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Há pouco mais de um mês, islamitas radicais (talibãs) chacinaram 141 pessoas numa escola militar no Paquistão, em Peshawar; eram quase todos jovens entre 12 e 16 anos, a maior parte muçulmanos. Na semana passada, 3 islamitas radicais (franceses) mataram 18 pessoas em Paris; polícias, alguns judeus, pelo menos um muçulmano. Na quinta-feira, em Baga, cidade nigeriana, foram assassinadas (entre) centenas a 2 mil pessoas (consoante as fontes), pela organização jihadista islâmica Boko Haram, fundada em 2009 por Mohammed Yousef; eram africanos na maioria cristãos, mulheres, crianças e idosos.

O que têm estes actos hediondos em comum, para além de serem hediondos? A qualificação dos perpetradores como islamitas radicais: paquistaneses, franceses ou nigerianos, todos professam uma crença num Alá mau e vingativo, um Deus que exige a conversão dos incréus, tendo proclamado “chacinem os idólatras (mushriqs, os não muçulmanos) onde quer que os encontrem” (Qur’an, sura Taubath capítulo 9, verso ou ayat 5). São os chamados versos da espada (“sword verses”), em que os radicais fundamentam a moderna jihad.

Ora a maior parte dos muçulmanos acredita num Deus misericordioso e compassivo, cuja mensagem revelada – no livro sagrado, o Qur’an – promete paz e bem estar através da fé.  Como explicam eles então os referidos versos? Muito simplesmente colocando-os em contexto: referem-se à quebra de um tratado por não muçulmanos e à guerra que se seguiu, em que naturalmente os muçulmanos devem lutar e matar os inimigos. Mas logo continua “se se arrependerem, rezarem e praticarem caridade regularmente, então abram espaço para eles, pois Deus é todo misericordioso”. E mais refere o ayat 6 que devem receber asilo e ser escoltados e protegidos. No fundo, o que dizem os teólogos islamitas a respeito da sura 9:5 é que Alá pede aos soldados muçulmanos que durante a guerra não temam, que persigam e matem os inimigos onde quer que os encontrem; nada de distinto do que dirá um general ou um chefe militar de qualquer nacionalidade ou credo aos seus soldados em batalha.

E há depois o ayat 256 capítulo 2 da sura designada Al-Baqrah, outra parte famosa do Corão, os versos da não compulsão (“non compulsion verses”), que excluem a conversão sagrada dos não crentes: “não há compulsão na (aceitação da) religião”. Não é uma interpretação pacífica, havendo várias possibilidades de entendimento deste verso, que elenca e explica numa monografia muito interessante a historiadora Patrícia Crone; controvérsia aliás manifestada em 2006, na sequência do célebre discurso de Regensburg de Bento XVI e da reacção de um conjunto de 38 académicos muçulmanos. Mas o que parece assente e é fundamental, entre muita indefinição, é que o Islão proclama aí a liberdade religiosa pelo menos para cristãos e judeus (os povos do Livro), que não podem ser forçados à conversão.

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Bento XVI, na referida intervenção de Regensburg, considerou que o Deus do cristianismo age em concordância com a razão, enquanto a sua absoluta transcendência no islão significa que pode por vezes agir contra ela, ou até em contradição consigo próprio. Referir-se-ia quiçá à interpretação do islão vingativo a que aludo. Trata-se contudo de discussões sobretudo teológicas – e entre religiões -, pouco compatíveis com a evolução do Mundo moderno. O islão moderado aprecia tanto como o Ocidente os avanços civilizacionais – e os valores – que, em grande parte nascidos e alimentados na Europa, se tornaram globais, parte inalienável do património imaterial e moral de toda a Humanidade.

Mais do que religiosa, a ameaça terrorista é em parte motivada por ressentimentos historicamente ancorados, com a pobreza, a ignorância e o sofrimento, convencidos de que combater e (hipoteticamente) aniquilar o agente histórico da razão dos seus males levará ao advento imediato da riqueza, do conhecimento e do bem-estar; e noutra parte, como sempre, é uma luta por poder, influência e riquezas. Ninguém com juízo acredita que o Califado pode ser restaurado, unindo o Oriente fértil às cercanias de Córdoba. Ninguém que leia jornais, redes sociais e veja televisão, aqui ou em Ryad, crerá que as mortandades no Paquistão, em França ou na Nigéria, permitirão a quem quer que seja – Estado islâmico, Al Qaeda? – conquistar território ou converter infiéis (os bem nutridos e felizes europeus, os abastados e aguerridos americanos?).

Então o que querem os terroristas? Criar um ambiente de guerra. Estabelecer um paradigma em que a complexidade da presença muçulmana na Europa, com as inerentes questões da identidade – os assassinos de Charlie e restantes vítimas de Paris eram franceses de nacionalidade! -, se simplifique ao absurdo paradoxalmente moderno do maniqueísmo do nós contra eles: nós, europeus, cristãos (de baptismo), carregados dos valores da tolerância, liberdade e democracia, contra eles, muçulmanos, inimigos do nosso modo de vida. Nós, europeus, civilizados, contra eles, muçulmanos, fanáticos.

É isso que “eles” querem e é isso que devemos evitar a todo o custo.

Os países europeus, a União Europeia, têm de ter muito cuidado ao limitar a liberdade de circulação, coisa diversa do reforço dos controlos fronteiriços (externos sff, os irmãos Kouachi eram franceses), e não podem sobretudo reduzir as liberdades individuais, a começar pela liberdade de expressão – e o seu mais assustador avatar, a auto-censura. Se com medo o fizermos, mudando radicalmente o nosso modo de vida e sacrificando direitos e liberdades que são a essência da nossa natureza e valores, os islamitas radicais já estarão a ganhar. É isso que querem. Polarizando a opinião pública, aumentando a pulsão securitária, endurecendo as posições, “eles” já estão a vencer. Nesse sentido, as palavras de Marine Le Pen ganham novo significado: estar em guerra contra o fundamentalismo islâmico não é a mesma coisa que estar em guerra contra o islão. Mas a fronteira entre essas batalhas é ténue e facilmente transponível e era bom que também os radicais europeus, a começar por Le Pen, o entendessem.

A Europa não pode fazer dos 40 milhões de muçulmanos que vivem no seu território inimigos. Se isso acontecer haverá guerra e os fanáticos, os radicais, os islamitas adeptos dos “sword verses”, terão conquistado para a sua causa errada os muçulmanos crentes nos “non compulsion verses”.  

Deus, o nosso ou Alá, que provavelmente é também o nosso, nos livre de cometermos tamanho disparate.

PROFESSOR DA UNIVERSIDADE CATÓLICA – INSTITUTO DE ESTUDOS POLÍTICOS