Uma família em isolamento, dia 41

Nunca se viu nada assim em quase cinquenta anos. Hoje festejamos de maneira diferente e celebramos em casa o que gostamos de celebrar na rua. Lembramos em casa o que gostamos de lembrar na avenida. Explicamos novamente às filhas, mas agora dentro de quatro paredes, o que gostamos de lembrar no meio de amigos, todos juntos, lá fora. Que houve um tempo negro e que um dia se fez luz. Que temos muito mais a agradecer do que a lamentar. Que a democracia se constrói, que elas fazem parte dela e que hoje é dia de cantar os parabéns a um tempo novo que nasceu há 46 anos.

Mas este é um ano diferente e este Abril celebra-se de maneira diferente.

Esta semana a minha filha de 7 anos arrancou mais um dente de leite. Foi mesmo ela que o tirou e, pela segunda vez desde que estamos fechamos em casa, a única “pessoa” exterior a esta família de quatro que aqui entrou foi mesmo a fada dos dentes, que veio deixar um presente debaixo da almofada da Carolina e levar o pequeno troféu embrulhado numa compressa (está agora devidamente guardado em lugar seguro). Tal como aconteceu antes, houve fotografias e um vídeo de uma boca desdentada, a novidade partilhada com a família e as amigas, mas não houve ninguém a quem mostrar o novo look ao vivo e a cores. Da primeira vez custou-lhe um pouco. Esta semana nem reparou.

As rotinas vão-se instalando. Acomodando. Vão-se tornando um pano de fundo do quotidiano no qual corre o dia a dia. Hoje deparamo-nos com uma situação nova vivida dentro de quatro paredes, estranhamo-la, lembramo-nos que isto não é normal, noutro tempo não seria assim, no ano passado não foi assim, se não estivéssemos nestas condições não seria assim. Mas se amanhã se repetir, e noutro dia também, e se na outra semana voltar a ocorrer, chegará um dia em que já não estranhamos tanto. Lá se vai encaixar. Continuaremos a saber que não seria assim se não estivéssemos aqui, mas já nem nos lembramos disso.

Os dias vão passando mas já não os contamos. Já não damos bem conta disso porque deixou de ser importante para a nova realidade. Quer dizer, é importante saber há quanto tempo não se produz da mesma maneira, há quanto tempo não entra dinheiro da mesma maneira, há quanto tempo deixámos de viver da mesma maneira. Mas vivemos neste cenário e fizemos dele a nossa vida desta maneira.

Talvez seja por isso que deixámos de contar os dias. Sei que hoje chegamos ao 41.º desde que as escolas fecharam (e este diário começou a ser publicado), ao 44.º desde que nos trancámos em casa. Conto-os eu porque vou olhando para o calendário ao escrever, mas como não sabemos quantos dias faltam para o fim disso, já não ligamos muito aos dias que passaram desde que começou.

A primeira vez que cantámos os parabéns através de um telemóvel achámos estranho e quando desligámos a videochamada depois de ajudar a apagar as velas e de alguns minutos de conversa lembro-me de ter olhado para a minha mulher e encolher os ombros enquanto respirava fundo. “Vai ser assim por uns tempos.” No segundo aniversário em quarentena já não fizemos isso. Da primeira vez que brindámos à distância com amigos lamentámos não poder sentir o toque dos copos deles nos nossos mas na vez seguinte já nem reparámos. Ou reparámos mas nem falámos. Da primeira vez que falámos com os meus pais através do Messenger depois de a minha mãe ter aprendido a usar aquilo rimo-nos da câmara apontada para o chão e das vezes que a chamada foi abaixo. Mas nas ocasiões seguintes já nem demos conta das palavras que não se ouviam bem e eu já não gritei tanto a dar instruções técnicas à distância.

As coisas não ficam melhores. Não ficam mais fáceis. Ficam apenas menos estranhas ao deixar de ser inéditas. Mas adaptamo-nos. Relativizamos. Aceitamos. Sabemos que é por uma causa maior que estamos aqui, que as miúdas não estão na escola, que não podemos tocar nos avós. O hábito pode ser um manto seguro e nós vamos precisando de nos cobrir com alguma coisa que nos dê uma sensação de normalidade. Por muito estranho que seja esse normal.

Aqui há uma criança de 6 e outra de 7 anos que todos os dias recebem aulas e atividades a duas dimensões em écrans de televisão, de computador ou de telemóvel e não se estão a comportar da forma que era “normal”. Aqui há uma mãe enfermeira que todos os dias sai de casa e enfrenta outras realidades e contacta outras pessoas e chega cansada e não abraça da mesma maneira nem agarra da mesma maneira porque tem medo do que possa vir com ela. E isso não é “normal”. Aqui há um pai jornalista que escreve e organiza ideias e propostas pela noite fora para compensar esta nova realidade pelos dias adentro e com isso não está a pensar da mesma maneira nem a agir de forma “normal”.

Mas já não estranhamos.

Este ano, porém, celebramos pela primeira vez o 25de Abril de forma contida. E esperamos que nunca, mas nunca mais, por este motivo ou outro, voltemos a festejá-lo assim. E que isso nunca se torne um hábito. E que isto nunca seja o novo normal.

 Veja também (Diário de Uma Família em Isolamento):

 Dia 1. Sabe o nome do seu vizinho?

Dia 2. Teletrabalho? Vocês não têm filhos pequenos, pois não?

Dia 3. Vai para dentro, olha que te constipas, pai

Dia 4. Jantar de grupo, hoje. Por vídeo? Cada um na sua casa.

Dia 5. #vaificartudobem, mas antes disso estamos a ficar mal

Dia 6. Domingos que parecem outro dia qualquer, sempre iguais

Dia 7. Uma quarentena para ler as mensagens todas no WhatsApp

Dia 8. “Quando é que isto acaba?” Não sei, filha 

Dia 9. E os professores dos nossos filhos, como estão a lidar com isto?

Dia 10. Já chegou. Um dos nossos está infetado

Dia 11. Rotinas 0 – 1 Sanidade mental. Que se lixem as rotinas

Dia 12. Agenda: às nove no Instagram ou às dez no Skype?

Dia 13. Como explicar o que aconteceu na Ponte 25 de Abril?

Dia 14. Os vossos pais também não param em casa?

Dia 17. “Sim, vai mesmo ter que ir às urgências”

Dia 18. Pão, vinho e Bruno Nogueira. O que mudou em três semanas

Dia 19. O medo lá fora – a minha filha não quer sair de casa

Dia 20. A vida em suspenso

Dia 21. “E então, o que vamos fazer hoje?” Fartos de pensar nisto todos os dias?

Dia 22. “E se te vestisses de professora?”

Dia 23. Não vamos à terra na Páscoa e a minha mãe está triste

Dia 24. “E se eu infetar o meu filho?” Médicos e enfermeiros em isolamento

Dia 26. Não vamos ter ensino à distância

Dia 27. Nunca fizemos tanta companhia aos nossos animais de companhia

Dia 28. O medo lá fora, a segurança cá dentro

Dia 29. Terceiro período. Ou damos em doidos ou respiramos de alívio