Se há forma que caracteriza este governo é a desconsideração pelos outros, o não se calcularem os efeitos do que se diz e do que se faz pois o que quer que se diga ou que quer que se faça não produz quaisquer consequências na esfera daqueles que dizem e que fazem. No fundo, é o desrepeito que nasce da impunidade.

As atitudes de desrespeito de quem governa são inúmeras. Começam em António Costa, não só com a própria formação da geringonça, desrespeitando o voto, mas também no modo como joga com os argumentos, como fez com o da cor da pele em pleno Parlamento, quando afirma que a economia portuguesa cresce acima da europeia, conclui que um défice reduzido equivale a menos dívida pública, ou quando esconde que a redução do défice se deve à custa da maior carga fiscal de sempre e das cativações no funcionamento do Estado social. O modo como desvaloriza as críticas de eleitoralismo, as previsões de menor crescimento, o aumento dos juros que Portugal pagou na colocação da dívida a 10 anos, ou as polémicas como as do comboio do PS a que a CP deu passagem atrasando as normais ligações ferroviárias. A forma como o primeiro-ministro desrespeita, desconsidera, e assim se desresponsabiliza. Costa é exímio não em mentir, que é algo facilmente descoberto, mas na distorção da verdade, na fabricação da meia-verdade, que é pior que a mentira, já que a esconde e não a expõe.

Infelizmente Costa não está sozinho. Veja-se o caso de Carlos César, o líder parlamentar do PS, quando se refere (sem os especificar) aos laços familiares das irmãs Mortágua: não interessa que estas sejam deputadas por mérito próprio e por acaso irmãs, algo completamente diferente da nomeação para cargos públicos de familiares de membros de outros cargos públicos. O que interessa para César é que, sendo Joana e Mariana Mortágua familiares, o exemplo seja confundível.

Mas Costa e César, mais velhos e experientes, têm feito escola. Atente-se no parlapiê de Pedro Nuno Santos para justificar a nomeação da sua mulher como chefe do gabinete do secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, José Duarte Cordeiro. Em benefício de Pedro Nuno Santos diga-se que, para quem se dá ao trabalho de escrever um texto tão longo a justificar algo tão obviamente reprovável, ainda lhe resta um mínimo de pudor. Pena é que, no meio de tantos caracteres, o novo ministro das Infrasestruturas e da Habitação não tenha reparado que a questão não está em não prejudicar a sua mulher por ser sua mulher, mas em a não beneficiar precisamente por ser sua mulher. Uma pequena diferença que seria de maior não fosse a desrespeito uma nova forma de governar.

Claro que este tipo de comportamento conduz a um desprestígio dos políticos e da actividade política, o que devia preocupar alguém como Costa, César e os já não tão jovens turcos do PS. Mas não os inquieta porque os socialistas sabem melhor que ninguém que o desprestígio de uma instituição, de um cargo, profissão, ou pessoa, só é relevante se quem os avalia, os eleitores, têm prestígio, que aqui se pode traduzir por influência. E não têm. É aqui que está o busílis da questão: quem vota não influencia, não atrai, não vale, nem conta. Assim é porque o socialismo não estagnou apenas a economia. Paralisou também o espírito, a opinião, o sentimento de justiça, a essência da democracia. A desvalorização, a desconsideração, o desrespeito que levam à desresponsabilização são possíveis porque foram aceites em troca de lugares, salários e favores. Na sua maioria o país vergou-se. O PS sabe isso muito bem pois foi ele quem o conseguiu.

Advogado