Igreja Católica

Não chega rezar /premium

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O Papa Francisco já nos informou que está a rezar com muito fervor para conseguir enfrentar com coragem o desafio do abuso sexual de crianças pelo clero. Espero sinceramente que não se fique por aqui.

Depois das notícias da semana passada sobre o Relatório da Pensilvânia, descrevendo dezenas de anos de abusos sexuais de crianças às mãos de padres, com pormenores demasiado escabrosos para os descrever aqui, é-me impossível falar noutro assunto. Não sendo católico, corro o risco de ser acusado de meter foice em seara alheia. Mas, havendo tantas crianças e adolescentes envolvidos, não é razoável que este assunto não seja discutido por toda a sociedade.

Não tenho dados que me permitam estimar estatisticamente qual a probabilidade de um padre ser um abusador de crianças, mas, neste momento, são tantos os casos que é irrazoável achá-los isolados. Depois de todos os escândalos (Boston, Irlanda, Pensilvânia, Austrália, Chile, etc.) e havendo provas de que a hierarquia ao mais alto nível sabia do assunto e procurou mantê-lo secreto, salta à vista que a Igreja Católica tem um problema com o seu clero.

Claro que é possível pegar nas palavras de Jesus, “Deixai vir a mim as crianças”, descontextualizá-las e fazer piadinhas de mau gosto. Mas, honestamente, não é possível acusar a fé católica de, de alguma forma, caucionar o abuso sexual de crianças. Nem a fé, nem a doutrina, pelo que o problema há-de ser outro. Não sendo especialista no assunto, diz-me o bom senso que há três motivos óbvios.

O primeiro está relacionado com o voto de celibato dos padres. É um voto duro e que exige muito de quem o faz. A Bíblia diz-nos que Jesus Cristo esteve no deserto 40 dias a resistir às tentações que o diabo no seu cérebro lhe ia pondo à frente e é verdade que qualquer padre almeja atingir a santidade de Cristo. Mas nem todos o conseguirão. Este voto cria dois tipos de problemas. Em primeiro lugar, a tentação é grande e a carne é fraca. É arriscado entregar crianças à guarda de pessoas que têm tamanha provação para superar. Em segundo, e este aspecto parece potencialmente ainda mais problemático, é que ao se impor aos padres uma vida sexual não tradicional, vai-se atrair pessoas que têm preferências sexuais mal vistas pela sociedade. Quer isto dizer que quem, por qualquer motivo, tem uma vida sexual que quer esconder da sociedade vai encontrar no seio da Igreja Católica o refúgio perfeito. Afinal de contas, nenhum padre tem de dar explicações por não ter um relacionamento com uma mulher adulta (ou com um homem adulto).

O voto de celibato atrai então dois tipos de pessoas para o clero. Por um lado, homens e mulheres extraordinários, cuja devoção a Cristo lhes permite superar as tentações mais carnais. Mas, por outro, corre-se o risco de atrair vários tipos de pessoas com problemas com a sua vida sexual (que podem, aliás, ser o resultado de elas mesmo terem sido abusadas em criança). Mesmo que em minoria no clero, este tipo de pessoas tem o potencial de desgraçar muitas vidas.

O segundo motivo tem a ver com um dado que está estatisticamente comprovado. A maior parte dos abusos de crianças são feitos por adultos que lhes estão próximos. Havendo muitas instituições que, não só acolhem crianças, mas que também desenvolvem diversas actividades com e para elas, que são orientadas por membros do clero, não surpreende que haja alguns escândalos a envolvê-los. Juntando o primeiro motivo ao segundo, percebe-se que ao se entregar tantas vezes o cuidado de crianças a membros do clero se pode estar a entregar as galinhas à guarda das raposas.

Finalmente, é muito provável que a forma como a Igreja lidou com este assunto, desvalorizando e encobrindo — por exemplo, transferindo, sem mais consequências, padres abusadores de umas paróquias para outras —, tenha potenciado um sentimento de impunidade que favoreceu o abuso.

O Papa Francisco já nos informou que está a rezar com muito fervor para conseguir enfrentar com coragem este desafio. Eu, como descrente, espero sinceramente que não se fique por aqui. Há pelo menos 20 anos que os Papas andam a rezar para resolver este problema e, claramente, não o conseguiram. Em vez de rezas, teria preferido que o Papa Francisco anunciasse medidas concretas e terrenas. Gostaria também que nos dissesse em que pé estão os tribunais, cuja criação anunciou em 2015, para julgar os bispos que encobriram padres acusados de abuso sexual de menores.

Da parte que me toca, este é o meu contributo para a discussão: deixem de exigir aos padres que vão contra a natureza humana.

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