Como sabemos os portugueses são representados por uma normal, uma curva de Gauss, onde existe uma boa zona central que permite caracterizá-los. Não sou dado a generalizações sobre os portugueses como em relação a nada. Porém, o caso português, como o caso de outros povos, tem uma marcada raiz comum e um eixo central de há muito conhecidos.

O século XX foi, queira-se ou não, como já foi profundamente referido por inúmeros autores, o século que afastou a Nação das grandes guerras e que colocou, igualmente, Portugal fora do mapa dos grandes acontecimentos e vivências mundiais. Adicionalmente, o século passado talvez tenha sido, e aqui sou generalista, até simplista de forma propositada, o século da exponenciação máxima de várias das características dos portugueses:

  • a inveja (“a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha”, o que traduz bem, em linguagem popular, o quanto a inveja e a cobiça pelo que alguém tem ou consegue merece apontamento sublimado);
  • o medo (“a razão espanta o medo” mas, também, “nada há de tão contagioso quanto o medo”, que se propaga silencioso e transversal à cultura de uma sociedade; ou o tão conhecido quanto sublinhado “gato escaldado de água fria tem medo”, que representa o que de melhor há, igualmente, em termos de linguagem popular);
  • o síndroma do pequeno (…”que saudades eu já tinha da minha alegre casinha”, dos Xutos e Pontapés, é bem o sintoma do pequenino, da casinha, do cafezinho, do bolinho, de um vinhinho, mas também “quem tudo quer tudo perde”, mais do que atestando que é melhor não ter grande ambição, nem mesmo a mais saudável);
  • o fenómeno da não inscrição (na linguagem de José Gil) que faz com que tudo passasse sem deixar marcas, sem deixar estrutura, sem forjar o homem português, sem criar registo.  A não inscrição entronca, depois, na inação, na falta de afirmação e na desresponsabilização permanente perante tudo (aqui entra bem, no melhor da linguagem popular, o não me comprometas com o “acender uma vela a deus e outra ao diabo”).

O Século XXI começou logo por nos trazer o bug do ano 2.000, que não passou de uma encenação que deu em nada. Talvez fosse uma antecipação do que nos iria esperar porque passados 8-10 anos, para Portugal como para o mundo, fomos, presenteados por uma crise financeira, bancos pouco capitalizados, rácios de transformação altos e maus créditos, bem como por uma crise de dívida soberana, e, quando tudo indiciava melhoras, no final de 2019 e em particular a meio de Março de 2020 fomos fustigados com a pandemia por SARS-COV (Covid-19).

Aqui chagados e temos tido, este século, já dois fenómenos duros e que permitiriam olhar-nos de outra forma, trocando a inveja pela ambição saudável, o medo pela razão, o síndroma do pequeno pela grandeza de visão e da execução, uma mudança clara no fenómeno de não inscrição – se esta pandemia não inscreve não sei o que Portugal precisa para inscrever e forjar novas mentalidades.

Não se muda uma cultura por decreto e os portugueses não mudam assim, sem mais. Não obstante, muito tem mudado e muito poderá mudar para melhor. E a crise por que passamos, transversal ao mundo todo, é uma crise que tem obrigação de inscrever profundamente em Portugal e de forjar novas formas de pensar, de fazer, de mudar paradigmas e de nos adaptarmos – mesmo se à força.

Diria que é altura de percebermos que podemos mudar o “antes só que mal acompanhado” pela colaboração para construir algo mais sublime, mais nosso e por todos partilhado. Há-de haver, mesmo se escondida, uma vontade de ser português em comunidade. De colocar este país e nação no mapa. Temos muitas pessoas boas. Temos a geração mais bem formada de sempre. Temos que ter a ambição saudável de fazer mais e melhor que os outros, de transformar, de mudar, de arriscar mais e mais.

Temos que fazer frente à pequenez do colocar sempre à frente o “é melhor prevenir que remediar” senão não nos tornaremos nunca grandes empreendedores, grandes criadores, destemidos e temerários.

Temos mesmo de retirar o medo ao gato porque não podemos mais ter “gato escaldado de água fria tem medo”. Precisamos de arrojo, de pensamento desconforme, de apostar em grandes projetos e em grandes empreendimentos. Precisamos mesmo de ver longe, amplo. Precisamos mesmo de querer tudo, ou pelo menos muito, e de eliminar “o quem tudo quer tudo perde”, um claro inibidor à ambição saudável e uma forma indireta de pensar pequeno.

Temos de deixar de “chorar sobre o leite derramado” para conseguirmos aprender com os erros e tolerar os erros. Os nossos e os dos outros. Temos de nos tornar responsáveis e de deixar de “acender velas a deus e ao diabo”.

Não precisamos mais de “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” se vista não no sentido da perseverança mas, antes, da continuidade de um mal que permita efetivamente inscrever. Porque esta crise não precisa de se prolongar muito mais para inscrever definitivamente. Aliás, quem ainda acha que não vai inscrever bem pode esperar pelas consequências económicas que aí vêm. A fatura está no correio…pode é ainda não ter chegado a todos, cada um à sua maneira. E se a “bom entendedor meia palavra basta” é altura para afirmar, aqui sim, que “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.

Esta pandemia é um mal. Mas, “há males que vêm por bem”. Esta pandemia é, também, uma enorme oportunidade para pensarmos diferente, fazermos diferente, sermos diferentes. Esta é a grande oportunidade que temos de apagar a inveja, o medo, o pequenino e a não inscrição para olharmos para o bem coletivo, para o arrojo, para o grande e ambicioso. Porque esta pandemia tem mesmo, a bem de Portugal, de inscrever. Se esta crise não inscrever que será de Portugal!? Está na altura, então, de todos nós, em conjunto, fazermos do “Nós, Portugal” o empreendimento coletivo que seja um salto efetivo para o futuro. E quem nos pode ajudar? Nós. Só nós, Portugal.