Em memória de Fernando Gil

Sou provavelmente a última pessoa a ter vocação para protestar contra a introdução em português de galicismos ou anglicismos em nome da pureza da língua. Falta-me, por assim dizer, o gosto. Em primeiro lugar, porque protestar é geralmente inútil, e, como muitas coisas inúteis, tende para o ridículo. Em segundo, porque a apropriação de vocábulos estrangeiros é um dos meios através dos quais a língua evolui. Em terceiro, porque eu próprio me sirvo deles quando tal me parece necessário. Por exemplo, uso a palavra “pervasivo” (do inglês pervasive) porque o mais pacato “invasivo” não transmite, parece-me, a ideia de uma infiltração generalizada que ocorre simultaneamente em todos os lugares. É um caso entre muitos. Há, é verdade, vá lá Deus saber porquê, galicismos que me irritam, como, por exemplo, “massivo”, mas não atribuo a essa irritação grande importância. E há, sobretudo, liberdades que têm outra dimensão, porque vão contra o que se poderia chamar a lógica da língua e, em consequência, introduzem nela confusões desnecessárias.

Por estes dias, por causa da Covid, toda a gente que aparece na televisão ou escreve nos jornais anda constantemente com a “evidência científica” na boca. Ora, acontece que tal coisa não existe. Ou melhor: não existe em português. Existe, sem dúvida, em inglês, onde, a partir do fim século XVII – é visível, creio que pela primeira vez, no Ensaio sobre o entendimento humano de Locke –, se cria a expressão self-evidence para designar aquilo que é patente, que salta aos olhos, deixando progressivamente evidence (que aparece no século XIV) com o sentido de indício que aponta para uma prova, de indício probatório. Em português, no entanto, as coisas passam-se diferentemente: “evidência” mantém o sentido da evidentia latina, tradução oferecida por Cícero da enargeia grega, significando algo que se confunde com um sentimento em que o subjectivo aspira a transcender-se em objectivo: o sentimento de algo tão perspícuo que, por definição, dispensa a prova. E, exactamente por “evidência” manter em português tal significado, a expressão, cada vez mais corrente, “auto-evidente” é o paradigma da redundância: “evidente” é já, pela sua própria natureza, “auto“.

Por isso, quando, por exemplo, as pessoas do Ministério da Saúde, falam de “evidência científica”, presumindo que pretendem falar em português e que se encontram habilitadas para o exercício, estão a falar de uma coisa que não existe. A ciência não lida, senão indirectamente, na reflexão que sobre ela se faz, com a evidência: lida com provas e indícios probatórios. Não há “presente evidência científica”: há indícios probatórios – num sentido mais forte, provas – que, a uma dada altura, legitimam uma maior ou menor confiança em certas hipóteses, numa escala de graus de assentimento complexa e extensa. Nada disso tem algo a ver com a evidência, embora o cientista possa perfeitamente experimentar um sentimento de evidência por relação à sua própria teoria, o que é sem dúvida interessante e importante – mas é outra questão.

Esta conversa da “evidência científica” anda muito ligada a um outro fenómeno contemporâneo, o da crença maciça na existência de um bloco inamovível chamado “ciência”, em torno do qual se mobilizam, agonisticamente, defensores e adversários. No seu aspecto mais cómico, tal atitude manifesta-se no título de um artigo publicado no mês passado no Público por Gabriel Leite Mota, que se apresenta como “doutorado em economia da felicidade”: “Acreditem na ciência, porra!”. Não duvido, é claro, que o autor tenha conseguido realizar o célebre “corte epistemológico” que nos permitiria transitar de uma concepção ideológica para uma concepção verdadeiramente científica da felicidade, apoiada nas suas determinantes económicas (a menos que se trate de uma concepção científica da economia apoiada nas suas determinantes felicitárias, se a inovação terminológica me é permitida). Não duvido, como disse, embora a tal “economia da felicidade”, que preside talvez à decisão do Governo, contestada por Francisco Assis, de lançar uma Lotaria Instantânea (vulgo “raspadinhas”) do Património Cultural, não apareça espontaneamente ao comum dos mortais como a base mais segura para a defesa da atitude científica. O problema é que a injunção “Acreditem na ciência!” (o “porra!” pode ser posto na conta de um subtil efeito estilístico, preferível ao mais ameaçador “senão…”) ilustra algo próximo daquilo que os filósofos chamam uma auto-contradição performativa: só é possível ser proferida a partir de um ponto de vista que em si desmente aquilo que se propõe defender. A ciência não é matéria de obrigações impostas.

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A verdade é que esta atitude anda muito próxima da da nossa querida Greta Thunberg (por onde anda ela?) e dos muitos milhões que, inspirados pelo seu exemplo, por esse mundo fora desfilavam aos gritos de “Estamos do lado da ciência” contra o “aquecimento global”. Não pretendo de modo algum que não haja indícios probatórios a favor de causas antropogénicas do “aquecimento global”. O que quero dizer é que, como é frequente nas controvérsias científicas mais impuras (a “impureza” é sempre uma questão de grau), a presença de elementos políticos e ideológicos na controvérsia tende a inflectir esta na direcção de uma postura agonística em que as partes deixam de se ouvir uma à outra. Tecnicamente, passa-se da controvérsia ao diferendo, tal como Jean-François Lyotard o concebia. Não é um desenvolvimento natural nas controvérsias da ciência, que tendem a terminar com um acordo (que não se reduz a um mero “consenso científico”, ao contrário do que a moda presente interesseiramente nos quer fazer crer), embora em política ocorra com mais frequência. E, voltamos aqui ao princípio, os indícios probatórios, em virtude da passionalidade do conflito, aparecem magicamente transformados em evidências, no sentido português da palavra. Quer dizer: algo que salta aos olhos – que fura os olhos, como dizem os franceses – e que só um cego não vê. Neste sentido, derivado e corrompido, há, de facto, “evidências científicas”: falsas evidências falsamente científicas.

Somando tudo, talvez esta pandemia pudesse, se as pessoas ao menos parassem para pensar, trazer-nos alguns ensinamentos. Sobre, por um lado, a eficácia da ciência, que, através do trabalho desenvolvido nas farmacêuticas, descobriu, num tempo verdadeiramente muito curto, vacinas contra o vírus. E sobre, por outro lado, os seus limites, patentes nos problemas com os modelos matemáticos usados nas estratégias de combate à pandemia. Se se parasse para pensar, talvez a confiança (como coisa distinta da crença) na ciência se desenvolvesse, e talvez também a sanguínea certeza na fiabilidade dos modelos matemáticos que sustentam as previsões do “aquecimento global” (muito mais problemáticos do que os outros) se atenuasse um pouco, dando lugar a uma conversa mais racional. Mas é sem dúvida esperar demais. Como é que meio mundo conseguiria viver sem o prazer sublime de se dirigir aos restantes três quartos com uma frase que invariavelmente começa com: “A ciência diz…”?