tudo e depois a secretaria encerra e só volta a abrir na terça-feira seguinte, das 7 às 7h15 da manhã. É um jovem resiliente e preparado para encarar Portugal. Quem só frequentou o ensino privado não tem nada disso. Tenho amigos que só andaram em colégios e que ainda hoje desmaiam ao entrar numa Loja do Cidadão. Há muito que postulo, aliás, que mais importante que um Serviço Militar Obrigatório, é a instituição de um Convívio com a Administração Pública Obrigatório. A camaradagem no quartel há-de ser muito fraterna, não duvido, mas nada une dois compatriotas como um dia inteiro passado na fila de uma repartição de finanças.

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