Uma família farta da pandemia, dia 112

Três malas de viagem. Dois sacos grandes. Uma geleira. Três pequenos sacos térmicos. Comida da cadela. Medicamentos da cadela. Uma caixa de medicamentos da minha mãe. Um saco de medicamentos do meu pai. Um saco de plástico com envelopes de papel “com documentos que podem ser precisos”. Três garrafas de Coca-Cola. Quatro laranjas. Uma caixa com um bolo de cenoura feito na véspera. E mais de 35 sacos e saquinhos e saquetas de plástico (deixei de contar aos trinta e arredondei para cima quando me perdi nos números) .

Tenho 45 anos e toda a vida foi assim. Toda a vida o carro do meu pai se encheu em agosto para fazer uma viagem de trezentos quilómetros a caminho da Beira Baixa, onde íamos passarparte das férias de verão. Toda a vida eu e as minhas irmãs os tentámos convencer a levar dois sacos grandes em vez de vinte pequenos, mas toda a vida levámos a mesma resposta: “as coisas vão ficando prontas e colocamos à porta para levar para o porta-bagagens”. E não era agora que este método feito rotina ia mudar.

E não mudou. No sábado foi assim também. Carreguei eu parte do carro, o meu pai carregou o resto e lá nos fizemos à estrada com mais coisas do que as que vão precisar, mas “nunca se sabe o que a vida nos reserva e isto ou aquilo pode fazer falta e não vai ficar cá a estragar-se”.  Fui eu levá-los, logo se vê quem os traz, entre filhos ou netos. A idade pesa e o meu pai ainda faz viagens pequenas mas das grandes tratamos nós.

Agosto ainda vem longe mas os meus pais já estão na raia beirã. Já estão na aldeia da minha mãe, a poucos quilómetros da aldeia do meu pai, para os meses de verão. É assim desde que se reformaram, há mais de vinte anos. Foi lá que cresceram, foi de lá que saíram para vir para Lisboa, é para lá que regressam todos os anos na Páscoa e no verão.

Mas este ano foi diferente. A Covid tirou-lhes a Páscoa na Beirae neste regresso agora, além dos sacos, saquinhos e saquetas, levavam na bagagem também a ansiedade de quem não ia a casa há demasiados meses. Em setembro do ano passado, quando o meu pai deu a última volta ao quintal para garantir que nada ficava esquecido e quando a minha mãe rodou a chave da porta da praça, junto ao pelourinho, não podiam fazer ideia que não regressariam tão depressa.

Os meus pais estão na aldeia. Quando toca a falar de sentimentos, o Zé é homem de poucas palavras, foge-lhe a voz, ficam os sons entalados na garganta. A Maria Dias não. Fala de alegria e de tristeza, do que sente e do que sofre. E ontem, cada um à sua maneira – ele sentado na cadeira dele, junto à ventoinha que acalma a torreira do verão beirão, ela com os olhos iluminados a orientar a bagagem que ia de Lisboa – estavam felizes por regressar a casa.

A Covid-19 tirou abraços entre avós e netos, tirou viagens para fora dos concelhos de residência, tirou viagens que podiam espalhar o vírus, confinou as pessoas – mas não confinou o medo, que se espalhou mais do que a doença. E com o receio de contágio vieram as grandes, enormes, extraordinárias mazelas ao nível da saúde mental, ao mantermos famílias afastadas, pessoas isoladas, negócios fechados.

Sabemos bem que a emergência sanitária assim o ditou, que as normas de segurança o exigiram, que a proteção da vida humana tem de estar acima de tudo e que a sobrecarga dos hospitais deve ser evitada a todo o custo. Mas sabemos também que, além do impacto económico, a fatura ao nível psicológico e de bem estar mental e social vai ser muito alta.

Ontem, quando deixei os meus pais na aldeia para onde não puderam ir na Páscoa, percorrendo a A1 com pouco trânsito, a A23 às moscas e a N233 quase deserta, sei que contribuí para lhes preservar a saúde mental. Há muito que o corpo vai dando sinais de atenção, mas a cabeça agradece bastante. Trezentos quilómetros separam-nos agora de duas pessoas que fazem parte de um grupo de risco devido à idade e a outros problemas de saúde.Mas, munidos com muitas máscaras, muito bom senso, opiniões de médicos favoráveis à viagem e à estada e com vários cenários de emergência médica ponderados (o que fazer no caso A, o que fazer no caso B…) sabemos que os nossos pais estão melhor agora do que estavam quando os tínhamos perto.

Cada caso é um caso e cada família tomará as decisões que forem melhores para os seus – mas no caso dos “nossos”, regressar às raízes onde se sentem bem no verão foi a decisão mais certa.

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Dia 4. Jantar de grupo, hoje. Por vídeo? Cada um na sua casa.

Dia 5. #vaificartudobem, mas antes disso estamos a ficar mal

Dia 6. Domingos que parecem outro dia qualquer, sempre iguais

Dia 7. Uma quarentena para ler as mensagens todas no WhatsApp

Dia 8. “Quando é que isto acaba?” Não sei, filha 

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Dia 76. A minha filha não regressa à escola na segunda-feira

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