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Chegou-se a um cessar-fogo na última ronda de hostilidades entre Israel e o Hamas há uma semana. Por quanto tempo? É a incógnita. Embora tenha sido claramente iniciada pelo Hamas, uma organização palestiniana militante e terrorista, ao disparar milhares de mísseis contra cidades israelitas, foi Israel que acabou por ser sobejamente criticado. Na verdade, Israel tem sido quase sempre malvisto pela comunicação social. Várias sondagens têm vindo sistematicamente a revelar que Israel é um dos países mais odiados do mundo, ao lado de paradigmas como a Coreia do Norte e o Irão. Até que ponto podemos dizer que este ódio é realmente motivado pelas políticas do governo de Israel ou é um simples reflexo do tradicional e secular ódio pelos judeus?

Israel é acusado de muitos crimes: o de ser um Estado de apartheid; de limpeza étnica; de inúmeras violações dos direitos humanos; de oprimir o povo palestiniano; de violar sistematicamente várias resoluções da ONU. Acima de tudo, o Estado israelita é acusado de ter roubado a um povo – os palestinianos – as suas terras ancestrais e o direito à autodeterminação. Muitos têm criticado e apontado o dedo aos israelitas dizendo que eles se têm vindo a aproveitar das atrocidades contra eles cometidas no Holocausto para, procederem à “lavagem” dos seus “crimes”.

Como sempre acontece, há outra versão da história. Os sionistas afirmam que são o único e verdadeiro povo natural de Eretz Israel, a terra de Israel, que remonta a 3000 anos. Nesta narrativa, os judeus foram expulsos quando a terra foi ocupada, mas, ainda assim, conseguiram aí manter uma presença contínua mesmo sob o jugo de vários impérios: sírio, romano, abissínio, otomano e, por último, britânico. O mandato da Grã-Bretanha para controlar a Palestina, aprovado pela Liga das Nações em 1922, incorporou a Declaração Balfour de 1917, que previa um Estado judeu na Palestina e a preservação dos direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas. Mas, apenas um ano após o seu nascimento, o Estado israelita viu-se na necessidade de pegar em armas e lutar pela sua sobrevivência, em 1948, contra os vizinhos árabes empenhados na sua destruição, tal como tem feito desde então, tendo tido de se defender pelas armas por várias vezes.

Dois povos combatendo pela mesma terra. Ambos afirmam ter a história e a lei do seu lado. Ambos afirmam ser vítimas de agressores. Ambos se acusam mutuamente de seguirem uma política de limpeza étnica. Os judeus israelitas afirmam que sempre mostraram abertura face à ideia de partilhar a terra, mas que os palestinianos sempre se recusaram a aceitá-lo e, em vez disso, tentaram estabelecer um Estado próprio recorrendo ao terrorismo e à guerra.

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Os palestinianos têm as suas próprias queixas: o êxodo forçado de 700 mil pessoas obrigadas a abandonar as suas casas em 1948; a contínua construção e expansão dos colonatos judeus em terras que haviam sido atribuídas aos palestinianos para virem a integrar um Estado palestiniano; a ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental; o cerco da Faixa de Gaza; a grave violação dos direitos humanos. Um conflito aparentemente impossível de resolver. Não é de admirar, portanto, que a comunidade internacional, apesar de seus inúmeros esforços, não o tenha conseguido solucionar.

A questão israelo-palestiniana é difícil de ser examinada sem “lentes tribais” ou destituída de atitudes “clubistas”. Ou se apoia uns, ou os outros. Um pouco como ser adepto de um clube de futebol. Todos nós acreditamos ser objetivos, e que a verdade e a moralidade estão do nosso lado, e é, precisamente isto, que faz com que qualquer diálogo produtivo seja tão difícil de acontecer. Como consequência, não é de espantar que continuemos obcecados com um conflito por um território pequeno, composto por apenas 14 milhões de pessoas (se incluirmos os territórios ocupados e a Faixa de Gaza) e que ceifou tão poucas vidas, em termos relativos.

Sempre fui uma fervorosa defensora do Estado de Israel. Tenho o privilégio de ter vários amigos chegados que são israelitas. Viajei muito por Israel, um país que amo profundamente. Quando olho para Israel, vejo um povo que, durante séculos, foi alvo de discriminação e perseguição de todas as formas, muitas delas revestindo atitudes de barbárie. Com o fim do mandato britânico, acabaram os últimos vestígios de controlo externo do que era até então conhecido por Palestina e os israelitas puderam finalmente determinar o seu próprio futuro como povo, criando um Estado funcional e produtivo, um farol da democracia no Médio Oriente. Tudo isto influenciou o meu juízo em relação à questão israelo-palestiniana. Eu não tinha quaisquer dúvidas de qual a “equipa” que apoiava. Logo, é com alguma surpresa em relação a mim mesma, que pela primeira vez, me sinto mais solidária com o outro lado.

Este último conflito não é apenas sobre o Hamas, que verdadeiramente nunca se mostrou interessado na paz ou numa solução de dois Estados, um movimento terrorista e totalitário que vergonhosamente utiliza a população civil como escudos humanos para deslegitimar qualquer acto israelita contra eles. É resultado cada vez mais, a meu ver, das ações de um Estado que paulatinamente tem vindo a corroer os direitos dos seus cidadãos árabes e que exerce uma opressão nos Territórios Ocupados que torna quase impossível a vida para os palestinianos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Nas palavras de Gideon Levy, um proeminente jornalista e autor israelita: “Israel transformou-se num país de três governos: um para os judeus, um para os seus cidadãos árabes e outro para a Cisjordânia e Faixa de Gaza”. Não há dúvida de que Israel se afastou dos princípios que iluminaram os seus fundadores como David Ben-Gurion: “O Estado de Israel … fomentará o desenvolvimento do país para o benefício de todos os seus habitantes; irá garantir a plena igualdade de direitos sociais e políticos para todos os seus habitantes, independentemente de religião, raça ou sexo…” Hoje, em Israel não existe grande igualdade.

O facto de Israel ser a única verdadeira democracia no Médio Oriente, o facto de ter o direito de se defender contra um grupo terrorista com ligações conhecidas ao Irão, que tem por objetivo erradicar o Estado de Israel, não lhe dá o direito de fazer o que lhe aprouver. Precisamente por defendermos os valores democráticos ocidentais, devemos condenar não apenas as ações do Hamas, mas também as de Israel. Se, por um lado, o Hamas nega o direito à existência de Israel, por outro, Netanyahu pretende impossibilitar a criação de um Estado palestiniano viável. A Cisjordânia não é mais do que uma manta de retalhos, constituída por comunidades sem ligações entre si, quebradas por muros de segurança e por barreiras controladas pelas FDI (Forças de Defesa de Israel). Com o aumento dos colonatos israelitas e do número de demolições de casas, atualmente não há qualquer coerência territorial para uma solução de dois Estados. Nestas circunstâncias, aos palestinianos resta pouco para além do fazer frente a esta política de migração forçada sistemática e de erosão dos seus direitos. As manifestações pacíficas não têm tido muito sucesso.

A centelha para a última escalada de violência, a quarta desde 2008 (se deixarmos de lado as contendas menores) ocorreu em Jerusalém. Já há algum tempo que as tensões tinham vindo a aumentar devido às tentativas de sequestro no subúrbio Shaikh Jarrah da Jerusalém Oriental ocupada. Quando a polícia israelita usou força excessiva contra os manifestantes no Monte do Templo e invadiu a mesquita Al-Asqua em Jerusalém, o terceiro local mais sagrado do Islão, o Hamas encarou a situação como uma oportunidade única de mostrar as suas garras.

Claro que a dinâmica política terá desempenhado o seu papel. Mahmoud Abbas, o presidente palestiniano e líder do Fatah, decidiu mais uma vez adiar indefinidamente as eleições legislativas nos Territórios Ocupados, por ter medo de perder as eleições. O Hamas esperava que ao lançar mísseis sobre Israel, pudesse reverter a sua impopularidade em Gaza e a aumentar a sua popularidade na Cisjordânia. O fracasso do sistema político israelita em gerar um governo estável nas últimas quatro rondas eleitorais sucessivas, terá servido como incentivo adicional para que o Hamas se tentasse aproveitar de um certo grau de desordem nos processos de decisão israelitas.

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel que, até hoje, se tem mantido por mais tempo no cargo, teve de ceder a partidos de extrema-direita para se conseguir manter no poder. Uma cartada que foi forçado a jogar para vir a ter alguma esperança de formar governo. Neste último conflito teve que mostrar toda a sua força. As bombas israelitas atingiram as instalações do Hamas, as de lançamento de mísseis e as subterrâneas. Foram mortos vários comandantes do grupo. Tudo isto é verdade. Mas muito mais infraestruturas, casas, escolas, hospitais e negócios foram destruídos em Gaza, do que em qualquer outro bombardeamento anterior, o que só aumentará a reserva de futuros recrutas do Hamas.

A crise de Gaza veio no momento ideal para Netanyahu. Conduziu ao colapso das negociações para formar uma nova coligação israelita que excluiria o seu partido, o Likud, e que aumentaria drasticamente as suas hipóteses de ir para a prisão por várias acusações de corrupção.

Netanyahu não é um mero refém da direita israelita. As suas atitudes provam como ele é um interveniente importante em todo o processo. Como populista que é, tem vindo a aperfeiçoar a arte de converter ressentimentos sociais em poder político. Sob a sua administração, o centro de gravidade político em Israel virou à direita. Não estamos apenas em presença duma ascensão dos partidos de extrema-direita, mas presenciamos também o quase desaparecimento do Partido Trabalhista de Israel, tradicionalmente o maior defensor de uma solução de dois Estados. E há ainda a agravante da preocupante viragem à direita da geração mais jovem. Nada disto constitui um bom presságio para um futuro diálogo entre as duas partes.

O cessar-fogo até pode ter sido assinado, porém, o Hamas não ficará vencido ou inativo por muito tempo. A verdade é que ambas as fações (Hamas e Israel de Netanyahu) estão satisfeitas por deixar Gaza a apodrecer numa poça inflamada de miséria que irrompe periodicamente. O controlo do Hamas é conveniente para Netanyahu. Enfraquece a liderança palestiniana, tornando remotas as perspetivas de um Estado palestiniano. Afinal, quem tem o direito legítimo de falar pelo povo palestino: o Fatah ou o Hamas?

O descontentamento interno é um novo elemento e o mais preocupante de tudo isto. O gigante adormecido parece ter acordado. Os árabes israelitas, que hoje perfazem pouco mais de 20% da população de Israel, identificam-se cada vez mais com os seus irmãos palestinianos e estão revoltados. Têm vindo a assistir a uma cada vez maior supressão dos seus direitos nas últimas duas décadas. Sentem-se cada vez mais tratados como cidadãos de segunda classe. É verdade que têm direito a voto, que estão representados no Knesset (parlamento israelita), que beneficiam dos serviços sociais prestados pelo Estado e que não são obrigados a cumprir serviço militar. No entanto, precisamos de olhar mais aprofundadamente para este quadro de igualdade. Em oito das dez cidades mais pobres de Israel, a maioria da população é de árabes israelitas. Em 2018, Netanyahu aprovou a Lei do Estado da Nação recusando o estatuto de idioma oficial ao árabe, dando aos judeus o direito exclusivo à autodeterminação. Privou os árabes israelitas do direito de determinar em que tipo de Estado querem viver e que sociedade desejam, e reconheceu os colonatos judaicos como um valor nacional sem especificar onde. Por fim, legislou para que qualquer árabe israelita que deixe Israel por um período prolongado, para, por exemplo, poder estudar no estrangeiro, perca automaticamente o seu direito à cidadania israelita.

Naturalmente, tanto israelitas como palestinianos anseiam pela paz. Mas, para que a paz seja alcançada, é preciso fazer concessões de ambos os lados. Há que salvaguardar a necessidade de segurança de Israel, bem como a necessidade dos palestinianos de terem o seu próprio Estado, um Estado que seja economicamente viável e onde eles possam prosperar.

Contudo, é improvável que a paz e a segurança sejam alcançadas sob as lideranças de Netanyahu e Abbas. Os dezasseis anos de Abbas no poder mostraram que ele é incapaz de cumprir promessas e que não tem controlo sobre o Hamas, ou sobre a Jihad islâmica palestiniana, que também opera em Gaza. Os treze anos de Netanyahu no poder mostraram, na pior das hipóteses, que ele não tem qualquer intenção de viabilizar uma paz sustentável; na melhor das hipóteses, que se tornou refém de uma dinâmica que ele mesmo ajudou a incentivar.

Para que haja progresso, os EUA terão de exercer pressão sobre Israel. A condenação pública do tratamento dado por Israel aos palestinianos já não constitui tabu nos Estados Unidos, nem mesmo entre os judeus americanos. A aliança ostensiva de Netanyahu com Trump não contribuiu em nada para o tornar uma figura particularmente cativante para os democratas mais jovens ou para a ala mais progressista do partido. Biden parece relutante em dedicar muita energia a reavivar o processo de paz. Isto poderá vir a ocupar uma parte desproporcional da sua agenda política externa e Biden tem ainda muito para arrumar em casa e no exterior. Os interesses de energia da América no Médio Oriente também estão a mudar. A descoberta do gás de xisto, o Green New Deal (o novo acordo verde) e a iniciativa climática de Biden contribuirão igualmente para que os EUA venham a ter uma menor dependência energética do Médio Oriente, o que, assim, poderá levar a uma reavaliação da sua política em relação a Israel. Só a América terá o poder de forçar Israel a fazer a paz.

Esta última escalada de violência, bem como as anteriores, nada trouxe para além de mais morte, destruição e ódio. Empurrar as culpas dum lado para o outro também não levará a lugar nenhum. Ambos os lados devem ser condenados e responsabilizados pelos seus actos. Em muitos aspectos, os israelitas parecem criar ou, pelo menos, piorar os seus próprios problemas. Se a segurança israelita é o seu objectivo final, parecem estar cada vez mais longe de o poder alcançar. Para que a paz seja alcançada, no momento em que vivemos, é necessário mudar lideranças e atitudes. À medida que as atitudes vão endurecendo de ambos os lados, a resolução definitiva do problema parece cada vez mais longínqua. Os povos israelita e palestiniano merecem mais. Em última análise, precisam da sua própria versão de Frederick de Klerk e Nelson Mandela.

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