A propósito dos 60 anos sobre a assinatura do Tratado de Roma, passámos o fim-de-semana a ouvir lamentos sobre o futuro da UE e os perigos do populismo. Numa Europa que salta de ilusão em ilusão, a mais recente parece ser a de que o combate aos populismos faz-se pela censura social e política dos seus protagonistas e dos seus eleitores. Erro grosseiro. Que, por exemplo, as eleições holandesas puseram mais uma vez a nu. É fácil culpar Wilders, Farage e Le Pen, mas focar neles é também olhar para o problema errado. Apesar da atenção mediática que atrai, o fenómeno político dos nossos tempos não está no nacionalismo populista. Está no pouco discutido desaparecimento do centro-esquerda europeu, cujo espaço eleitoral os populistas invadiram. No Reino Unido, na Holanda, em França ou na Grécia, os partidos socialistas estão à beira da irrelevância, substituídos no debate público pelos populismos. Porque os cidadãos acham as suas soluções melhores? Não. Porque as suas soluções (mesmo quando consideradas más) são as únicas que atacam as inquietações sociais que o centro-esquerda optou por ignorar.

Primeiro, perante a crise das dívidas soberanas e a falta de crescimento económico, o centro-esquerda não encontrou alternativa às políticas de austeridade – mesmo que lhe dê outro nome. Em França, Hollande tentou a “austeridade inteligente”. E, em Portugal, depois de estrangular serviços públicos e cortar nas despesas do Estado, foi um governo PS que levou o défice até aos 2,1%. Segundo, perante o impacto da globalização para as populações das cinturas industriais no Ocidente, o centro-esquerda dispensou-se de representar a classe trabalhadora (que, durante décadas, serviu de sua base eleitoral). O seu discurso político hoje endereça-se às elites sociais, citadinas e de formação superior, nomeadamente as que preenchem os lugares nas universidades públicas. Terceiro, perante a crescente imigração de populações muçulmanas, o centro-esquerda aderiu ao multiculturalismo que, em nome da não-ofensa aos valores dessas populações, permitiu a segregação social e legitimou a recusa destas comunidades em cumprir as leis europeias.

O centro-esquerda ainda vive no século XX. E defende o seu vazio de ideias moralizando o debate – quem discorda de si é “neoliberal”, “xenófobo”, “racista”, “ignorante”. Ao princípio, as pessoas engolem. Depois, fartam-se e escolhem votar em quem promete dar um murro na mesa.

Foi o que aconteceu com Brexit, Trump e Wilders. É o que se prepara para acontecer em França, com a primeira volta das eleições presidenciais na mão de Marine Le Pen. Nas eleições regionais de 2015, mais de metade dos eleitores do Front National (FN) veio das classes operárias. O voto do colarinho azul que, noutros tempos, estava garantido à esquerda e que, hoje, encontra representação em Le Pen. Para as presidenciais de Abril, a tendência vai no mesmo sentido. Minorias integradas, como os emigrantes portugueses, votam Le Pen. Entre os jovens que votam pela primeira vez, 44% dos que já trabalham querem a líder do FN a mandar no país. Pequenos empresários, assalariados, cidadãos das cintas industriais e dos subúrbios de Paris, Marselha ou Lyon, gente do interior francês que, à falta de algo mais, se agarra à identidade nacional para não perder o comboio de um mundo em mudança. O eleitorado de Marine Le Pen tem de tudo. Não é fixo, não tem ideologia, profissão, origem social, nem está assente na adesão ao manifesto eleitoral, que a maioria até desconhece. O FN é um aglomerado de gente unida pelo sentido de ameaça ao seu modo de vida e pela percepção de abandono político.

A esquerda tem convenientemente fugido a esta discussão, limpando as mãos das suas responsabilidades. Só que, ao fazê-lo, continua a dar gás aos populismos contra os quais se lamuria. Sim, os populismos de Wilders e Le Pen cavalgam nas angústias e nos medos que a crise económica, a globalização e a imigração trouxeram. E, claro, afiam as facas contra as imperfeições de uma União Europeia que, tantas vezes, se desorientou. Mas denunciar o seu discurso ou apontar-lhes o dedo já não chega. O momento decisivo da Europa é, também, a hora decisiva para os partidos socialistas europeus. Ou o centro-esquerda se reinventa e volta a representar o eleitorado que ignorou, ou perde definitivamente o seu lugar para o populismo.