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Embora já tenha terminado há 70 anos, a história da Segunda Guerra Mundial continua a despertar acesas discussões e a colocar questões deontológicas, nomeadamente se a verdade histórica deverá ter limites ou não.

Isto bem a propósito da recente publicação do diário de guerra de Vladimir Helfand, oficial russo de origem judaica que participou nos combates contra entre 1942 e 1943. Um documento realista, mas violento e duro, que aborda problemas até agora “esquecidos” por conveniências políticas.

O oficial relata episódios da falta de disciplina entre as tropas do Exército Vermelho, escreve sobre a alimentação precária, piolhos, anti-semitismo entre os soldados, roubos e pilhagens. Por exemplo, relata exemplos de soldados que roubavam as botas dos seus companheiros de combate.

Mas Vladimir Helfand aborda um assunto mais incómodo e cruel: o comportamento dos soldados soviéticos face às mulheres alemãs, ou mais precisamente, violações sexuais, tema tabu na historiografia russa, mas também muito pouco abordado noutros países que venceram na Segunda Guerra Mundial.

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No dia 25 de Abril de 1945, ele escreve em Berlim: “Perguntei a umas alemãs onde vivem, num mau alemão, e interessei-me em saber o que as levára a abandonar a sua casa e elas contaram-me, aterrorizadas, a desgraça a que foram sujeitas quando as primeiras tropas do Exército Vermelho entraram na primeira noite [na cidade]”.

“Eles apontavam para aqui, explicou uma bela alemã levantado a saia, eram muitos e foi durante toda a noite. Eu era virgem, suspirou ela e chorou. – Estragaram a minha mocidade. Entre eles havia velhos, cheios de espinhas, todos atiraram-se a mim, apontavam. Foram pelo menos vinte, sim, sim”.

Outra alemã acrescentou: “Eles violaram a minha filha na minha presença. Ainda podem vir e violar de novo a minha menina. – Todas elas voltaram a ficar horrorizadas e um choro amargo alargou-se por todo o subterrâneo para onde me tinha conduzido a dona”. “Fica aqui, disse-me, de súbito, uma jovem, vais dormir comigo. Podes fazer tudo o que quiseres comigo, mas só tu!”.

É de assinalar que os soldados e oficiais soviéticos não eram os únicos que praticavam este tipo de crimes contra a população civil. Os soldados norte-americanos também não se distinuiam pelo comportamento exemplar face às mulheres dos vencidos, não obstante o general Eisenhower ter ordenado o fuzilamento dos violadores no local do crime. Na realidade, tanto as autoridades soviéticas como norte-americanas fechavam os olhos a esses crimes na maioria dos casos.

Segundo dados aproximados, 100 mil mulheres foram violadas em Berlim e dois milhões em toda a  Alemanha.

Claro que há aqueles que justificam essa barbárie com as crueldades ainda muito maiores cometidas pelos nazis nos territórios ocupados, afirmando que se tratou de “uma questão de vingança”. Afinal, dizem os defensores dessa tese, só a URSS perdeu mais de 20 milhões de pessoas.

Porém, esta justificação só tem razão de ser num mundo onde não seja obrigatório o respeito por convenções, direito internacional, etc. Talvez por isso fenómenos semelhantes continuem a acontecer noutras guerras e conflitos armados dos nossos dias.

Ainda é mais imcompreensível a posição daqueles que tentam encobrir episódios desses a pretexto de não “macular a imagem dos vencedores”. Recentemente, a Duma Estatal (Câmara Baixa) do Parlamento Russo, aprovou a lei “Sobre os atentados contra a memória histórica”, segundo a qual todo aquele que minimizar o contributo da URSS na derrota do fascismo poderá ser condenado a pagar uma coima ou a uma pena até cinco anos de prisão.

São leis como estas que continuam a impedir o acesso dos estudiosos aos milhões de documentos encerrados nos arquivos soviéticos ou noutros para que se continue a não conhecer a verdade histórica. Ou será que esta tem limites? Afinal, se os homens não aprendem com a “história aproximada”, também não o deverão fazer perante a verdade nua e crua.

P.S. Quem desejar ler o diário na integra (em língua russa), pode procurar em qualquer motor de busca: “дневник офицера Советской Армии Владимира Гельфанда”