A souplesse que convém nestes textos aconselha a que escrevesse que este ano não foi assim tão excepcional, que na realidade pouco ou nada mudou e que o histerismo eventualmente passará. Esse não é um mau princípio, mas ainda há algo a dizer a favor do impacto de 2022.

Para a União Europeia, nenhum ano deste século tem sido propriamente tranquilo – o que devia servir como aviso bastante aos progressistas que a vão defendendo como se o mundo nunca tivesse abandonado a década de 1960 –, mas este foi o primeiro em que o modelo político “avançado” levou a sério a guerra, provavelmente o problema político mais primitivo de todos.

Por si só, a proximidade de um conflito não é a novidade, antes uma característica fundamental do mundo da CNN e da informação nas redes. Tampouco se pode dizer que os registos de atrocidades, de Bucha a Mariupol, nos chocaram porque nunca antes os tínhamos vimos, até porque convém a todos não esquecer o Iraque, a Chechénia ou a Bósnia.

A novidade ucraniana – país que já tinha sido invadido e perdido território em 2014 sem que muito mudasse na relação europeia com a Rússia – esteve na liderança menos obstinada da Europa e infinitamente mais crente no território invadido. Zelensky, ao contrário dos seus antecessores, não consegue fazer mais do que conversa de sala quando lhe perguntam sobre políticas, mas não é frouxo quando o tema é simples e existencial.

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Este foi o ano em que a coragem física voltou à política europeia e a partir daqui é difícil prever os caminhos que se seguem. É evidente e reconhecido por todos os envolvidos que a coragem dos ucranianos e do seu presidente de pouco valeria sem um impressionante apoio ocidental; mas vale a pena recordar que sem essa coragem o apoio provavelmente não teria existido ou teria já sido interrompido.

Conviver com um conflito aberto nas suas fronteiras não é o mesmo que discutir as regras para o comércio de licenças de emissão, o mercado único ou o apoio ao Sudão do Sul. É aliás duvidoso que as instituições supranacionais da União, especialmente a Comissão Europeia, possam servir este mundo novo.

Putin, Zelensky e Biden reanimaram o conflito de nações e, como consequência mais ou menos imprevisível, o próprio conceito de nação. Daqui em diante, se o conflito arrefecer, talvez a burocracia europeia possa prosperar num mundo que se relaciona sobretudo por teias de sanções recíprocas, mas o brilho de ontem dificilmente volta.

Para 2023, não basta a Ursula von der Leyen ou a Charles Michel pedirem que a coragem se torne menos importante e a política volte ao que era. Por todo o lado, o mundo parece investido em fazer retroceder a globalização, abdicando do comércio livre para investir em defesa, indústrias locais e na reconstrução das cadeias de produção.

Se o mundo se desglobaliza, o que sobra para o modelo de União Europeia como a construção mais globalizada de sempre? A resposta não é evidente. Num mundo de blocos em conflito, apostar que a Europa pode continuar a organizar-se como o mais disfuncional de todos é pedir para perder. Sem grande otimismo, este ano expôs os limites do paradoxo europeu; o próximo não se afigura mais fácil.