Família

O cabanão (segunda crónica estival)

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Mas a quem preocupa hoje o esmorecimento do modelo tradicional familiar se ele é propagado como tendo passado de moda, saído de linha, estar “descontinuado”?

1. Quase nunca sei quem está no cabanão. Há sítios assim, peculiares. Este, tem o dom da surpresa. Vai-se, caminho fora, pisando a terra quente, o ar cheio de Verão, de um lado as flores, do outro as macieiras, ao fundo os degraus de madeira descendo para um espelho azul de água.

O cabanão é uma acolhedora casa de madeira, aberta sobre uma plataforma e erguida sobre o tanque de rega, o mesmo de que me lembro ali, desde criança.

Um dia, há trinta e tal anos, os meus pais tiveram a boa ideia de alindar o tanque forrando-o de azulejos mas deixando-lhe a sua primitiva (e algo bizarra) forma, o que lhe conservou intacto o seu encanto, nada conforme às piscinas-de-revista-tipo-resort. O cabanão passou a ser o local eleito onde, entre as dez da manhã e as seis da tarde, vão aparecendo, vindos das suas casas, os habitantes deste nosso poiso oestino (pais, filhos, netos, irmãos, cunhados, primos, sobrinhos-netos & amigos). É onde tudo se passa, se sabe, se conversa, se discute, se descobre, se conhece, se ri. E se bebe. Vinho branco no frigorífico, limões das árvores para as limonadas dos abstémios (cujo número é felizmente diminuto). Nem o já celebre “acampamento”, este ano dedicado aos 5/9 anos e que envolve actividades várias para o dia e tendas fora de casa para as noites, ou sequer o futebol que junta quase todos os dias jogadores e espectadores de três gerações, rivalizam com o cabanão. Ano após ano, leva a palma de ouro. E no ano da sua inauguração, ganhou o óscar da melhor realização.

2. A expectativa da surpresa, qual jogo, pode começar na descida dos degraus: quem lá estará hoje? Quem das outras casas convidou quem? Haverá gente daqui da Foz? Amigos de Lisboa? Um número tão grande de crianças que transforma instantaneamente o “recinto” numa colónia de férias? Atentos leitores de jornais e tablets? Bebés mudando fraldas? Jovens politizados discutindo os males da pátria ? Um intelectual de direita discutindo com um intelectual de esquerda? Estrangeiros de passagem? Mães procurando chuchas aparentemente perdidas para todo o sempre? Avós colocando amorosamente bóias em netos mínimos? Comentadores, editorialistas, jornalistas, discutindo os respectivos “locais de trabalho”? Alguém relendo as provas do seu próprio livro? Tertúlias fervilhantes e intergeracionais onde tão depressa se cruzam receitas de cozinha, venenosos ataques e apaixonadas defesas políticas, livros, desporto, viagens?

Não, não é todos os dias isto mas, sim, é — felizmente — muitas vezes.

3. As 10 da manhã o cabanão é um oásis de silêncio, o calor ainda é humano, a luz, ainda aguada. Não há telemóveis a zumbir, nem iPads a clicar. Vivem-se aqueles momentos de glória que definem o início de uma manhã de Verão onde achamos que tudo é possível e tudo nos é permitido diante da intacta harmonia entre os seres, a natureza e as coisas. Uma espécie de estado de graça, breve,como os estados de graça.

A essa hora sem gente, nem ruído — uns ainda não voltaram do mercado, outros da cama — ainda se pode ler um livro e saboreá-lo com deleite, apanhar limões, agradecer a Deus. Ao meio dia o ar agita-se, já contaminado pela excitação das provas aquáticas ou do concurso de saltos “do alto do cabanão” para os mais pequenos. Um desafio tão forte e estimulante que deixa marcas o ano inteiro. “No Verão já me atirei do cabanão sem bóias!” é frase que podemos de repente ouvir em Lisboa, a meio do Inverno, tão impressivo foi o feito para o seu herói de cinco anos (e não deixa de ser gratificante ter podido interagir de forma tão inocente com alguém que começa a pisar o chão da vida, levando-o a ser capaz de se superar, mesmo que num vulgar mergulho).

Com a água repleta de afoitos nadadores, mergulhores de palmo e meio e pré adolescentes espigadas, o cabanão é deles. Lá para as duas e tal, entre jornais, copos de vinho, sandálias, telemóveis, papéis, óculos, bóias, tábuas de queijos e cestas de pão, o cabanão é nosso. E a vozearia vai alta (o álcool aumenta-nos ligeiramente o tom de voz).

Refaz-se o mundo, discute-se tudo. A sério e com seriedade, ninguém aqui está na vida de borla, apesar de mergulhos e vinho branco. É apenas uma pausa, é apenas o Verão. Por isso também muitos risos se soltam. E projectos, confidências, ambições, iniciativas. E a ilusão também se solta. A de que a vida pode conter este elevado grau de doçura, mesmo sabendo nós a que ponto ela pode ser pouco amável e pouco afável.

Mas o Verão escorre. Assim escorre.

4. Já ouço daqui o enfado educado, agressivo ou insultivo (é conforme os remententes) do “que é que isto interessa?”

Interessa, sim. O nervo vital do cabanão é a família. Posso, com inteira legitimidade e sem corar, cantar-lhe um hino que foi o que fiz acima, mas não por acaso. Cultivo a família como um bom jardineiro as suas rosas, o meu desvelo e o dele são infinitos. Além de que gosto de dizer que amo a instituição familiar, a protejo e a rego. Acredito na sua importância crucial e essencial – como fonte de vida e de luz, como escolha, como instituição, como símbolo, como núcleo duro, como porto de abrigo, como rectaguarda – e por isso me aflijo que por vezes, ela me surja quase em extinção. Lembra as baleias. A diferença abissal é que a (suposta ) ameaça de extinção das baleias envolve as que restam num casulo de solícitos cuidados, preocupações, fundos financeiros, petições, carinhos, enquanto a (real) ameça de extinção das famílias tradicionais deixa a sociedade a flutuar sobre o seu próprio desnorte. (ou deveria também dizer sobre o seu desinteresse?)

Não que não se deva obviamente estar atento aos sinais ou disponível para discutir novos temas e as propostas que os sustentam, para depois os perfilhar (ou não). Separando o trigo do joio e nunca preferindo o gato à lebre. Mas com poucas excepções, a quem preocupa hoje o esmorecimento do modelo tradicional familiar se ele parece propagado como tendo passado de moda, saído de linha, ou estar “descontinuado”? Como podem hoje as famílias ser lubrificadas e tonificadas como suporte e ossatura do nosso modelo civilizacional se são os próprios agentes do Estado, os governantes, a própria sociedade, a pô-lo em causa, ou a equipará-la a outras formas de organização familiar, por definição incomparáveis e por isso impossíveis de equiparar. Sucede porém que a jubilosa ênfase dada às “alternativas” ditas ”fracturantes”, é de tal modo impositiva que quase reduz — e reconduz — a família tradicional um vão de escada “autorizado”. Corroendo os seus alicerces e trocando-os por qualquer modelo desde que imediatamente encaixável no devastador ar deste tempo. Pelos vistos um ar do tempo tão apetecível, tão espumoso, tão descomprometido, tão “o que interessa é a nossa felicidade”… que também pelos vistos deve ser difícil resistir-lhe. (Ou sou eu própria que estou em extinção?)

5. Exagerei? Talvez, mas não creio. Em qualquer caso, um combate indispensável e um assunto a seguir absolutamente.

PS. As tragédias podem tornar-se ainda mais dolorosas quando nelas quase tudo nos é familiar. O cenário, as gentes, a paisagem, as árvores, o sítio. É o caso da genuína, sentidíssima devoção dos madeirenses á sua Senhora do Monte. Das celebrações religiosas que a evocam, ano após ano, a 15 Agosto, da vigília que as antecede, na noite de 14, do povo que junta, multidões de velas acesas na mão. Testemunhei tudo isto várias vezes, juntei-me à procissão, rezei com eles à Senhora do Monte. De algum modo é como se algo neste tão brutal drama também me dissesse respeito, impedindo-me o ficar longe dele e incólume a ele.

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