Educação

Mais vale acabar

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Damos atenção aos direitos de todos menos aos daqueles que são mais preciosos, os nossos filhos. Gastamos dinheiro em tudo, menos no que é impossível substituir, o tempo das nossas crianças aprenderem

A convite da IMiF- International Minds in Finland, uma associação que junta interesses portugueses e finlandeses, participei há uns meses num jantar comemorativo dos 100 anos da independência da Finlândia. Não é do conhecimento comum, mas apesar de serem um povo algo diferente dos seus vizinhos, o facto de estarem entalados entre a Rússia e a Suécia fez com que passassem a vida a levar dos dois lados, pelo que são, como estado independente, uma realidade relativamente recente. Em virtude da efeméride, além da presença de dezenas de pessoas muito interessantes, estava também a embaixadora da Finlândia, muito simpática, mas cujas palavras provocavam uma profunda dor à medida que ia falando. Podem as palavras doer quando vindas de uma pessoa superlativamente simpática? Se podem! Eu explico.

A sra. embaixadora dizia que, ao contrário de Portugal que era um país com 900 anos de independência, a Finlândia nunca foi muito feliz no que a autodeterminação dizia respeito. Apenas com o desmantelamento dos grandes impérios europeus resultante do fim da Primeira Grande Guerra, a Finlândia ganhou a sua independência e, depois de vários tumultos que surgem sempre que uma alteração deste calibre acontece, lá se tornaram um país independente. Até aqui, o português que sou estava perfeitamente confortável e até interessado de um modo meio paternalista. Que engraçada, a história de um país novo. Mal sabia eu do que vinha a seguir.

Quando ela começou a falar do caminho é que me levou ao KO, sem conseguir sequer desviar-me. Disse que depois de todos esses tumultos e depois de anos e anos de ocupação estrangeira, um país quase permanentemente gelado tinha muito poucas riquezas naturais tirando aquilo que ninguém podia tirar: as próprias pessoas. Mas com metade da população portuguesa e mais do triplo da área, até as pessoas eram escassas. Por isso, desde os primeiros anos do (ainda) jovem estado finlandês, a prioridade no país tem sido a valorização de cada um dos seus habitantes. E é aqui que o paternalista luso começa a ficar incomodado. Como cada um dos seus habitantes? A história da famosa caixa bebé finlandesa baseava-se nesse princípio. Aquele que começou por ser um dos mais pobres países da Europa, resolveu nos anos 30 atribuir a cada bebé um caixote com o que se considerava fundamental do ponto de vista médico para ter condições mínimas. Tudo era aproveitável, incluindo o caixote que servia de berço e ainda hoje os finlandeses não têm berços, os bebés dormem no caixote. É que numa população tão pequena, nos anos 30 morriam 65 em cada 1000 bebés e os finlandeses achavam que não podiam dar-se ao luxo de desperdiçar nenhum.

Com a educação, o princípio foi o mesmo. Num país que era basicamente uma floresta gelada povoada de renas dificilmente seria a terra a fazer da Finlândia um pais rico. Por isso, estabeleceram rapidamente o princípio de que ninguém fica para trás. Curiosamente, naquele país os direitos são dos estudantes, não dos professores. O direito à educação não é o direito a ter um professor, mas o direito a ser ensinado. Isto significa que se há facilidade de aprender, então o tempo com o professor pode ser menor. Mas se tem dificuldade em aprender então o tempo com o professor tem que ser prolongado, e se houver necessidade de apoio adicional então o estado providencia esse apoio adicional.  Deu o exemplo de algumas ilhas isoladas, onde é muito difícil as (poucas) crianças irem à escola devido às condições atmosféricas e dureza da viagem, onde são dedicados professores para apoiar a única criança da ilha em idade escolar e que, por vezes, devido ao facto de os pais não terem condições para alojar o professor, este acaba por fazer a viagem uma vez por semana para acompanhar a criança até que tenha idade para ir para uma escola longe de casa. E, nessa altura, o estado paga a deslocação e alojamento da criança.

Lembro-me que na altura já estava tão deprimido que só me apetecia mandar calar a mulher. Mas o facto é que ela não se calava. E lá continuou dizendo que apesar de serem elogiados no mundo inteiro, o sentimento geral no país é ainda de que há muito por fazer.  Acham que já fizeram muito pelo ensino, mas falta ainda fazer muito pela aprendizagem. Sim, conseguiram meter os professores a ensinar, mas será que não há muito mais a fazer para os alunos aprenderem? E essa passou agora a prioridade do estado finlandês relativamente à educação.

Confesso que já brincava com o guardanapo que estava na mesa. Há coisas que a vergonha nos faz bloquear a perceção e eu já só me apetecia meter num buraco. Não porque o sucesso dos finlandeses nos possa envergonhar. Nós devemos ver o sucesso alheio sempre como um incentivo. Mas porque os finlandeses gostam tanto de si próprios, dão tanto valor a cada um deles, que isso me fez pensar porque é que nós não podíamos ser assim. A vergonha não está no resultado, está naquilo que gera o resultado.

O prof. Nuno Crato referia num artigo recente que os números dos estudos internacionais davam Portugal como um país desenvolvido com os indicadores da educação de um país subdesenvolvido. E como foi pessoa com responsabilidades nisso, imagino que não o estivesse a dizer só por dizer. A verdade é que ouvimos as histórias da Finlândia, país muito mais pobre que nós nos anos 30, muito menos populoso que nós ainda hoje, com muito menos recursos naturais que nós, porque no meio do gelo cresce muito pouca coisa, e parece que estamos no mesmo estágio em que eles estavam antes de serem independentes. Damos importância aos direitos de toda a gente menos daqueles que são mais preciosos, os nossos filhos. Gastamos dinheiro em tudo, menos naquilo que é impossível de substituir, o tempo das nossas crianças aprenderem. Rios, mares de dinheiro de despesa pública, em que se discute IVA de touradas e de contadores de eletricidade e não há uma alminha naquele parlamento que pergunte “É este ano que vamos preocupar-nos com o que o pequeno João está a aprender?”. Políticos vaidosos com o resultado de semanas de negociação e orçamentação de privilégios vários para todos e mais alguns. Nem 10 minutos foram gastos com a pequena Maria de Martim Longo cujos 9 anos de idade não se irão repetir nunca mais e que nunca mais se vai poder ensinar à pequena Maria de 9 anos aquilo que uma criança de 9 anos devia aprender. E não há nenhuma fábrica de Marias onde poderemos encomendar outra igual.

Lembrei-me disto no dia em que a notícia é que o governo ordenou que se congelasse metade das bolsas de mérito aos alunos mais pobres para que só fosse paga em 2019, num daqueles episódios de “milagre económico” a que vamos estando habituados. Curiosamente, parece que não vinha acompanhada de uma ordem que congelasse metade dos ordenados e reformas de políticos ricos, pelo que se deduz que a questão não é de urgência financeira. É simplesmente uma questão de desprezo pela educação dos nossos mais jovens compatriotas.  Não se deve premiar o empenho escolar dos pobres ou, pelo menos, isso não tem o valor do trabalho de um deputado que não vive no sítio que declarou e não trabalhou no dia que recebeu. Porque se há dinheiro para estes e não para aqueles, isso representa aquilo que nós portugueses pensamos de nós próprios. Do valor que atribuímos a cada um de nós enquanto portugueses. Se os finlandeses aproveitaram a sua independência para apostarem em cada um deles e fazer de todos os finlandeses uma nação rica, só podemos concluir que para nós a independência é simplesmente uma circunstância má.

Se não somos merecedores da nossa independência, a República Portuguesa devia acabar de vez. Se situações como esta das bolsas de mérito dos alunos pobres não nos faz mandar um murro na mesa, se calhar devíamos começar a falar abertamente e sem preconceitos sobre como vamos acabar com isto. Alguém me dizia há uns tempos que Portugal não existia, que era uma invenção dos ingleses para manter os espanhóis chateados. Claro que quem, como eu, foi educado no louvor ao povo navegador etc. isto é chocante, mas a verdade é que o povo navegador não admitia coisas destas.

(As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor)
PhD em Física, Co-Fundador da Closer, Vice-Presidente da Data Science Portuguese Association

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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