1. A família Assad pertence ao Islão tolerante da orientação alauita.

As mulheres sírias têm os mesmos direitos que os homens, e não são obrigadas a usar burca. A Sharia é inconstitucional. A Constituição é laica e não tolera os movimentos extremistas islâmicos. Cerca de 10% da população pertence a alguma das muitas confissões cristãs presentes desde sempre na vida política e social (houve cinco Papas de origem síria). A tolerância religiosa é única na zona. Com um património histórico admirável preservado. Bonito, cuidado e florescente, é o único país árabe sem dívida ao FMI, sendo o único que admitiu refugiados iraquianos sem nenhuma discriminação social, política ou religiosa.

A Síria é, sem dúvida, a vítima mais revoltante da invenção que foram as primaveras “árabes”, na verdade as novas cruzadas do Ocidente. Dos EUA, mas também da nossa Europa. Quem duvidava do que iria acontecer? 

2. Assad disse o óbvio numa entrevista à RAI: o Estado Islâmico “não começou na Síria, começou no Iraque, e antes disso no Afeganistão”. E citou o insuspeito Tony Blair: “A guerra do Iraque ajudou a criar o Estado Islâmico”. (Note-se que os dois primeiros ministros do EI, um para o território devastado do Iraque, outro para a parte saqueada da Síria, eram generais do exército de Saddam. E que foi feito desse poderoso exército?). E eu acrescento: o EI começou antes disso, no Irão, mesmo antes ainda.

São as novas cruzadas, conduzidas, como as antigas, por interesses materiais, mas também alimentadas por uma mesma vontade fanática de conversão do “outro”, do infiel. Antes era a conversão a uma fé mentirosamente – registe-se – cristã. Hoje é a conversão a um modelo político – laico, mas, igualmente sacralizado – que a todos levaria para “o lugar certo da História”. Imediatamente e à força, no momento decidido pelos novos iluminados evangelizadores. 

Cruzadas que a mais do que previsível destruição e pulverização de Estados em consolidação, extermínio das populações, que dizem querer salvar, vagas de exilados, famílias destruídas a fugir pelo mundo, produção e exportação de terror, crises sociais noutros países, não contiveram.

Se no Egipto não houvesse já massa crítica que permitiu às Forças Armadas resistirem, teríamos agora muito provavelmente uma frente de combate no sul de Espanha.

No Ocidente, por factores diversos, a História seguiu outro caminho, as instituições que com muito sofrimento foram criadas fizeram a diferença. É que nós, afinal, somos como eles. No espírito, na natureza, na matriz civilizacional comum. 

Espírito que a especificidade da construção e formação dos Estados Unidos como nação (a tantos, diferentes, títulos admirável) mantém particularmente activo nas relações externas, alimentado, seguramente, em dialéctica implicante, pelos interesses materiais e de domínio estratégico que se conhecem.

Espírito que na Europa demorou séculos a ser domado, com os custos, o sofrimento, próprio e do “outro”, que se sabe, melhor domado numas nações do que noutras.

Domado (com as dificuldades que se vêem) nas suas manifestações, digamos, criminalizáveis, esse espírito continua a manifestar-se em variadas manifestações da vida colectiva, política, social, académica, de relacionamento interpessoal, entre nós num grau que continua a pôr em causa o progresso do País.

Espírito que bebe na matriz, que é a mesma, das culturas e mentalidade, na antropologia cultural, dos povos da Eurásia. A nossa matriz civilizacional é a mesma matriz do Médio Oriente. A jihad de agora, mesmo nas manifestações mais horrorosas, é irmã gémea das cruzadas de outrora. Xiitas e sunitas dizimam-se hoje uns aos outros, como outrora, nas guerras religiosas, os Europeus se dizimaram entre si, durante séculos. Usurpando a representação e traindo durante séculos a radicalmente diferente, regeneradora, mensagem cristã.

É esta a explicação para o complexo, o trauma nunca assumido e sempre disfarçado (entre nós até ao ridículo na escrita de alguns dos nossos beatos pregadores) com o seu contrário, histórica e filosoficamente insustentável.

Complexo que está a condicionar as decisões imperativas, cujo adiamento fragiliza e torna vulnerável a Europa e o mundo

Mas não é apenas, não será sobretudo por essa factor “missionário” (imbricado e alimento dos outros) que não se faz o que é imperativo fazer-se: invadir o território do Estado Islâmico nazista, acabar com ele, levar os criminosos ao seu tribunal de Nuremberga. Grande Churcill! 

3. Para quem conhece a História e a História do pensamento – que, no nosso País, quarenta anos de má educação varreram da escola – e queira ser lúcido e livre, é insuportável a ideia de uma superioridade natural, de um visão imaculada do Ocidente, atribuindo-lhe, atribuindo-nos – erro grosseiro e para os crentes sacrílego – a fonte imemorial dos “grandes valores universais”. Um Ocidente que, assim, teria saído acabado, único, perfeito, de um gesto discriminatório de Deus… Um Ocidente sobre-humano, portanto, que só existe, afinal, nessas, cabeças ignorantes ou doentes. Esses cretinamente ditos “Os nossos valores” surgiram antes, como é natural, e até foram pregados e generalizados noutras civilizações e latitudes. E seres humanos bons e santos houve sempre. Talvez se possa dizer para a bondade o que Descartes disse para a inteligência ou a estupidez, são os bens melhor distribuídos pelo mundo. Quanto à tolice beata, que é sempre, afinal, conveniência, nós, Portugueses, continuamos a parecer especialmente bem servidos.