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Anda toda a gente, desde o princípio, isto é, desde há dois anos, a perguntar-se qual o limite de elasticidade do Governo, quando é que a coisa quebra. E quando digo “toda a gente” não há praticamente exagero algum. Porque a interrogação não é propriedade exclusiva da oposição nem do público em geral. A pergunta não deve sair da cabeça dos apoiantes da “solução governativa” nem sequer da dos próprios membros do Governo. Nem até, em momentos mais reflexivos, da do Homem-Elástico em pessoa, alter-ego daquele que na vida civil é conhecido pelo nome de António Costa.

Os maiores admiradores do Homem-Elástico julgam-no perfeitamente elástico, capaz de recuperar a forma primitiva quando cessa a acção que o deformava. É o que defende a conhecida doutrina da “habilidade”. Aconteça o que acontecer, tudo voltará a como estava antes, por mais extrema que seja a deformação obtida. A habilidade faz milagres incalculáveis. Uma negociação aqui, uma negociação ali, e dá-se o milagre perpetuamente renovado da recomposição perfeita, tal a virtude magnífica daquele corpo mental. Infelizmente, o número dos crentes incondicionais desce a olhos vistos. Restam aqueles que o julgam incompletamente elástico. De acordo com estes, há limites até para alguém assim. Algo haverá que o fará perder a sua elasticidade. E numa tal situação a habilidade será vã. A questão é: qual será a situação?

Para os aficionados da política, a vida assim tem os seus encantos. Pode-se sugerir, propor, alvitrar. Quem trairá primeiro? Quem o apanhará de surpresa, incapaz de retomar a sua primitiva forma? Apostas são feitas em artigos de jornais. Os parceiros? E qual deles, ou por que ordem? A União Europeia, invejosa deste herói da história aos quadradinhos portuguesa? Ou todos, e se calhar todos ao mesmo tempo? É um jogo que atrai relativamente poucas pessoas, mas que possui uma dignidade reconhecida. No dia tal e tal, diz um, vamos descobri-lo com um braço muito mais longo do que o outro, incapaz de voltar à sua dimensão normal, depois de um abraço a Catarina. Não, diz outro, vai ser uma perna extravagantemente comprida, depois de um exercício de alto risco para ter um pé em Bruxelas. Ou, imagina um terceiro, é o pescoço. O pescoço, é claro, para se alçar ao lugar elevado da superioridade moral comunista de Jerónimo.

Suspeito que o grande público, composto por gente que doseia sabiamente o seu interesse pela política, não viva estas coisas com tanta trepidação. Em todo o caso, os limites da habilidade do Homem-Elástico começam a ser difíceis de disfarçar. Nota-se o esforço. O suor corre pelo rosto. Ele próprio admite estar “momentaneamente cansado”. Perdeu-se aquela graça dos movimentos que antes o celebrizava. De vez em quando precisa de se retirar para, longe dos olhares, voltar à sua condição normal. E alguns pensam até que há algo de estranho em termos de estar constantemente assim, à espera do momento em que o hábil máximo sucumba à perigosidade do seu exercício. Pensam que isso põe desnecessariamente em risco o funcionamento da sociedade. E sonham com o momento em que o alter-ego primo-ministerial do cidadão António Costa desapareça de cena. Não por inveja, cobiça ou outras pouco recomendáveis paixões, antes pelo contrário. Por um genuíno sentimento de humanidade. O público não aprecia o espectáculo de um equilibrista que se estatela no chão, quanto mais de um Homem-Elástico que, sem o saber, ultrapassou os seus limites. Anseia por um António Costa deixado finalmente a si mesmo, à vontade com a sua barriga, liberto da penosa tortura imposta pelo insensato demónio do seu alter-ego.

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Por estes dias, esta visão das coisas, tudo o indica, tem-se tornado mais comum. Houve os fogos, houve Tancos, houve a legionella, houve a trapalhada com o Panteão, houve a justiça salomónica do caso do Infarmed (Lisboa, Porto – e finalmente Lisboa/Porto), houve a história com os professores, houve as perguntas pagas de Aveiro, com os ministros a dormirem e gracinhas ao ministro das Finanças (“Senhor ministro das Finanças, olhe que investir hoje na saúde é poupar amanhã no sistema de saúde”) e houve a querela da contribuição sobre as energias renováveis. O Homem-Elástico bem pode dizer, com “nervos de aço e serenidade”, que está “com ganas” de abrir novos caminhos e de traçar, com regra e esquadro, novas avenidas para a Pátria, num processo sem fim: “E mesmo quando chegarmos ao fim da estrada, vamos continuar a abrir a estrada, porque a nossa estrada não tem fim. A nossa estrada é uma estrada que abrimos sempre, porque há sempre novos caminhos para abrir”. Mas a história aos quadradinhos já não entusiasma ninguém. Tudo conhece um limite de elasticidade e as estradas têm sempre fim. Em política, quando o limite de elasticidade foi ultrapassado e não se deu por isso, começa o delírio. O delírio, salta à vista, já começou.

PS. A propósito da morte de Belmiro de Azevedo. No ano de 2007 participei numa das “Conferências do Equinócio” organizadas pelo IPATIMUP, esta coordenada pelo saudoso João Lobo Antunes e dedicada à “Lição de Fernando Gil”. A um canto da sala esteve sentado durante horas um homem atento e calado, tirando apontamentos, enquanto se discutiam questões de ciência e filosofia. Esse homem, um dos mais ricos (nem sei se na altura o mais rico) de Portugal, financiava estas conferências. Chamava-se Belmiro de Azevedo. Que alguém na situação dele arranjasse tempo para ali estar e procurar aprender alguma coisa daquelas matérias sempre me causou a maior admiração. Uns muitos, muitos, palmos acima do comum, sem dúvida.