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Há mais um conflito na Europa. A excitação incontrolada pela violência tem levado frequentemente a isto ao longo da história da humanidade. Assim, os Pântanos das Faces Mortas, à sombra tardia dos penhascos de Emyn Muil que brotam do nosso egocentrismo anuído, têm-se multiplicado. Eis-nos, dessa forma, a chorar por uma miríade de vítimas de guerras que a História, essa “invenção” europeia, nos diz que não deviam ter acontecido. E diz-nos, porque, bem lá no fundo, estamos todos de acordo que, como refere um Talmude posteriormente plagiado em textos sem qualquer inspiração, salvar uma vida humana é salvar toda a humanidade, e matá-la é votar estoutra à perdição.

Não me refiro a um daqueles cibercombates que, de tempo a tempo, revelam a fragilidade das nossas instituições e dos sonhos que nelas depositamos. Esta debilidade é trágica. Mas não tão trágica como se querer impor ideias mais novas do que os seus proponentes, quando, sabemos bem, as mais sólidas são sempre pequenos rebentos a brotar das intemporais árvores do verdadeiro conhecimento e da vida autêntica. Aquelas que, embora acometidas pelas trevas do orgulho, ainda geram luz para os seres humanos, porquanto arraigados na Rocha firme da verdade ontológica. Quando se nega esta, que é tão original quão final pois pascal, pululam os charlatões sharkeylianos que encantam com as sua vozes melodiosas. Aqueles que dizem querer expor o que nunca foi mencionado, mas, ao mesmo tempo, aduzem que as suas opiniões são demasiado intrincadas para serem explicadas.

Não me reporto sequer aos múltiplos confrontos de uma cada vez menos fria “nova guerra fria”, que, lastimosamente, também se têm sucedido nas diversas zonas de fricção tectónica culturais, em consequência parcial de recusas, nem sempre unipolares, de diálogo. Refiro-me, com imensa tristeza, a um cruento conflito bélico a céu e a terra abertas. A Terra e a Céu rasgados; fendidos pelas lágrimas de lamentação e pelos pedidos de auxílio que evocam, em conjunto e imediatamente, a grande obra de Gregório de Narek. Uma guerra que, não nos esqueçamos, é tal-qualmente fruto das ações de um dos maiores responsáveis pela anterior “guerra fria”: o sauroniano “Jardineiro da Felicidade Humana”.

Apesar de algumas vozes excecionais, repletas do reconhecimento de que a retórica da humildade não pode andar jamais longe da verdadeira hermenêutica do real, só ao alcance de quem está seguro das suas convicções, não se tem falado muito sobre tal conflito. Não sei se descortino a razão para esse quase total mutismo depressivo sem qualquer conteúdo que não seja fátuo. Mas preocupa-me imenso, quer esta mudez denethoriana, quer o mencionado conflito que torna aquele silêncio incompreensível e, quiçá, um dia inesquecível por todos aqueles que são vítimas do mesmo e das suas, mais ou menos distantes, consequências.

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E essas duas realidades preocupam-me, também mas não só, por estarem associadas a um dos centros de uma Europa que eu tanto estimo. Não o seu centro “geográfico”, nem sequer o “geopolítico”, mas um dos seus, bem mais importantes, centros matriciais. Aquele onde pela primeira vez o Cristianismo se tornou a religião de todo um povo, transformando-o no primogénito de toda a grande Civilização que moldou a humanidade. Inclusive aquela humanidade que, graças aos frutos de tal Civilização, a pode desprezar, difamar e devastar. Falo, já não é surpresa nenhuma, da Arménia e do trágico fado de Nagorno-Karabakh.

A Arménia: a terra bíblica igualmente uterina. É na Arménia, aquela sem as fronteiras que nos nossos dias tanto incomodam a muitos de nós, que se encontram os quatro rios dos teológicos e etiológicos relatos mito-onto-poiéticos da criação genesíaca. É também nela que se encontra, segundo uma antiquíssima tradição, o local do começo da “segunda vaga” da humanidade, após o primeiro dilúvio da desumanidade. Sem a Arménia, a Europa poderia ter membros e até um torso, mas não mais do que isso. Sei que isto é uma argumentação circunstancial. Todavia, há factos circunstanciais que não se podem ignorar. Basta pensar que temos dois olhos para ver no rosto e, mais importante do que isso, um cérebro para pensar que está localizado, por um lado, entre dois ouvidos para ouvirmos e, por outro lado, acima e atrás de uma boca para falarmos.

Apesar de sermos, como nação, devedores em tantos aspetos da bondade de diversos arménios, o que se está a passar hoje na mesma parece passar-nos ao lado. Nada que espante: somos, como povo, mais abarcadores do que agradecidos. Eis outro sinal da contumaz falência de uma mais fecunda impregnação do Cristianismo na nossa sociedade. Mas não será essa indiferença também mais um indicador da nossa apatia pelo genocídio de cristãos arménios que estava a decorrer, justamente, há pouco mais de cem anos? Triste sina, esta, de nos dizermos, na esteia da Ordem da Santa Cruz, “Terra de Santa Maria” e não cantarmos, mais alto do que os outros calam, acerca dessa realidade. Uma que, no conflito que me quis levar a escrever estas palavras, parece não ter senão uma sua trágica continuação.

Temos desconforto ou reservas possivelmente injustificadas em usar o termo “genocídio”? Usemos, então, a expressão “limpeza étnica deliberada e em massa”. Foi isso que aconteceu. Não nos enganemos. Não nos deixemos enganar. Dialoguemos sempre, mas não às custas da verdade, no que seria deixar que, a médio/longo prazo, a liberdade de expressão se resumisse a uma expressão sem liberdade. Deveras, pior do que ser económico no falar, é sê-lo, como Grima, com a verdade.

Sei que Nagorno-Karabakh não é nenhum Khazad-dûm com uma paradisíaca Lothlórien que forneça um acrescido incentivo a que lá se dê um “salto” humanitário que nos catapulte, com ou sem gestos histriónicos, para a fama. Aquela fama que tanto nos cativa, a ponto de querermos seduzir para a nossa vida tudo aquilo de que ela é “amiga”. “Tudo”, disse eu, englobando desse modo a morte e, sobretudo, a morte espiritual que está na raiz de todos aqueles graves e lamentáveis males que movem as preocupações multifacetadas que nos assolam hoje em dia: a poluição; o desemprego; o capitalismo desenfreado; o nepotismo; o tráfico de armas; a desvalorização das mulheres; o aborto; o racismo; o tráfico de pessoas; a xenofobia; a coletivização despersonalizante; a eutanásia; a injustiça social; a corrupção; etc.

Nagorno-Karabakh também não tem motivado digressões, muito justas e impressionantes quando dadas à luz noutros contextos, sobre a “psicologia da paz”; a “economia da guerra”; a “poética da dor”; “a nosologia da sobrevivência”; “a geografia da delapidação cultural”; “a ecologia dos ghettos europeus”; “a heterologia das vítimas”. Não. Nada disso. Parece que os incansáveis arautos de outras indignações perderam a capacidade de se expressarem, como se se tivessem padecido a mesma sorte dos três personagens desajeitados que passeavam por Trollshaws. Como disse o maître Cantona, nesse caso a respeito dos jornalistas, as gaivotas só se avizinham dos barcos que estimam estarem a preparar-se para lançar sardinhas para o mar.

Nagorno-Karabakh tampouco tem levado à produção de cartazes e slogans a dizerem, naquilo em que me reconheço plena e irrestritamente, que “estamos todos na mesma boia”; “a solidariedade desconhece todos os limites”; “sem todos eles eu não existo”, “o respeito é recíproco e para todos”; “eu sou todos os estrangeiros”. Também desconheço a realização de grandes eventos internacionais e inter-religiosos pensados para a resolução dessa enorme ferida no “coração” da Europa. Nem sequer para a angariação de fundos para minimizar o sofrimento daqueles que não conseguem deixar de ser constituintes dessa latejante ferida. Nada, efetivamente, de um Concílio de Elrond. Cristianismo e cristãos diante dos olhos; miopia galopante.

Há uns anos, numa iniciativa que me comoveu imenso, alguém, num jornal de referência nacional não obstante haja quem o estime um pouco na linha de Thranduil, elencou o nome das vítimas de um ato de defesa bélica que iam sendo conhecidas. Na altura não me inquietei minimamente que houvesse imprecisões na divulgação, provinda de canais de comunicação de um grupo reconhecidamente terrorista, desses nomes. Podiam ser mais, ou menos pessoas. Podiam ter esses, ou outros nomes. Eram pessoas. Como eu. Mereciam ser choradas e lembradas.

Ocorre que Nagorno-Karabakh parece estar do lado errado da compaixão. Parece, ainda, estar do lado errado dos complexos dinamismos de tentativas de diálogo apaziguante com a crescentemente islamizada e islamistada Turquia. Não sei se tais dinamismos, no presente, não serão como tentar apanhar uma gota de mercúrio com um palito. Mas sei que “Santas Sofias” há muitas, e inúmeras delas têm sido sistematicamente destruídas em território ancestral arménio ocupado pelos povos túrquicos. Eis algo que, quiçá pela Turquia ter encarreirado jihadistas do norte da Síria para o Azerbaijão, já foi apelidado, nomeadamente pelo Arcebispo Anastácio da Albânia e numa precisão que desconheço, de “jihad cultural”. E têm sido arrasadas, igualmente em consequência da doutrina da desvalorização de tudo que são evidências da cultura da jahiliyya. Os Eldar continuam, assim, a ser humilhados.

Não há muito que eu, com ou sem a minha dislexia, possa fazer para levar a que os que estão em conflito em Nagorno-Karabakh se abracem. Mas posso, pelo menos e também através destas palavras, tentar fazer com que muitas pessoas os queiram abraçar. Assim abraçados, especialmente com a força da economia do coração que é o perdão, talvez as armas cessem de gritar. Daí poderá ser um simples passo até à celebração daquela grande fraternidade criatural, a dever tender para a fraternidade eucatastrófica da filiação divina, que, no que já foi apodado de sua maior lucidez, tem estado no âmago da ação pastoral do tão estimado Papa Francisco. É por isto que, num agrafo proléptico com este Papa, G.K. Chesterton diz que a única guerra que se pode defender por meios não bélicos, é uma guerra defensiva. Aquela em que, sabendo-se bem que o mais rápido caminho para o fim de qualquer pugna é perdê-la, nos sacrificamos em prol de uma paz que não se quer fria. Continuo com aquele autor inglês: a Cruz, que leva à generosidade do amor que se dá até ao fim de si, é o “x” da equação da verdadeira humanidade. Eis o Cristianismo: uma religião que está certa onde nós, humanidade ferida, estamos errados.