Rádio Observador

Direitos das Mulheres

Iniciativa Liberal: facilitar mais mulheres na política, não; mais na prostituição, sim. /premium

Autor
415

São estas as consequências das políticas que a Iniciativa Liberal, com a leviandade e superficialidade do costume (nada é estudado, nada é medido), propõe.

Eleições 2019. Uns partidos promovem as mulheres na política e nos topos das empresas, outros querem garantir igualdade salarial, outros aumentar a proporção de jovens portuguesas que seguem para as áreas científicas.

E temos um partido – a Iniciativa Liberal – quer facilitar às mulheres que sejam prostitutas. São opções. Cada um tem a visão das mulheres que consegue.

Legislar (lei da paridade) de forma a garantir que toda a população está minimamente representada na Assembleia da República? São ferozmente contra e fazem teatrinhos com as listas de deputados a gozar com este direito conquistado e que só trouxe mulheres ótimas e de grande mérito para a política. (Os únicos dois candidatos IL com remotas possibilidades de serem eleitos são homens – claro.)

Mas legislar para que tenhamos mais prostitutas? Ora vamos lá a isso, que boa ideia. Mercados são fixes e tudo se compra e tudo se vende. Consta no programa do partido ‘regulamentar a prostituição’ (novilíngua para exploração sexual de mulheres) e passei no twitter no outro dia pelo anúncio de um debate (dos poucos que tiveram) para ‘liberalizar a assistência sexual’.

Primeiro foi o candidato da IL protecionista de toda a vida e de repente virou adepto do comércio livre para as eleições. Depois, a ex-deputada que recebe uma subvenção vitalícia aderindo à IL. Agora querem tornar a prostituição uma opção de carreira viável para as mulheres portuguesas – e para as imigrantes que para cá forem traficadas, claro. Até alargam a esfera de liberdade das mulheres permitindo-nos prostituir-nos, que fofinhos. Um partido ‘novo’ destes não se inventa.

Pontos nos is. 90% das pessoas prostituídas são mulheres. A prostituição é, de longe, a profissão mais mortífera do mundo. Legalizar e regular a prostituição aumenta o número de mortes de mulheres prostituídas. E aumenta também o tráfico humano e o tráfico sexual, de que a prostituição é o negócio mais chorudo – 72% das vítimas de tráfico humano são mulheres. A violência dos clientes sobre as prostitutas é mal geral.

São estas as consequências das políticas que a IL, com a leviandade e superficialidade do costume (nada é estudado, nada é medido), propõe. Vindo de um partido onde qualquer legislação benéfica para a situação das mulheres é repudiada – anti quotas; consideram que as diferenças salarias entre mulheres e homens são naturais e resultado das diferenças biológicas entre homens e mulheres, um problema inexistente; querem quase extinguir o estado social com a sua absurda taxa plana de 15% de IRS, quando as mulheres são as maiores recetoras dos apoios sociais – a defesa da prostituição como trabalho normal não deixa de ser elucidativa da visão que têm do papel das mulheres.

Estas excentricidades costumam vir dos partidos de extrema-esquerda. O BE em Lisboa, por exemplo. Em Barcelona, Ada Callao é grande apoiante do lóbi proxeneta. Mas estes partidos têm a visão de trabalho sexual perfeitamente aceitável e julgam retirar-lhe o estigma e perigos. Ou – como me disse Harriet Langanke, jornalista de Colónia, do Centro para a Sexologia e Sexualidade, que trabalha com as prostitutas da cidade (maioritariamente não alemãs) – deve-se ter uma abordagem pragmática que garanta pelo menos cuidados de saúde às envolvidas. O que sucede na Alemanha, ainda que muitas evitem o registo que a lei protetora de 2017 requere.

Porém da IL fui procurar e encontrei uma pequena mas eloquente descrição do presidente, Carlos Guimarães Pinto, do que é uma prostituta. Aterrador pela leveza com que fala de um problema que representa vidas de miséria. A  prostituição é dada como atividade que uma mulher escolhe livremente, ‘sem pensar duas vezes’. Não parece abarcar que as causas da prostituição são o tráfico sexual, extrema pobreza, problemas psicológicos e dependências variadas. Constata que as prostitutas julgam ter uma boa vida, dinheiro fácil, sem trabalhar muito – em vez de, enfim, não. Mais: são mulheres de má qualidade, com filhos de diferentes pais, não usam contracetivos.

É um texto de um blogue, logo deve ser lido com um grão de sal. Mas vem totalmente a despropósito do assunto do post (o salário mínimo) e não deixa de ser revelador de uma certa mundividência. Uma pequena história onde não se criticam os pais dos filhos que os deixam sem sustento e permitem que a mãe tenha de recorrer à prostituição (ah, ela gosta). Um mundo puritano e provinciano onde os homens não casam com mulheres que têm filhos de outros homens. E, cereja, prostituta lisboeta – o que, em alguém tão obsessivamente anti lisboeta como o presidente da IL, não é pormenor despiciendo. Verão como boa ideia tornar Lisboa num destino de turismo sexual?

Neste momento cidades como Amsterdão repensam os excessos da liberalização da prostituição. Mas a IL, em contra tendência, tem esta nobre prioridade política: dar a possibilidade de comprar sexo com segurança a homens com dinheiro e explorar sexualmente mulheres pobres. Antes na prostituição que na política ou nos conselhos de administração das empresas, não é?

Fica aqui a história:

‘A Natacha engravidou pela primeira vez aos 17 anos. O namorado, de 16, não quis saber. Aos 23 já tinha 3 filhos. Quando os pais morreram ela deixou de ter quem a ajudasse. Agora, sozinha, recebe o salário mínimo nacional, que mal dá para a renda de casa em Lisboa. A verdade é que com 3 filhos, nem 800€ lhe chegariam. A Natacha tem bom aspecto e vai tendo namorados, mas nenhum se quer casar com uma mãe de três filhos. Um dia, ao passar pelas páginas do Correio da Manhã, surge-lhe uma ideia sobre como dar a volta à sua vida. Avança sem pensar duas vezes. Passados 6 meses, já com algumas poupanças, aluga um T2 para a família e um estúdio para receber os clientes. Numa dessas noites, antes de receber um cliente, liga a televisão e fica a saber que o salário mínimo nacional aumentou 20€. “Que miséria, não percebo como pode alguém sobreviver em Lisboa com esse dinheiro”, pensa enquanto se prepara para o próximo cliente.’

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Ambiente

Como assim é bom termos baixa natalidade? /premium

Maria João Marques
154

O projeto The Great Decrease tem colocado cartazes celebrando baixas taxas de natalidade, também em Portugal. Baixa natalidade é sintoma e causa de uma sociedade decadente. Não há nada a celebrar.

Trabalho

Ficção coletiva, diz Nadim /premium

Laurinda Alves

Começar reuniões a horas e aprender a dizer mais coisas em menos minutos é uma estratégia que permite inverter a tendência atual para ficarmos mais tempo do que é preciso no local de trabalho.

Trabalho

Ficção coletiva, diz Nadim /premium

Laurinda Alves

Começar reuniões a horas e aprender a dizer mais coisas em menos minutos é uma estratégia que permite inverter a tendência atual para ficarmos mais tempo do que é preciso no local de trabalho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)