5ªf, 23 de Junho de 2016, a maioria dos britânicos votou a favor da saída do Reino Unido da União Europeia.

6ªf, 24 de Junho de 2016, a bolsa de Londres cai acima dos dois dígitos, a libra perde um terço do seu valor face ao dólar Norte Americano, e as principais agências de rating reavaliam a classificação do País.

2ªf, 27 de Junho de 2016, Nicola Sturgeon, líder dos Nacionalistas Escoceses, exige um novo referendo sobre a independência da Escócia face ao Reino Unido. O final dessa 2ªf será negro para a economia Britânica, já que a libra confirma a perda de valor iniciada três dias antes e a bolsa de Londres continua numa queda livre sem precedentes.

Estes são, numa palavra, os efeitos imediatos do leave.

Alguns meses depois, e antes do Verão de 2017, a Escócia vota pela independência, e em 2018 inicia conversações com Bruxelas para aderir à União Europeia.

Cameron, o grande derrotado político do Brexit, se ainda não se tiver demitido do cargo de primeiro-ministro, assistirá a uma guerra aberta para a sua sucessão. De um lado o seu candidato, o discreto, George Osborne, do outro, o excêntrico Boris Johnson, o rock star de Eton.

Para a história, Cameron não será lembrado como o primeiro-ministro do país G8 que mais cresceu economicamente nos anos que se seguiram à crise financeira do final da primeira década deste século, mas como o primeiro-ministro que tendo perdido o referendo, acabou com o Reino Unido enquanto Estado e destruiu a economia britânica de forma irreversível.

Entretanto, num ano e meio a economia entrou em recessão, o desemprego disparou, a city deixou de ser a morada das grandes multinacionais que entretanto se mudaram para outra capital Europeia.

Pelo meio, Donald Trump venceu as eleições para a presidência dos EUA e é o novo chefe de Estado daquele País, e o outrora Mayor de Londres tornou-se primeiro-ministro. Como é público, os dois estão de relações cortadas.

Assim, os parceiros naturais do Reino Unido deixaram de existir, e o País encontra-se orgulhosamente só.

Os restaurantes Peruanos, Vietnamitas, Espanhóis e Gregos, que abundavam em Londres, deram lugar a fast food chains de fish and chips. AsPeroni agora importadas de Itália, custam mais, quando a libra vale cada vez menos.

Perguntarão: fantasioso? Irrealista? Dramático? Catastrófico? Talvez. Mas a imprevisibilidade de um Brexit é tal, que me permite especular sobre os seus resultados e as suas consequências para o Reino Unido.

Ora, serve o presente artigo de uma verdadeira declaração de interesses de um contribuinte britânico e membro da campanha #StrongerIN, em relação ao futuro do país onde trabalha, vive e paga impostos.

Sou frontalmente contra o Brexit. E não preciso de fazer futurologia negativa para chegar a essa conclusão.

A União Europeia é a organização política e económica que maior sucesso alcançou desde a sua criação, e isso deve-se sobretudo não à cedência de soberania para uma qualquer entidade abstracta, mas para uma partilha de soberania entre Estados que, unanimemente criaram aquilo que é hoje a UE.

A paz, a democracia, a segurança, o mercado interno e as liberdades (de circulação de pessoas, bens, serviços e capitais) que lhe estão associadas, o crescimento económico, a solidariedade entre Estados e o bem-estar dos seus povos são hoje elementos que resultam de décadas de integração Europeia. E isto basta-me para querer o Reino Unido dentro e não fora da Europa.

Não vejo pois, nenhuma vantagem (real ou aparente) no Brexit, e aqueles que o defendem sofrem certamente de um saudosismo imperial crónico.

O lugar do Reino Unido é na Europa e não fora dela.

Sair da União Europeia será o primeiro passo para a desintegração do país como hoje o conhecemos e identificamos.

Não nos esqueçamos que se há britânicos europeístas, esses são os Escoceses, e se o “argumento União Europeia” fez com que muitos Escoceses votassem contra a independência da Escócia, desta vez isso não aconteceria. Há portanto um risco real de desintegração territorial que começará se o Reino Unido virar as costas a Bruxelas.

Sair da União Europeia implicará deixar de fazer parte do mercado interno, das suas vantagens e particularidades. Sair do mercado interno resultará numa perda de competitividade face aos demais países europeus, já que os bens e serviços britânicos não competirão num mercado livre, aberto e sem quaisquer barreiras alfandegárias.

Vendo-se numa situação de redução das vendas, logo dos lucros, as multinacionais britânicas ver-se-ão obrigadas a reduzir custos, de onde os salariais serão os primeiros a sofrer um ajustamento. Com isto quero dizer que o desemprego aumentará, a receita fiscal diminuirá, e o investimento estrangeiro, outrora pujante, deixará de olhar para o Reino Unido com um destino seguro.

Estamos portanto perante um segundo risco: o do caos económico.

Terceiro risco: o da segurança.

O Reino Unido sabe que não combate o terrorismo sozinho, e que encontra hoje nos parceiros Europeus, verdadeiros partners nesse combate, na prevenção/contenção de potenciais ataques, e, sobretudo, na partilha de informação.

Uma saída da União Europeia não garantirá nada disto, tornando o país mais inseguro, e menos preparado para o combate ao terrorismo.

Unidade territorial, economia, emprego e segurança são pois os temas que deverão ser discutidos durante a campanha que acaba de iniciar.

Devo dizer que, por princípio, não concordo que o Reino Unido ou qualquer outro Estado Membro, tenha um estatuto especial no quadro comunitário, no entanto, entendo que uma União Europeia sem o Reino Unido seria uma União politicamente fraca e pouco relevante no contexto internacional, e economicamente menos atractiva.

Mas o Reino Unido terá que perceber que o tempo dos Estados-nação acabou há muito, e que a soberania estadual não cria empregos nem riqueza. E ainda bem.

Não perceber esta realidade, e, sobretudo, querer pôr-se à margem dela, é um erro político primário, que no caso do Reino Unido terá consequências imprevisíveis e perigosas.

Jurista/fiscalista, tem 26 anos e vive e trabalha em Londres