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União Europeia

Putin, o maior inimigo dos europeus

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Os europeus andam tão absorvidos com Trump que se esquecem de Putin. O erro pode ser fatal. 2017 é ano de eleições em França, Alemanha e Holanda. E, nestes tabuleiros, o Kremlin colocou as suas peças.

O que têm em comum Donald Trump (EUA), Marine Le Pen (França), Alexis Tsipras (Grécia), Geert Wilders (Holanda), Heinz-Christian Strache (Áustria) e Viktor Órban (Hungria)? Todos andam de mão dada com Vladimir Putin. Não, não é teoria da conspiração. A relação especial que o novo presidente americano partilha com o autocrata russo é conhecida e tem motivado inquietações – ainda este domingo Trump reconheceu a sua admiração pelo russo. Mas Putin não se limita a abraçar Trump. Convém não esquecer que a campanha presidencial de Marine Le Pen está a ser financiada em milhões de euros pelo Kremlin. Que Tsipras tentou encontrar em Putin um substituto para a dependência no dinheiro europeu. Que Órban recebeu e elogiou o russo, em Budapeste na semana passada. Ou que, na Holanda, a relação de Putin com Wilders se mantém firme, apesar de este ser ano eleitoral.

Os europeus andam tão absorvidos com Donald Trump que se têm esquecido de Vladimir Putin. O erro pode ser fatal. 2017 é ano de eleições em França, Alemanha e Holanda. E, em todos estes tabuleiros políticos, o Kremlin colocou as suas peças. Por um lado, apoia Marine Le Pen e Wilders, os candidatos populistas que lideram as sondagens nos seus países. E, por outro, faz os possíveis para fragilizar Angela Merkel, espalhando nas redes sociais notícias falsas sobre o que se passa na Alemanha – como, por exemplo, a mentira de que a igreja mais antiga do país havia sido incendiada por um grupo de muçulmanos residentes. Que ninguém se iluda: uma vitória eleitoral de Le Pen ou uma derrota de Merkel seriam fatais para a União Europeia. E depois de confirmada a influência do Kremlin na campanha presidencial americana, em benefício de Trump, subestimar o perigo da interferência de Putin nas eleições europeias deste ano seria demasiado imprudente.

Também na política internacional se aplica a regra de que não há almoços grátis. Os milhões de euros que Putin transfere para a conta bancária do Front National não se justificam com identificações ideológicas. Essa lógica do financiamento ideológico, com que a antiga URSS financiava células do comunismo pelo mundo, acabou. Putin ambiciona reduzir a credibilidade, a força e a autoridade moral das forças ocidentais. Para quê? Para se reafirmar na sua área geográfica de influência. Para afastar os seus vizinhos da esfera de protecção da NATO. E para enfraquecer a cooperação política e económica europeia, de modo a ampliar a dependência dos seus vizinhos na Rússia. Não é um acaso que Marine Le Pen tenha afirmado que, se eleita presidente francesa, reconheceria a Crimeia como território russo. É a fragmentação do poder europeu e o consequente reconhecimento do poder russo que Putin está a financiar.

Pouco importa, por isso, o que separa Putin, Le Pen e Tsipras. O que os une é muito mais forte. Preferem o proteccionismo económico à globalização, apontam à derrota política do liberalismo no Ocidente, apelam ao reforço da soberania e contestam os benefícios da integração política na União Europeia, questionam a NATO e demais instituições internacionais que asseguram a ordem mundial desde a II Guerra Mundial. Por mais diferentes que possam ser os seus projectos políticos (e nem sequer são assim tanto), o enfraquecimento das instituições europeias é o primeiro requisito para a sua concretização. Com mais recursos financeiros, tecnológicos e políticos, Putin lidera esse bando de inimigos da liberdade numa guerra contra a União Europeia e os valores que esta representa. E conta agora com o respeito de Donald Trump, o homem mais poderoso do mundo. Não chega para nos assustarmos?

Trump domina as preocupações europeias. Enquanto isso, Putin ganha vantagem neste jogo táctico do qual resultará o futuro da Europa. No final, se cantar vitória, a Europa que entregaremos aos nossos filhos será muito diferente da actual – mais fechada, menos próspera, menos plural e menos livre. Há tempos, tudo isto soava a delírio dos estrategas do Kremlin, ainda viciados nos anos da Guerra Fria. Mas, em 2017, delírio seria não reconhecer que se está mais perto do que nunca de ver isso acontecer.

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