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Há 38 milhões de muçulmanos na Europa, cerca de 5% da população europeia e menos de 2% do número de muçulmanos no Mundo.

Claro que existem casos especiais, como o de Marselha, cidade francesa com mais de 30% de muçulmanos. Em comparação, por outro lado, a América do Norte não conta mais de 5 milhões de muçulmanos, quase tanto como a Alemanha, com mais de 4 milhões ou até a França, com 3,5 milhões.

Poderá dizer-se que a Europa está em vias de se tornar muçulmana, ou dominada pelo islão? Terá razão Houellebecq, o provocador escritor francês, que no livro lançado este mês, “Soumission”, ficciona uma França com um Presidente francês já em 2022, sujeita à lei da charia? Os números não confortam essa tese.

O ataque bárbaro ao Charlie Hebdo, revista satírica francesa criada em 1969, matou vários cartoonistas franceses conhecidos, a começar pelo director Stéphanne Charbonier, conhecido como Charb. O seu último desenho é inquietantemente premonitório: um fundamentalista com metralhadora a tiracolo comenta a afirmação “Ainda não houve atentados em França”, “Esperem, temos até ao fim de janeiro para apresentar os nossos votos”. Infelizmente para Charb os votos chegaram sob a forma de rajadas de kalachnikov.

A revista Charlie Hebdo foi sempre anticlerical, uma espécie de argumento maior do ethos fundamental da esquerda francesa, de que aliás se reinvindica. Durante muitos anos um dos seus alvos preferidos foi a Igreja católica. A partir sobretudo de 2006, quando republicou as caricaturas originalmente publicadas pelo jornal conservador dinamarquês Jyllands Posten, o islão fundamentalista passou a estar na sua mira.

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Poucos anos depois, numa capa ilustrada da revista, a figura do profeta Maomé apresentado como diretor ameaça “100 chicotadas se não morrerem de riso”. Em consequência a revista foi incendiada, tendo sido forçada a mudar-se para as instalações atuais. Os seus principais responsáveis e cartoonistas foram colocados sob proteção rigorosa. Charb passou a constar da lista dos mais procurados – morto ou vivo – por crimes contra o islão, publicado pela revista de propaganda Inspire, da Al Qaeda; viveu, até morrer, sob proteção especial de alto perfil da polícia francesa.

Nada que intimide o terror fundamentalista, como se viu. Com Charb morreram alguns dos mais famosos nomes do cartoonismo francês, como Wolinski, Cabu, Tignous.

Porque há tantos muçulmanos na Europa? São uma ameaça? Deve o Ocidente reagir à onda imparável da imigração islâmica com movimentos como o das segundas-feiras na Alemanha – europeus patriotas contra a islamização da Europa – e convidar os muçulmanos a partir ou, no pior dos casos (dos que já detêm a nacionalidade de um país europeu), encerrá-los em guetos, segregando-os e perseguindo-os?

Resposta: há muitos muçulmanos na Europa porque o continente, rico e pacífico, é obviamente atrativo para populações e indivíduos oriundos de algumas das zonas pobres e turbulentas do globo; está à mão de semear; e os refugiados, políticos e económicos, do mashrek, magreb e médio oriente, não encontram refúgio adequado nos países muçulmanos (seus irmãos) mais ricos, onde as leis da nacionalidade lhes vedam de forma o acesso aos direitos de cidadania assegurados aos nacionais – é o caso dos Estados do Golfo Pérsico. Mas o Ocidente não deve reagir à ameaça, seja ela real ou empolada, perseguindo as populações muçulmanas que habitam no continente europeu. E não pode por duas razões: porque ser contrário aos valores que o Ocidente defende e os extremistas islâmicos ameaçam, e porque isso seria apenas o início de uma escalada, em que todos, cristãos, muçulmanos, sem religião, sofreriam por igual medida.

Por outro lado, poderá de alguma forma ser este acto justificado como uma resposta à provocação, algo que foi escrito com abundância em 2011 aquando do incêndio criminoso da revista, e se continua a ler e a ouvir com frequência e também foi defendido aquando da publicação das caricaturas do profeta Maomé no já referido jornal dinamarquês Jylland Posten em 2006? Ou até como por vezes podem fazer crer pedidos de desculpa como o de Salmon Rashdie ou do próprio Jylland Posten aos muçulmanos por ter publicado cartoons sobre o profeta Maomé?

A verdade é que a Europa tem direito aos seus valores e a proclamá-los e defendê-los contra todas as ingerências. Tem de garantir e preservar o direito dos seus cidadãos e das suas instituições – dos seus jornais e meios de comunicação social – expressarem as suas opiniões pela forma que escolherem, desde que isso não represente um crime, sem medo de perseguições de qualquer espécie, como tantas vezes acontece tendo por alvo a sua própria Igreja, políticos e celebridades – vale aqui lembrar a tão repetida frase de Voltaire, “não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres”. Os europeus – os ocidentais – têm de perder de vez o complexo de culpa relativo às culturas e religiões alheias, não aceitando que sejam por elas postos em causa os seus valores e princípios tão laboriosamente delineados ao longo de, pelo menos, 500 anos de luzes, avanços civilizacionais e revoluções democráticas.

A Europa pode e deve continuar a ser tolerante. Mas tem todo o direito de se defender.

Hoje somos todos Charlie. Charb e os seus colegas defenderam até à morte o direito de nos expressarmos livremente.

Professor da Universidade Católica — Instituto de Estudos Políticos