Filosofia Política

Livros para férias (IV): A Tradição Ocidental

Autor

Ao contrário dos errantes revolucionários franceses de 1789, os “English gentlemen” da América não queriam destruir o passado e começar de novo. Eles queriam sim restaurar a tradição da Magna Carta.

Agora que o sr. Trump (candidato não-republicano do nobre Partido Republicano nos EUA), o sr. Sanders (ex-candidato socialista à nomeação pelo nobre Partido Democrático nos EUA) e o sr. Corbyn (actual líder esquerdista do nobre Partido Trabalhista britânico) concorrem entre si para tentar minar a coesão da NATO, convém talvez recordar algumas verdades outrora elementares acerca da civilização euro-atlântica e ocidental — cuja defesa é a razão de ser da NATO.

Um bom ponto de partida pode muito bem ser Athens, Rome and England: America’s Constitutional Heritage, de Mathew A. Pauley (Griffon House, 2014). Trata-se de um bom livro introdutório, que cumpre bem o seu propósito de recordar verdades outrora elementares, hoje frequentemente esquecidas.

A primeira dessas verdades outrora elementares consiste em recordar que a América é parte da civilização europeia e ocidental. Os isolacionistas de Trump (à direita), ou de Sanders e Corbyn (à esquerda), podem muito bem dizer os disparates que têm dito. Nada disso altera a empírica evidência histórica de que a tradição constitucional norte-americana (bem como a britânica) emergiram — e fazem parte — da tradição europeia e ocidental.

Mathew Pauley, o autor do livro em apreço, recorda enfaticamente a característica distintiva desta tradição ocidental euro-americana. Diz ele que os atenienses do século V a.C. já sabiam muito bem qual era essa distinção: eles eram livres.

Isso não queria dizer — como pretendem os anarquistas, hoje por vezes auto-designados libertários —que os atenienses faziam o que muito bem lhes apetecia. Queria dizer que eram governados por leis — ao contrário dos bárbaros, sobretudo os Persas, que não obedeciam a leis gerais mas apenas aos caprichos dos poderosos. Daí emergiu — gradualmente e com decisivo contributo ulterior do Cristianismo — a ideia ocidental de governo limitado pela lei, que presta contas ao Parlamento.

Talvez o sr. Sanders (que passou a lua-de-mel na União Soviética, em 1988), ou o sr. Trump (cujo ex-chefe de campanha trabalhou para Yanukovych, o líder ucraniano pró-russo), ou o sr. Corbyn (que recentemente elogiou Trotsky e atacou a NATO) possam achar tudo isto um pouco bizarro. Mas convém agora acrescentar que estas “bizarrias” eram consideradas fundamentais pelos próprios pais fundadores da República americana.

Este é o tema de outro grande livro para férias: The Founders at Home: The Building of America, 1735-1817, de Myron Magnet (New York/London: Norton, 2014). Trata-se de um estudo sobre a vida e filosofia política dos pais fundadores dos EUA, acompanhada do estudo (magnificamente ilustrado) sobre as casas que construíram para si próprios.

A tese de Myron Magnet é refrescantemente ocidentalista e euro-atlântica. Os “founding fathers” dos EUA eram basicamente “English gentlemen”, orgulhosamente estudiosos da tradição política e cultural inglesa e europeia. Isso mesmo está vincadamente reflectido nas suas casas, propositadamente inspiradas nas tradições grega, romana e inglesa.

Esta foi aliás a razão de fundo, explica Myron Magnet, pela qual a Revolução Americana de 1776 — parecendo na época muito radical — foi afinal profundamente moderada, alguns hoje diriam conservadora.

Ao contrário dos errantes revolucionários franceses de 1789, os “English gentlemen” da América não queriam destruir o passado e começar de novo. Eles na verdade queriam restaurar a cristã tradição constitucional da Magna Carta de 1215 — que o rei George III estava a infringir através do “despotismo inovador”. Esta foi exactamente a expressão usada por Edmund Burke — esse grande liberal-conservador irlandês que defendeu no Parlamento britânico os colonos britânicos na América (bem como, deve também ser recordado, os direitos dos católicos irlandeses).

Tudo isto era bem conhecido, no livre Ocidente, até há umas décadas atrás. Foi em parte para restaurar esta nobre tradição ocidental que ocorreu em Portugal o 25 de Abril de 1974 e, sobretudo, o 25 de Novembro de 1975. Foi por isso que ocorreram em seguida transições democráticas na Grécia e em Espanha, e até na América Latina e em alguns países da Ásia. Foi seguramente para “voltar ao Ocidente” que a corajosa Polónia liderou as transições à democracia na Europa central e oriental, então sob a cortina de ferro comunista, na década de 1980.

Sim, este era e é o credo do Ocidente — e é nosso dever recordá-lo.

PS. Margarida Sousa Uva Barroso morreu prematuramente com 60 anos, na passada quinta-feira. Era uma bela e doce senhora, dedicada ao livre Ocidente. Lutou pela liberdade, antes e depois do 25 de Abril, apesar do episódio esquerdista que marcou a nossa geração. Apoiou o seu marido, o ocidentalista social-democrata José Manuel Durão Barroso, contra ventos e marés. E manteve sempre a frontalidade cativante de uma verdadeira Ocidental. À semelhança da também católica, mas diferentemente socialista, Maria de Jesus Barroso Soares — sobre quem escreveu um tocante depoimento — Margarida dizia sempre o que tinha a dizer: com firmeza, mas também com doçura e atenção às respostas dos outros. O seu exemplo e a sua memória perdurarão com profunda saudade entre nós.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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