Uma família em isolamento, dia 29

Os dedos pequenos a carregar nas teclas. À procura dos acentos, da vírgula, do ponto, do til. A martelar devagar as letras para formar as palavras que já conhece mas sobre as quais tem ainda dúvidas. O sorriso de cada vez que não se esquece de carregar no shift para fazer a maiúscula no início da frase ou nos nomes próprios. A sensibilidade para carregar no sítio certo, com a ajuda do rato ou do touchpad.

E nós ao lado. A prestar assistência permanente ou ao alcance de um “pai!” ou “mãe!”, prontos a intervir se for necessário. Com o tempo a correr, o almoço por fazer, a irmã a pedir atenção também e os minutos que faltam até ao envio daquele relatório ou daquele texto a diminuir rapidamente. Enquanto aqueles olhos tentam perceber a diferença entre o caule e as folhas. Enquanto aquela cabeça tenta fazer no monitor do computador a conta que sempre fez no papel. Enquanto aqueles dedos pequenos continuam a varrer o teclado à procura do ponto de interrogação, do c de cedilha ou do acento circunflexo.

E então? Vai ser assim a partir de hoje com crianças do primeiro ciclo, que têm ainda pouca autonomia digital, e os pais vão finalmente dar em doidos a conciliar isto com o teletrabalho enquanto se tornam peritos no Microsoft Teams (ou no Google Classroom ou noutra plataforma qualquer de ensino à distância e partilha de documentos)? Ou vai ser um alívio porque os miúdos vão estar ocupados e, não sendo bem como ir à escola, pelo menos vai significar um estímulo diferente e os pais vão ter alguma folga?

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