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O discurso de apresentação de António Costa foi fraco? Claro que sim. Mas a questão não é se o discurso foi forte ou fraco mas muito mais dramaticamente se ele podia ser outra coisa? Provavelmente não. Como o discurso do próprio António José Seguro também não podia ser muito diferente daquilo que foi. Porquê? Porque os socialistas têm um problema para resolver. Um problema chamado socialismo. Um problema que leva a que mal saem do plano das suas intenções para o das suas propostas tudo lhes pareça correr mal. E contudo ainda há pouco tempo, um discurso como aquele que Costa fez na apresentação da sua candidatura teria sido considerado mobilizador.

Durante décadas o discurso socialista centrou-se na distribuição da riqueza. É certo que o discurso político, da esquerda à direita, cada vez menos político e cada vez mais centrado nas questões sociais, não tratava de outra coisa mas também é certo que os socialistas falavam melhor. Os socialistas, que tinham trocado as referências à sociedade sem classes pela bem mais asséptica solidariedade, eram a versão civilizada e democrática do confisco totalitário dos comunistas. E eram também uma versão progressista e descomplexada da direita que ora oscilava entre o populismo rançoso da ajuda aos pobrezinhos ora, assumindo o ónus de serem socialistas por defeito, se enredavam para provar que não se podia dar mais mas que naturalmente se pudessem eles dariam até mais que os socialistas. Em resumo o socialismo e os socialistas eram a referência política padrão enquanto os não socialistas surgiam como uma espécie de desvio à norma.

Mas esse discurso foi concebido num e para outro tempo. Um tempo em que existiam duas grandes potências e um Terceiro Mundo cheio de países em vias de desenvolvimento – a China era um gigante que havia de acordar – e a América Latina e a África eram os palcos por excelência para a manifestação das boas intenções dos residentes no hemisfério Norte. Um tempo em que a Europa tinha no Muro de Berlim o seu símbolo e a sua mais-valia, em que os recursos pareciam infinitos – o dinheiro de facto aparecia sempre, como ainda hoje repete Mário Soares – e em que, perante as crises, se desvalorizava a moeda.

Agora, esse mundo acabou. E os socialistas ficaram sem discurso. Nesta crise o socialismo tornou-se naquele carro óptimo que quando precisamos mesmo dele não pega.
Não por acaso, quando começaram a piscar os sinais vermelhos para as economias, dentro e fora de portas vimos os partidos socialistas a embarcarem no arriscado jogo da engenharia social das causas que dizem fracturantes, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a teoria do género. Em Espanha, onde tudo tem sempre um lado mais pícaro, o PSOE de Zapatero foi mais longe e apresentou mesmo uma proposta que visava atribuir direitos humanos aos grandes símios, ou seja aos orangotangos, chimpanzés e gorilas.

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Como é óbvio o carnaval das causas fracturantes, como aliás acontece com todos os carnavais, foi de curta duração. Logo, quando o carnaval acabou, os chimpanzés em Espanha continuaram a ser símios mas os socialistas, espanhóis e não só, ficaram ainda mais expostos na sua humaníssima nudez discursiva. Simultaneamente à sua esquerda sucedia o inverso: o fim da URSS e a troca, em Pequim, do Livro Vermelho pelos cursos de Gestão forçaram os comunistas e os maoistas a desistir de construir um mundo novo. Mas, devidamente desembaraçados dos amanhãs que cantavam da URSS e dos slogans ridículos da Revolução Cultural, os radicais de esquerda, com a megalomania que os caracteriza (tudo do seu lado é sempre uma batalha ganha e uma luta vitoriosa, enquanto para os outros, que por sinal têm votações muito mais expressivas, tudo são derrotas estrondosas), ficaram livres para se dedicar com afinco a tirar todas as vantagens institucionais do sistema que em princípio queriam destruir. O crescimento dos populismos e da extrema-direita, sobretudo em França, trouxeram participantes doutras cores políticas a esta bem-sucedida estratégia.

O declínio dos partidos de centro, sobretudo dos partidos socialistas, é a janela de oportunidade para os radicais subverterem a engrenagem dos acordos entre os socialistas e o centro-direita, acordos e arranjos tácitos sobre os quais se construíram as democracias portuguesa e espanhola.

Como bem lembrou Rui Rio neste jornal “com base nos resultados percentuais obtidos nas europeias, CDS, PSD e PS já não tinham representatividade para conseguirem fazer uma revisão constitucional. Coisa diferente serão umas legislativas e a distribuição de deputados pelos círculos eleitorais segundo o método de Hondt, mas o aviso está aí e era bom que o entendessem.” Já em Espanha o desastre eleitoral do PSOE pode ter antecipado o anúncio por Juan Carlos da sua intenção de abdicar pois não só nestas eleições europeias o PP e o PSOE perderam votantes como há o risco do muito institucional Rubalcalba acabar substituído na liderança dos socialistas por um radical que deixe à solta no partido as tendências mais extremistas que entre muitas outras coisas questionam a monarquia.

O drama que agora atravessa os partidos socialistas europeus, sobretudo aqueles que foram grandes como os de Portugal, Espanha e França, é que parte do eleitorado socialista, esgotada a sua fé no abracadabra do socialismo, mostra uma enorme disponibilidade para se dispersar por candidaturas como as de Marinho Pinto, Alegre, Fernando Nobre… Isto numa versão portuguesa e benigna deste fenómeno, porque em França e Espanha o voto socialista acabou na extrema-direita e na extrema-esquerda. A possibilidade de os socialistas radicalizarem à esquerda durante as campanhas eleitorais, para assim captarem esses votos, e uma vez eleitos governarem próximo do centro, inventando umas causas fracturantes para entreter os radicais, seria uma estratégia certamente bem-sucedida há alguns anos – e em parte foi isso que fez inicialmente José Sócrates – mas agora, como se vê por Hollande, não só não resulta como alimenta ainda mais os radicalismos. Assim postas as coisas não admira que Costa procure dizer o menos possível e que o combate pela liderança socialista esteja reduzido a um combate de personalidades. Ir além disso é um enorme risco para quem sendo socialista quer sobreviver politicamente. Mas foi precisamente indo além disso, ou seja indo para o centro, que um socialista, Renzi, averbou uma importante vitória nestas europeias.

Matteo Renzi, líder do Partido Democrático, que integra o Partido Socialista Europeu, virou-se para o eleitorado do centro e da direita, disse claramente ao que vinha, enfrentou o poder dos sindicatos, defendeu o euro e não hostilizou Merkel, antes tem sido um negociador. Duro como só pode ser quem não entra em guerras que sabe de antemão perdidas, Renzi não ganhou apenas as eleições à direita. Ganhou-as também e sobretudo à esquerda onde neutralizou preconceitos fenómenos como Beppe Grillo.

§Num líder socialista que siga a estratégia de Renzi e veja nos eleitores de centro-direita parte do seu potencial eleitorado está o verdadeiro risco para os partidos de centro-direita. Mas, pelo menos em Portugal, enquanto Costa e Seguro se mantiverem entretidos a discutir quem faz mal ou bem ao PS, enquanto os líderes e candidatos a líder dos socialistas se sentirem na necessidade de prestar tributo à tralha bolivariana do socratismo e sobretudo enquanto não fizerem um discurso que os retire da língua de pau da esquerda que sonha mas que não diz o que vai fazer quando acordar, Passos e Portas podem continuar descansadamente a fazer contas e bluff sobre se vale a pena manterem-se no Governo até 2015. Ou se pelo contrário devem aproveitar o pretexto dos chumbos do Tribunal Constitucional para, com o PS em plena crise, fazerem cair o Governo e levar o país para eleições. Não apenas com a intenção de as ganhar mas também de acantonarem o PS ainda mais à esquerda, ocupando eles o centro.

Achar que o problema dos partidos socialistas é apenas um assunto dos socialistas é além de uma tolice uma perigosa ilusão: é o centro que está em causa.