Iniciou-se no domingo passado, em Glasgow, a Conferência da ONU sobre as Alterações Climáticas. Aí se reúnem os poderosos deste mundo para debaterem as estratégias a seguir com vista a contrariar o chamado “aquecimento global”. As discussões são acompanhadas, como é costume, por protestos, entre o puro e duro e o horrendo estilo “engraçado”, de vários grupos radicais que denunciam a retórica vazia dos líderes mundiais e a sua manifesta falta de vontade de encarar o problema na sua real dimensão apocalíptica. O que se seguirá às palavras dos líderes, afirmam, será nada, perfeitamente nada, pela milésima vez nada. Blá-blá-blá, só blá-blá-blá. “Estão-nos a roubar a nossa infância” dizem, inspirados por Greta Thunberg, alguns barbudos e outros adolescentes dos 7 aos 77 anos. “Podem enfiar a vossa crise climática pelo rabo acima”, disse a maluquinha em pessoa. Eis um espírito livre.

O problema não está, obviamente, na questão ecológica em si. O problema não está sequer na intrínseca falibilidade dos modelos utilizados para prever o futuro em matérias climáticas, assunto sobre o qual dispomos hoje em dia de uma vasta literatura razoavelmente esclarecedora. Tal falibilidade não deve justificar de forma alguma a indiferença perante os problemas ecológicos e funcionar como obstáculo a uma acção decidida, que tenha em conta os outros aspectos do bem-viver dos humanos e que contribua, na medida do possível, para a melhoria da saúde do planeta. O problema começa com a paixão pelos chamados worst-case scenarios, aquilo que um filósofo no seu tempo denominou “princípio do pior”, supostamente legitimados pelo princípio da precaução (se há a mais ínfima possibilidade de risco, devemos concentrar todas as nossas energias em evitá-lo). Tal paixão deu lugar, desde há várias décadas, às mais absurdas previsões, que tudo fizeram para ridicularizar legítimas preocupações. E o problema avoluma-se extraordinariamente com o fanatismo que essa paixão suscita e que o natural conformismo dos media amplifica com a sua consabida ligeireza. A retórica da “salvação” não engana. Se juntarmos esse particular fanatismo (e a sua ignorante amplificação mediática) a todos os outros fanatismos que por aí pululam, o panorama é deprimente para lá do dizível. E infiltra os espíritos, quer o queiram ou não. Não convém nunca subvalorizar a influência das ideias apaixonadas sobre a vida mental dos humanos, sobretudo quando estes gozam de um bem-estar que lhes permite não se concentrarem nos seus problemas mais imediatos e viverem, por antecipação, instalados no futuro. É uma velha e triste história, quase sempre com consequências danadas.

Talvez por causa de tudo isto, acordei ontem para um sonho. Não acordei, notem, de um sonho: acordei para um sonho. Acontece-me mais ou menos uma vez por ano, por razões que ainda estou para saber. Particular conjunção astral? Luminosos raios de inspiração divina? Algum queijo estragado? Um copo a mais? Não sei. Mas também não importa. O que é bom, o que é óptimo, o que é maravilhoso, deve ser aceite sem interrogação ou cepticismo. Apenas com agradecimento.

Acordei, portanto. Portugal era governado por uma coligação vasta e ecuménica e no Governo brilhava com inusitado fulgor o Ministério da Libertação Obrigatória (MLO), que promovia e implantava a ENINDU (Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não-Discriminação Universais). Os efeitos da aplicação da ENINDU sentiram-se imediatamente e sob todas as formas em todo o lado. Os costumes, sob uma aturada vigilância das autoridades – o MLO era todo-poderoso –, mudaram, e mudou igualmente a linguagem, que se passou a subordinar integralmente aos princípios da ENINDU. Quase da noite para o dia, o mundo tornou-se uma coisa completamente diferente.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.