Churchill na/in Madeira, de Miguel Albuquerque, (Alêtheia, 2018) é a minha primeira e muito enfática recomendação de livros de autores nacionais para o Natal. Tal como na semana passada (que foi dedicada a autores estrangeiros), gostaria que fosse notado que estas são sugestões de leituras para o Natal — mas não para a ‘época festiva’ ou para as ‘férias da estação’, como mandam as actuais directivas politicamente correctas.

O livro de Miguel Albuquerque, por coincidência Presidente do Governo Regional da Madeira, é um verdadeiro “achado” em qualquer parte do mundo (e ainda bem que a edição é bilingue, em Portugês e Inglês). Trata-se de uma evocação da visita de Winston Churchill à Madeira, em Janeiro de 1950. Reúne uma belíssima colecção de fotografias da época, juntamente com um eloquente texto de rara elevação literária. E exprime abertamente uma tocante defesa da ancestral aliança luso-britânica, que remonta ao Tratado de Windsor de 1386.

Elogiar a aliança luso-britânica e recordar o Tratado de Windsor é hoje quase tão politicamente incorrecto como defender o Natal. Este é, sem qualquer dúvida, o meu primeiro livro para o Natal.

Imediatamente a seguir, proponho dois livros de Maria Filomena Mónica: Nunca Dancei num Coreto (Relógio d’Água, 2018) e Vida Moderna (Quetzal, 2018). O primeiro reúne crónicas publicadas no semanário Expresso desde 2011; o segundo é uma re-edição do original de 1997, reunindo crónicas publicadas entre 1985 e 1996 no Diário de Notícias, Público, Máxima e Independente.

Mena Mónica é entre nós também um raro e tocante exemplo da amizade luso-britânica. Fez parte do núcleo inicial do Instituto de Ciência Sociais, fundado pelo inesquecível Adérito Sedas Nunes. E terá sido uma das primeiras mulheres portuguesas doutoradas em Oxford. Mas, em vez de ostentar este título ociosamente, Mena Mónica sempre escreveu, sobriamente e sinceramente, sobre o muito que aprendeu em Inglaterra.

Os dois livros de crónicas agora publicados dão conta disso mesmo. Podemos concordar ou discordar das opiniões específicas da autora (eu discordo de várias) — que aliás as exprime sempre num tom assertivo e algo desafiador, também com raro sentido de humor. Mas não podemos deixar de ser tocados pela sua frontalidade, pela sua genuína admiração pela civilização liberal de língua inglesa e… pela sua oposição ao autoritarismo politicamente correcto: “Apesar de ser uma sociedade aristocrática, ou talvez por causa disso, a Inglaterra é um país onde se respira a saudável brisa da liberdade”, escrevia ela em 1985. Julgo que o mesmo pode ser dito hoje, sobretudo perante a deliciosamente pacífica, civilizada e vagamente compreensível confusão sobre o Brexit.

Raymond Aron foi outro grande admirador da tradição inglesa da liberdade ordeira sob a lei, infelizmente muito pouco conhecido e ainda menos estudado entre nós. Carlos Gaspar acaba de publicar uma excelente apresentação do pensamento de Aron, sobretudo no domínio das Relações Internacionais. Raymond Aron e a Guerra Fria (Alêtheia, 2018) é uma merecida homenagem a “um intelectual clássico, um humanista europeu na tradição de Montesquieu, Burke e Weber, o que o torna um pária na era das tiranias”, escreve Carlos Gaspar. E prossegue: “Empenhou-se sempre na defesa da liberdade contra a tirania, da democracia pluralista contra as revoluções totalitárias e dos Estados nacionais contra a dominação imperial”.

Last but certainly not least, um muito tocante livro de homenagem a Padre João Seabra: Não sou dono da verdade, mas sou possuído por ela (Principia/Lucerna, 2018). Coordenado por António Maria Pinheiro Torres e José Maria Seabra Duque, a obra reúne cerca de 70 depoimentos sobre a figura e a obra de Padre João Seabra, incluindo um depoimento de Marcelo Rebelo de Sousa e um Prefácio de D. Manuel Clemente. O Presidente da República esteve aliás presente na sessão de lançamento do livro e um vídeo do seu testemunho nessa ocasião pode ser visto no site da Presidência da República. (Também um dia teremos de reconhecer o raro contributo que o nosso Presidente vem prestando à causa da civilidade pluralista entre nós — o que, aliás, é patente naquele testemunho).

Em 2017, no Estoril Political Forum, o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica atribuiu a Padre João Seabra o prémio anual “Fé e Liberdade”. Na cerimónia de entrega do prémio, disse Guilherme de Almeida e Brito, vice-director da Católica Lisbon School of Business and Economics:

“O Padre João é um homem de fé: concebe-se a si próprio como profundamente dependente de Deus e fiel à Igreja. Essa perspectiva de si próprio e do significado da vida torna-o um homem muito livre. Muito dependente de Deus, o que significa muito livre em relação a tudo o resto, de forma muito natural, quase sem esforço. Na dependência de Deus, a liberdade em relação ao resto parece ser no Padre João tão simples como respirar.”

Votos de Feliz Natal e de boas leituras.